Capítulo 3
No nosso mundo, matar é só parte da vida. Mas quanto mais sangue um homem tem nas mãos, mais ele começa a acreditar em fantasmas quando ninguém está olhando.
Orso não era diferente. A coisa que ele mais temia era a maldição do sangue assassinado. E ele tinha conquistado esse medo com honestidade. Anos atrás, um primo que ficava entre ele e o favor do velho don morreu num “acidente de barco”. Eu costumava achar que tinha sido azar. Agora eu sabia melhor. Orso tinha tirado ele do caminho para eliminar um rival — do mesmo jeito que depois tirou meus filhos do caminho.
Com Ottilie encobrindo tudo para mim, conseguir o equipamento foi fácil. Um conjunto de minúsculos alto-falantes direcionais, cada um menor que uma unha. Enquanto Orso estava fora, numa reunião, eu os escondi. Um na abertura de ventilação do escritório. Um debaixo da cama. Um no carro blindado que ele mais dirigia.
O espetáculo começou três noites depois, às duas da manhã.
Orso tinha acabado de voltar do quarto de Renata. Achou que eu estava dormindo e se deitou em silêncio ao meu lado.
No instante em que a cabeça dele afundou no travesseiro, um bebê começou a chorar. Fraco. Entre-cortado. Vindo de lugar nenhum — e de todos os lugares ao mesmo tempo.
Os olhos dele se arregalaram. O corpo inteiro ficou rígido. Ele se sentou num pulo, acendeu o abajur e olhou ao redor do quarto.
— Saveria. Você está ouvindo isso? — Ele sacudiu meu ombro.
Eu esfreguei os olhos como se tivesse acabado de acordar. — Ouvindo o quê? Orso, por que você está suando desse jeito?
— Choro. Um bebê chorando. — Ele encarou o teto, a voz tremendo.
— Você está imaginando coisas. Não tem nada. — Eu me virei e voltei a “dormir”.
O choro parou. Ele se deitou de novo, dizendo a si mesmo que não era nada.
No momento em que fechou os olhos, veio outra vez. Mais alto, dessa vez. Bem no ouvido dele.
— Papai... eu estou com tanto frio...
Era uma gravação que eu tinha feito e passado por filtros, por cima do som de ondas. No escuro, não parecia humano.
Orso gritou. Se atrapalhou para sair da cama, arrancou a arma debaixo do travesseiro e apontou para o quarto vazio como um louco.
— Quem está aí? Quem está fazendo isso?
— Fica longe. Eu não machuquei você. Não foi culpa minha. — As palavras desabaram da boca dele, atropeladas. Ele tremia da cabeça aos pés.
Eu o observei da cama, fria até o osso. Uma parte quieta e feia de mim se sentiu bem.
Aquilo era só o começo.
Na semana seguinte, Orso se despedaçou. Ouvia bebês rindo enquanto trabalhava no escritório. Ouvia água borbulhando quando fechava os olhos no carro. Parou de dormir. Não suportava ficar sozinho num cômodo fechado.
Os olhos afundaram no rosto. O temperamento ficou cruel. Numa reunião de família, puxou a arma por nada e atirou na perna de um dos próprios homens.
— Ele enlouqueceu? — Ottilie disse quando me encontrou no esconderijo. Ela deslizou uma pasta sobre a mesa, com um sorriso fino. — Os anciãos não estão satisfeitos com ele. Enquanto ele anda se assustando com sombras, eu assumi duas das rotas de contrabando dele.
— Ele está entrando nisso, passo a passo. — Mantive o rosto imóvel. — Eu quero ele desgastado. Quero ele doente demais para pensar em qualquer outra coisa.
Renata também não estava nada feliz.
Eu ouvi os dois mais tarde, pelo alto-falante no escritório. Ela o tinha encurralado.
— O que há de errado com você? — ela disparou. — Você não consegue nem dar conta de uma mulher?
— Cala a boca. Você não faz ideia do que eu estou enfrentando. — A voz dele falhou, meio grito, meio soluço. — Eles voltaram. Os pequenos. Estão nesta casa.
Houve um estalo seco de tapa.
— Você é inútil — Renata sibilou. — A coroação é na semana que vem. Se você não der um jeito em Saveria antes disso, acabou. Nós dois.
