Capítulo 1

POV da Sylvia

— Sai da frente! Não atrapalha a cerimônia do nosso Alfa! — uma loba rosnando me empurrou no chão, os olhos dela brilhando com um orgulho que não era conquistado, era emprestado.

O cheiro me atingiu primeiro — um floral enjoativo misturado ao almíscar avassalador de Alfa do Zane Thorne. Quando eu o vi conduzir ela para o Grande Salão na comemoração da lua de nascimento dele, a loba dentro do meu peito soltou um ganido de derrota pura. Eu sabia. Com o peso esmagador de um vínculo rejeitado, eu tinha perdido.

Eu me recolhi para as sombras, enquanto os uivos escandalosos e a risada gutural da Matilha arranhavam meus nervos como lixa em carne viva. O brilho da tela do meu celular era cruel. As mensagens da minha mãe eram brutais na simplicidade:

“Filha. Ele exibe a companheira diante da Matilha. A aposta foi perdida.”

“Três anos. O lobo de Zane Thorne recusou o seu. Volte agora. Seu dever como herdeira da Matilha Presafria não pode esperar.”

Dever. Herdeira. As palavras pareciam algemas de ferro se fechando com estalo. Meu olhar atravessou a multidão até onde Zane estava, o braço dele preso, possessivo, em volta de uma figura esguia. Chloe Vale. A lenda sussurrada da Companheira Verdadeira dele, a Luna perdida e pranteada, o fantasma cuja sombra eu vesti por três anos.

Aquela foi a primeira vez que eu vi a mulher que, sem saber, manteve meu futuro como refém. Chloe parecia… frágil. Etérea. A submissão dela era uma força palpável, um poder quieto que fazia os lobos ao redor parecerem espalhafatosos.

Então era isso que ele desejava. Minha língua passou pelos dentes, sentindo o gosto amargo de cinza do fracasso.

Quatro anos atrás, num encontro de jovens Alfas e fêmeas de alta patente, uma loba atrevida da Matilha Garra de Pedra avançou até Zane. Ela se ofereceu como companheira, uma aliança política embrulhada em fogo.

O Alfa Zane, encostado na lareira de obsidiana, deu uma tragada lenta no cigarro; os olhos âmbar, normalmente quentes, ficaram frios. Aquele sorriso preguiçoso e cruel tocou os lábios dele.

— Foi mal, princesa — ele arrastou as palavras, a fumaça se enrolando no ar. — Meu lobo prefere… mais macias. Mais simples. Menos como uma Alfa rival e mais como… uma ômega.

Escondida nas sombras, eu senti minha própria loba se mexer com uma esperança traiçoeira. Eu o amava em silêncio havia dois anos, atraída pelo poder bruto dele, pelo magnetismo da linhagem. Mas a minha mãe, Astra Frost, a Alfa indomável da Presafria, tinha proibido. A inimizade entre as nossas Matilhas era antiga, e ela via a ideia de Companheiros Verdadeiros com um desprezo gelado, como uma fraqueza mortal.

Ao ouvir a preferência dele, eu vi uma fresta de luz. Eu fiz a aposta: se eu conseguisse fazer o lobo de Zane Thorne me escolher, prendê-lo a mim como meu companheiro, ela abençoaria a união. Ela aceitou — com certeza acreditando que eu fracassaria.

Para vencer, eu enterrei Sylvia Frost. Da noite para o dia, a herdeira da Matilha Presafria sumiu. No lugar dela apareceu uma ômega mansa, supostamente de origem baixa, aparentemente à deriva, sem vínculos. Eu sufoquei minha aura nascida de Alfa, masquei minha força, fiz o papel da criatura vulnerável e gentil que Zane dizia querer. Eu me enfiei no tecido do território dele, uma sombra silenciosa e inofensiva.

Ele acabou notando. Numa noite, depois de uma caçada selvagem sob a lua gibosa, Zane me encontrou esperando. O olhar dele, embaçado de bebida, passou pela docilidade cuidadosamente construída, e uma faísca de interesse preguiçoso acendeu nos olhos cor de ouro de lobo.

— Sempre rondando, lobinha? — A voz dele era um ronco baixo que vibrava nos meus ossos. — Tá com gosto pela coisa de verdade?

Eu assenti, mantendo os olhos baixos, a postura submissa.

Ele soltou uma risada escura.

— Quer ver até onde essa fome te leva? Fica por perto. Seja minha… namorada.

Ele não ofereceu o vínculo de companheiros. Não naquela hora. Nunca, de verdade. Mas era um ponto de apoio.

Três anos. Três anos despejando minha alma nessa farsa. Eu aprendi a cozinhar como humana para cuidar dele, tratei dele em ferimentos reabertos em escaramuças na fronteira, aguentei os cochichos de que eu era uma idiota apaixonada.

Ele brincava, um afeto áspero tingindo o tom:

— Tenho que cuidar da minha sombrinha, né?

Ele falava em prover, um sinal claro de que um Alfa estava assumindo responsabilidade.

A mentira apodrecia dentro de mim. A aposta parecia uma traição à confiança sagrada que um vínculo de companheiros verdadeiros deveria ser. Depois de meses lutando com a culpa — minha loba uivando por honestidade e pela mordida de posse que desejava — eu me decidi: eu contaria tudo a ele no nascimento dele.

Então Chloe Vale voltou para a vida dele.

