Capítulo 4

POV da Sylvia

Na manhã seguinte, acordei com uma dor deliciosa irradiando pelo corpo inteiro. Cada músculo parecia gostosamente dolorido, um lembrete físico do encontro apaixonado da noite anterior.

As lembranças voltaram com força quando abri os olhos, e por um instante eu fiquei rígida debaixo dos lençóis. Eu tinha mesmo dormido com Caesar Conrad — o Alfa Supremo de todas as matilhas de lobos dos Estados Unidos?

A ideia fez um turbilhão de emoções conflitantes bater no meu peito. Até os lobos sabiam que não se caçava perto demais do próprio covil.

Enquanto meus pensamentos disparavam, o som da água correndo no banheiro parou de repente. Instantes depois, Caesar saiu, com uma toalha de hotel amarrada baixa nos quadris. Gotículas de água desciam em trilhas tentadoras pelo peito musculoso e pelo abdômen firme. A visão dele — alto, enxuto, poderoso — fez um calor involuntário subir ao meu rosto.

— Você acordou — ele comentou, com a voz tão densa e escura quanto eu lembrava da noite anterior.

— Desculpa pelo que aconteceu ontem — soltei, por reflexo. — Eu bebi demais.

Caesar parou, e os olhos penetrantes se estreitaram um pouco. A expressão dele esfriou visivelmente.

— E? — O gelo na voz dele dava para apagar incêndio.

Peguei minhas roupas do chão, consciente demais das marcas que cobriam minha pele — prova da posse ardente dele. Não desviei quando encarei aqueles olhos de predador, e forcei os lábios num sorriso casual.

— Morgana e eu ainda somos amigas, então sobre ontem à noite… você se importa de deixar isso só entre a gente, Alfa Caesar? — Eu fiz questão de falar num tom preguiçoso, displicente.

Talvez eu estivesse sensível demais, mas eu podia jurar que a expressão dele ficou ainda mais fria depois que eu falei.

Ele acendeu um cigarro, os olhos escuros demorando em mim enquanto a fumaça se enrolava entre nós. Então, com uma casualidade calculada que não combinava com a intensidade do olhar, ele perguntou:

— Você trata todos os Alfas assim? Como tratou aquele Zane, talvez?

O fato de ele saber sobre Zane me pegou desprevenida. Como ele sabia do meu passado com o Alfa da Stoneclaw? A pergunta atravessou minha mente, mas por fora eu mantive o sorriso indiferente.

— Não, Alfa Caesar. É só que… bem, você também se divertiu. Vamos considerar que ficou elas por elas, pode ser?

Eu pisquei de um jeito brincalhão, embora por dentro minha loba choramingasse de inquietação. Caesar Conrad não era como qualquer outro Alfa que eu já tinha conhecido — brilhante, bem-sucedido e famosamente intocável. Como a lua fria, pendurada distante no céu da noite: bonita, mas impossível de alcançar.

Que confusão eu tinha feito.

Caesar deu uma batidinha no cigarro, deixando a cinza cair. Ele não concordou nem discordou da minha sugestão. Eu só vi o escurecer perigoso dos olhos dele, o maxilar ficando rígido.

— Tanto faz — ele respondeu, frio.

Eu soltei o ar, aliviada, e me vesti rápido antes de sair do hotel. Do lado de fora, peguei um táxi de volta para o território da Matilha Frostfang.

POV do Zane

Eu já estava meio entrando no carro quando os dedos da Chloe apertaram de repente a minha manga, os nós dos dedos ficando brancos. Olhei para baixo, irritado — aquele nervosismo dela já estava começando a me dar nos nervos.

— Zane — ela murmurou, mordendo o lábio com força até deixá-lo vermelho —, eu acho… eu acho que acabei de ver a Srta. Sylvia, ali.

Minhas sobrancelhas se ergueram. Sylvia? Aqui? A ideia era absurda o bastante para eu soltar um muxoxo.

— Sylvia? Que diabos ela estaria fazendo aqui? — Aquele hotel cinco estrelas não era só caro — era exclusivo. Do tipo em que até membros medianos de matilha precisavam de convite. Uma ômega rejeitada recém-formada, sem sobrenome importante nem dinheiro? Ela não tinha como pagar nem a bebida mais barata do bar, quanto mais entrar pela porta do saguão.

A voz da Chloe suavizou.

— Talvez ela ainda não consiga te deixar ir. Você sabe como ela era… grudenta, mesmo depois de você terminar. Talvez ela tenha ouvido que você ia encontrar o Alfa Caesar e… veio implorar?

Grudenta. Isso era pouco. Revirei os olhos, sentindo o maxilar travar. Sylvia sempre tinha sido demais — ansiosa demais, faminta demais por um lugar na minha vida que ela nunca mereceu. A cena que ela armou na minha festa de aniversário ainda queimava na memória: o rosto manchado de lágrimas, o jeito como ela gritou acusações como uma brigona de rua, me fazendo passar vergonha na frente da matilha inteira. Agora ela estava me seguindo? Patético.

