Capítulo 2

Ponto de vista da Sylvia

Eu não fiquei enrolando no Território de Alderwood. Não havia motivo pra ficar. Eu só tinha feito faculdade lá pra estar perto do Zane e, agora que eu me formei e ele encontrou a suposta Verdadeira Companheira, a cidade não tinha mais nada pra mim.

Comprei a primeira passagem disponível de volta pra Howling Peaks, o território ancestral da Matilha Frostfang. Minha terra. Meu direito de nascença.

Quando eu desci do avião, a Morgana Conrad estava me esperando. Minha melhor amiga desde a infância, embora a gente mal tivesse se falado nesses últimos três anos por causa da minha... obsessão.

— Então, você voltou de vez agora? — ela perguntou, vasculhando meu rosto em busca de qualquer sinal daquela ômega de coração partido que eu tinha fingido ser.

Eu sustentei o olhar dela, firme, o queixo erguido de um jeito que eu não me permitia havia anos.

— De vez — confirmei.

Nos anos anteriores, eu só visitava Howling Peaks por pouco tempo entre um semestre e outro, sempre correndo pra voltar e ficar girando em torno do Zane como uma lua patética. Meu tempo com a Morgana tinha sido limitado, nossas conversas, protocolarmente curtas.

Mas agora a aposta tinha sido perdida. Não havia mais nada me puxando de volta pra aquela vida de fachada.

A Morgana apertou meu braço enquanto a gente caminhava em direção ao carro dela.

— Eu soube do que aconteceu com o Zane — disse ela, com a voz suave, mas sem pena. — Vamos não falar dessa merda deprimente. Hoje é pra te dar as boas-vindas de volta pra casa.

Eu sorri — de verdade — e assenti. O nó no meu peito afrouxou um pouco.

A Morgana me levou ao Eclipse, o clube de lobisomens mais exclusivo de Howling Peaks. Ela pediu uma garrafa de uísque raro da Lua de Sangue, do tipo que descia queimando gostoso e vibrava nas nossas veias sobrenaturais.

— Ao seu retorno e à sua liberdade recém-descoberta — ela brindou.

Com um drink só, eu já senti minha loba se espreguiçando dentro de mim, feliz por finalmente se livrar da persona mansa que eu tinha forçado nela por tanto tempo.

— Agradeça à Deusa da Lua por você ter acabado com o Zane — disse a Morgana, enchendo nossos copos de novo. — Do jeito que você se transformou por ele... eu mal te reconhecia. A minha Sylvia selvagem, destemida… de repente virou essa flor de parede dócil, intelectualzinha, que não encostava em álcool nem em carro rápido. Foi bizarro pra caralho.

Meus lábios se curvaram num sorriso que trouxe o primeiro lampejo da antiga confiança. A Matilha Frostfang sempre valorizou coragem e força acima de tudo. Antes da minha farsa, eu era conhecida por amar adrenalina — racha em estrada de serra, bungee jumping de penhasco, até enfrentar lobos renegados nas nossas fronteiras depois da minha primeira transformação, aos dezesseis.

Eu tinha sido a guerreira mais feroz da matilha, uma viciada em esportes radicais que fazia pouco caso de homens e de Alfas também. Eu tinha zombado da crença da minha mãe em companheiros destinados e no destino.

Até o Zane. Até eu sacrificar tudo que fazia de mim… eu, pra virar o que ele queria.

— Eu devo ter perdido a porra da cabeça — eu falei, arrastando as palavras, enquanto girava o líquido âmbar no copo.

Eu ainda não conseguia entender direito o que tinha me possuído. Talvez fosse rebeldia contra a minha mãe, ou talvez eu precisasse provar que os laços de companheiro não eram esse poder supremo que ela dizia ser. Eu tinha me decidido a fazer um lobo que eu escolhi se apaixonar por mim, mesmo que isso significasse me tornar sem graça, comum... até burra.

O bartender quase derrubou uma bebida enquanto me encarava, claramente reagindo aos feromônios de Alfa que eu já não estava mais reprimindo. Minha loba se empinou com a atenção.

— Então — disse a Morgana, me analisando por cima do copo —, agora que você e o Zane acabaram… você vai mesmo voltar pra assumir seu lugar como herdeira dos Frostfang?

Eu dei um gole lento.

— Aposta é aposta.

Minha mãe, a Alfa Astra, era a única Alfa mulher da nossa região. Depois da morte do meu pai, ela enfrentou política de matilha brutal e ataques corporativos contra a Frost Industries com uma resiliência sem igual. Eu sempre admirei a força dela, mesmo quando eu me irritava com o peso das expectativas e do controle que ela colocava sobre mim.