A energia no Grande Salão mudou no instante em que ela apareceu. Um silêncio pesado caiu.

Um beta perto de mim, desses com língua afiada como faca serrilhada, cutucou o companheiro com o cotovelo, a voz escorrendo veneno.

— Ora, ora… a Luna de verdade voltou. Parece que o lugarzinho de alguém, esquentando o pelo do Alfa, acabou de gelar.

Ele me lançou um olhar de deboche.

— Todo esse rastejar pra provar um gostinho de poder, e o vínculo da companheira verdadeira fecha de vez. Patético.

— Quieto — a voz de Chloe era suave como neve caindo e, ainda assim, calou o sujeito na hora.

Ela virou aqueles olhos enormes e límpidos para mim, cheios de uma tristeza ensaiada.

— Sinto muitíssimo… Sylvia, não é? Zane e eu… o destino nos separou. Eu jamais imaginei que a dor dele, a solidão do lobo dele, fosse levá-lo a… buscar consolo numa sombra. — O olhar dela percorreu minha roupa deliberadamente simples, demorando. — Foi cruel da parte dele usar você como… substituta. Indigno de um Alfa. Mas — acrescentou, baixando a voz num sussurro cúmplice, carregado de pena — você deve ter ganhado tanta coisa ficando perto de um Alfa como o Zane. Com certeza não foi uma perda total, né?

Uma ômega devia agradecer por migalhas na mesa de um Alfa, mesmo sendo só um quebra-galho no lugar da Companheira Verdadeira dele. A ofensa à minha fachada foi cortante, mas a ofensa mais profunda, ao meu sangue, acendeu uma fúria glacial.

A atenção de Zane finalmente pousou em mim por inteiro. Naquela noite, eu estava de vermelho carmesim. A inocência de olhos arregalados tinha sumido.

— Ômegas devem ser submissas.

Quando ele falou, foi a ordem fria e displicente de um Alfa encerrando um incômodo.

— A Chloe voltou. O que a gente teve… serviu ao propósito. Acabou.

Ele puxou um envelope grosso do casaco e jogou na mesinha baixa à minha frente.

— Pelo seu tempo. Considere isso resolvido.

Cem mil dólares. Dinheiro para uma serva favorita, pagamento por serviços prestados, não compensação por três anos oferecidos a um possível companheiro. Ele descartou minha devoção, minha esperança frágil, com a brutalidade casual de quem espanta uma mosca. A frieza absoluta, a redução do que houve entre nós a uma transação, bateu em mim como um golpe. A ironia tinha gosto de veneno.

Três anos! Três anos em que ele não me reclamou, não selou o vínculo. Ele manteve distância, se guardando para a Companheira Verdadeira, e eu — a idiota iludida — confundi aquela contenção com um caminho lento até a lua da reivindicação.

Uma risada, aguda e fria como gelo se partindo, escapou de mim. Cortou os murmúrios. A represa frágil que segurava minha verdadeira natureza se despedaçou.

— Fica com seu dinheiro sujo, Zane Thorne — eu disse, a voz baixa, clara, sem um fiapo de docilidade. — Sinceramente? Eu tô entediada. Seu desempenho na cama foi… mediano. Faltou fôlego, do jeito que se espera de um Alfa de verdade.

Peguei a taça meio cheia do vinho tinto-escuro da Matilha ao meu lado. Com um giro do pulso, o líquido voou e acertou Zane em cheio no rosto, escorrendo como sangue pelas feições chocadas até a túnica impecável.

O silêncio foi total.

Eu peguei calmamente um guardanapo de linho e limpei os dedos com lentidão deliberada. Um sorriso lento e perigoso curvou meus lábios.

— Isso — eu declarei, as palavras soando com uma frieza definitiva — foi por três anos desperdiçados com um lobo cego demais pra enxergar a tempestade diante dele.

Sem olhar para trás, ignorando os rosnados indignados que começavam a se formar e a incredulidade atônita irradiando da Matilha, eu me virei. Eu me virei e saí, as portas pesadas gemendo atrás de mim. Eu não olhei para trás.

O jogo tinha acabado. A máscara tinha caído. Sylvia Frost estava indo pra casa.

POV do Autor

Atrás de Sylvia, o silêncio explodiu.

— Pelas lágrimas da Lua! Ela acabou de…?

— Pirralha insolente! Ela profanou a honra do Alfa!

— Ela recusou cem mil! Que vida aquele vira-lata acha que espera por ela agora?

Zane ficou rígido, limpando o vinho dos olhos, fúria e humilhação lutando no rosto. A aura de Alfa dele se acendeu, quente e sufocante, reprimindo por um momento o alvoroço — mas não o subtexto de sussurros escandalizados.

— Deixa a ômega correr — ele rosnou, as palavras cuspidas. — Se isso poupa a Chloe do incômodo dela, ótimo. Que suma. Ela não é nada. Sem Matilha. Nunca mais vamos sentir o cheiro da laia dela.

Ele descartou Sylvia por completo.

Pra onde ela poderia ir?, sua expressão parecia zombar. Sem Matilha, sem parentes poderosos. Ela ia rastejar de volta ou morrer sozinha.

Mas Sylvia não vacilou. As palavras dele a perseguiram pela noite — e ela não olhou para trás.

Zane Thorne achou que tinha visto o fim dela. Não tinha. Nem de longe.

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