—Ignore ela —rosnei, puxando meu braço e me livrando da mão. Que ela ficasse rondando nas sombras, se quisesse — logo entenderia o recado. Eu já tinha sido mais do que generoso com ela, afinal. Uma ninguém como a Sylvia? Ela nunca teria nem respirado o mesmo ar que eu se eu não tivesse me dado ao trabalho de namorá-la. Um ano do meu tempo, presentes que custavam mais do que o aluguel dela — ela tinha era que ser grata, não me perseguir feito um cachorro abandonado.

A irritação passou tão rápido quanto veio, substituída pelo foco frio que o Vovô tinha enfiado na minha cabeça desde cedo. Ajustei a gravata, alisando o tecido com dedos precisos. —Temos coisas mais importantes pra nos preocupar. A parceria com a Vertex.

Chloe assentiu, com uma expressão sincera. —Claro, Zane. Você tem razão.

Ótimo. Pelo menos alguém sabia estabelecer prioridades. O declínio da Matilha Thorn não era segredo — dois anos de lucros minguando, território encolhendo, sussurros pelas nossas costas de que a gente estava enfraquecendo. Sem o apoio da Vertex, não seríamos nada. Menos que nada. E o Alfa Caesar Conrad? Garantir o favor dele podia nos tirar do buraco. O Vovô tinha deixado isso bem claro: faça o que for preciso.

Mas, quando chegamos ao andar das salas de reunião, meu estômago revirou. O sorriso da recepcionista estava tenso, ensaiado. —Sinto muito, senhor Thorn. O Alfa Caesar saiu há dez minutos. O Beta dele já está a caminho do aeroporto.

Saiu? Assim, do nada? Cerrei os dentes, forçando uma calma que eu não sentia. —Nenhum recado? Nenhuma remarcação?

—Nada, senhor. Ele parecia… com pressa.

Virei nos calcanhares, os punhos cerrados ao lado do corpo. Claro. É óbvio que o Alfa mais poderoso do país não ia ficar esperando por mim.

A mão de Chloe deslizou para dentro da minha, o toque dela suave. —Não se preocupe, Zane. A Vertex vai dar aquele baile na semana que vem, lembra? Você vai ter bastante tempo pra falar com ele lá. Ele vai ver o quanto a gente é valioso.

A fé dela era quase bonita, se não fosse ingênua. Apertei a mão dela, mas minha mente já corria — que abordagem usar, que vantagem explorar. O baile não seria fácil. Toda matilha ambiciosa da região estaria lá, disputando a atenção do Caesar.

Mas eu não tinha escolha.

Encarei Chloe, a voz afiada de determinação. —De um jeito ou de outro —eu disse— eu vou conseguir essa parceria. A Matilha Thorn não cai sem lutar.

E, se a Sylvia achava que podia entrar aqui toda faceira e me distrair? Estava muito enganada. Tem gente que simplesmente não sabe a hora de ficar no próprio lugar.

POV da Sylvia

Eu tinha voltado para o território da Matilha Frostfang, onde tanto Selene quanto minha mãe me aguardavam.

A expressão da Alfa Astra continuou impassível enquanto me observava. —Eu te avisei desde o começo que o Alfa Zane não era confiável. A Matilha Thorn sempre foi nossa adversária. —A voz dela era fria e objetiva. —Pelo nosso acordo, você perdeu a aposta. Amanhã você começa a trabalhar na Frostline Enterprises. Depois que você estiver casada e por dentro da operação, eu vou trazer você para trabalhar diretamente comigo. A saúde da sua irmã é frágil, então você vai precisar assumir mais responsabilidade na Frostline.

Eu sabia que era melhor não discutir com as decisões inabaláveis da minha mãe. A única vez na vida em que ela cedeu em alguma coisa foi quando fizemos nossa aposta, três anos atrás.

Fiquei em silêncio, mas Selene, de repente, soltou uma risadinha ao lado da minha mãe, num tom deliberadamente provocador. —Mãe, a Sylvia acabou de voltar pra casa e o Hugo agora é meu noivo… com quem, exatamente, você pretende que ela se case?

O Alfa Hugo Gray, o Alfa que minha mãe tinha escolhido originalmente como meu marido, tinha se apaixonado por Selene à primeira vista e rompido nosso noivado anos atrás.

Selene e eu nunca nos demos bem. Como filha adotiva da minha mãe, com problemas de saúde crônicos, ela sempre recebeu a ternura e a complacência que Astra nunca me deu. A pergunta de Selene era claramente para me constranger.

Astra me lançou um olhar, o tom sem emoção. —Vou providenciar alguns candidatos adequados para você conhecer nos próximos dias.

Os lábios de Selene se curvaram num sorriso de satisfação.

Minha mãe sempre foi pragmaticamente calculista. Qualquer marido que ela escolhesse para mim serviria, antes de tudo, aos interesses da nossa matilha, com pouca ou nenhuma consideração pelas minhas preferências ou pela minha felicidade.

Mesmo assim, mantive a expressão neutra. —Mãe, você prometeu que eu poderia escolher meu próprio marido, mesmo que o casamento em si não estivesse em negociação.

As sobrancelhas da minha mãe se franziram em desaprovação.

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