Minha irmã Selene sempre foi frágil demais pra liderança.

E eu… eu desejava liberdade demais. Minha mãe tinha entendido isso, e foi por isso que ela me deu a escolha — a aposta.

Agora eu tinha perdido. E, por mais que aquilo ferisse meu orgulho, eu não era covarde a ponto de fugir das consequências.

Morgana arqueou uma sobrancelha. — A tradição dos Frostfang não exige que você tenha um par antes de assumir oficialmente? A tia Astra já arrumou alguém pra você?

— Não — respondi, com convicção.

Eu entendia minha mãe melhor do que a maioria. Ela era dominante por natureza, mas não era cruel quanto à minha escolha de par. A implicância dela com o Zane sempre teve mais a ver com a rivalidade, de gerações, entre as nossas alcateias do que com ele em si.

— Sylvia — Morgana se inclinou para a frente, baixando a voz num tom conspiratório —, mesmo você tendo perdido a aposta, a tia Astra não vai te forçar a nada. E, sinceramente, tem um monte de lobos que mataria pra ficar com você. — Os olhos dela brilharam, travessos. — Se nada der certo, eu sempre posso te apresentar ao meu primo Caesar.

Caesar Conrad. Só o nome já me provocou um arrepio indesejado na espinha. Como Alfa supremo de todas as alcateias de lobisomens dos Estados Unidos e líder da Alcateia Bloodmoon, ele era o par dos sonhos de incontáveis lobas. O poder, a riqueza e a beleza devastadora dele eram lendários — assim como a frieza e a crueldade implacável.

Quando eu era mais nova, eu tinha ficado momentaneamente deslumbrada por ele. Uma paixonite breve e constrangedora, que eu enterrei rápido. De perto, diante daquele rosto perfeito, o coração de ninguém permanecia calmo. Mas eu era orgulhosa demais, determinada demais a me sustentar sozinha. Eu não precisava de um Alfa poderoso pra comandar a minha alcateia por mim — eu queria escolher o meu caminho, o meu par. Eu evitava ativamente qualquer encontro em que o Caesar pudesse aparecer e, desde então, a gente só trocou olhares distantes em eventos formais de alcateia.

Revirei os olhos com a sugestão da Morgana, fingindo que era só uma brincadeira entre nós.

A bebida gelada desceu pela minha garganta, deixando um amargor inesperado na língua.

Conforme a noite avançava, nós duas ficamos agradavelmente alegres — não bêbadas, porque lobisomens metabolizavam álcool rápido demais pra isso, mas com aquele calor confortável e o corpo solto.

De repente, Morgana checou o celular, e a expressão dela ficou estranha. — O Caesar disse que vai vir buscar a gente.

Eu ouvi a confusão no tom dela. Apesar de ela tecnicamente fazer parte da estrutura de alcateia do Caesar, eles não eram particularmente próximos. Era estranho ele mandar mensagem do nada, perguntando se eu estava com ela, oferecendo carona pra levar a gente pra casa.

— Ele deve só estar sendo responsável — ela murmurou, mas não parecia convencida.

Alguns minutos depois, um Maybach preto e elegante parou em frente ao clube. O vidro desceu, revelando um rosto que fez minha respiração falhar, apesar de toda a minha intenção de não reagir.

Os traços do Caesar eram perfeição esculpida — maçãs do rosto aristocráticas, olhos penetrantes e uma pele pálida que parecia brilhar sob a luz da lua. A presença dele irradiava poder, perigo e alguma coisa primitiva, irresistível, que fez minha loba se agitar inquieta sob a minha pele.

— Entra — ele ordenou, com uma voz grave que passou por mim como veludo escuro.

O olhar dele passou por Morgana por um instante, antes de pousar em mim com uma intensidade que parecia quase física.

Quando nossos olhos se encontraram, meu coração falhou uma batida e, em seguida, disparou como se eu tivesse me jogado de um penhasco. Minha loba, há tanto tempo suprimida sob camadas de fachada, de repente despertou dentro de mim, uivando de volta à vida.

Eu reconheci a sensação na mesma hora, por já ter sentido o eco dela uma vez antes, anos atrás. Mas agora não dava mais pra negar o que era.

O vínculo de par. Despertando. Alcançando. Exigindo reconhecimento.

Eu tinha sido teimosa demais pra aceitar — Caesar Conrad era meu Par Verdadeiro. E, pelo olhar faminto nos olhos dele, o lobo dele tinha acabado de confirmar aquilo que ele aparentemente suspeitava havia anos.

— Porra — eu sussurrei, a palavra carregando todo o peso da minha compreensão, a verdade se assentando sobre mim como um fardo contra o qual eu não conseguia lutar.

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