Capítulo 5

POV da Sylvia

Mantive a pose enquanto encarava o olhar penetrante da minha mãe. A tensão na sala era palpável, mas eu me recusei a demonstrar fraqueza.

— Não precisa se preocupar — eu disse, fria. — Eu e o Zane acabamos. Mas, já que um dia vou assumir a alcateia Frostfang, prefiro um casamento estável com alguém que eu não deteste ativamente.

Minha mãe nunca aprovou minha ligação com o Alfa Zane. Em parte porque via meus sentimentos por ele como uma fraqueza que nublava meu julgamento, mas principalmente porque a alcateia Thorn e a alcateia Frostfang eram rivais nos negócios. Embora a Thorn não estivesse exatamente no nosso nível, ainda eram inimigos aos olhos dela.

Para falar a verdade, a natureza controladora da minha mãe raramente se estendia às minhas perspectivas de casamento. De qualquer forma, a atenção dela sempre esteve mais voltada para Selene do que para mim.

Os olhos afiados da minha mãe me avaliaram por um longo momento, procurando qualquer sinal de mentira.

— Muito bem — ela enfim cedeu. — Escolha seu próprio companheiro, mas lembre-se de que você concordou com os termos da nossa aposta, Sylvia. Não me decepcione.

Eu assenti em silêncio.

Depois que minha mãe desapareceu escada acima para resolver outros assuntos, fiquei sozinha com Selene na sala de estar. Apesar de sermos irmãs no nome, nossa relação sempre foi, no melhor dos casos, tensa.

Selene brincava de propósito com as joias caríssimas que minha mãe tinha comprado para ela, com um sorrisinho no canto dos lábios.

— Sylvia, você não acredita mesmo que vai encontrar alguém melhor do que o Alfa Hugo, né? — ela riu, debochada. — Todo mundo no nosso meio sabe como você se humilhou pelo Alfa Zane. Quem ia querer te assumir como Luna agora?

Embora o território da alcateia Thorn ficasse em Alderwood, os rumores sobre meu relacionamento com Zane tinham se espalhado por Howling Peaks como fogo em capim seco, cada um mais sórdido do que o anterior.

Eu apenas lancei um olhar para Selene, sem sentir nada além de indiferença pela minha irmã adotiva. Na verdade, eu tinha sentido alívio quando Hugo desfez nosso noivado, embora Selene sempre tivesse guardado ressentimento de mim por motivos que eu nunca consegui compreender completamente.

— Hugo Gray? — ergui uma sobrancelha, um sorriso sarcástico se formando. — Fica com ele, então, se você quiser. Embora eu tenha ouvido que ele “se diverte” por aí com bastante… liberdade. Talvez exames regulares sejam uma boa ideia, mana.

— Sua…! — o peito de Selene subiu e desceu de indignação.

Eu sabia a diferença no jeito como minha mãe nos tratava. Astra era dura comigo porque as expectativas dela eram mais altas. Mas por que isso incomodaria Selene? Por que tanta hostilidade sem fim?

Quando me afastei, eu senti o olhar dela queimando nas minhas costas, escuro de um rancor não dito. Ela era a filha adotiva da Alfa Astra, e ainda assim aquilo nunca parecia ser suficiente para ela. Pelo menos eu não tinha sido idiota a ponto de mascarar meu cheiro de Alfa só para agradar um homem.

Eu tinha coisas mais urgentes do que o ciúme de Selene. A notícia de que eu estava solteira de novo se espalhou rápido, e amigas se apressaram em marcar apresentações com possíveis companheiros. Por três dias seguidos, eu me encontrei com vários pretendentes — nenhum deles despertou o menor interesse na minha loba.

Eu estava saindo do meu encontro mais recente, tão decepcionante quanto os outros, quando uma voz conhecida me chamou.

— Sylvia? Que coincidência.

Chloe estava ali perto, com o braço enlaçado de forma possessiva ao de Zane, vestida com roupas de grife caríssimas que gritavam “dinheiro novo”. A expressão dela continuava docemente dócil como sempre, embora os olhos contassem outra história.

Ao lado dela, Zane franziu a testa ao observar minha aparência. Eu sabia que eu estava diferente — batom vermelho marcante, cabelo arrumado, confiança irradiando por cada poro. Nada a ver com a ômega submissa que eu tinha fingido ser.

— O que você está fazendo aqui? — ele exigiu, com a voz gelada.

Aquele restaurante funcionava com base em um sistema exclusivo de associados. Na cabeça dele, alguém do meu suposto status não deveria ter acesso a lugares assim.

Eu curvei os lábios num sorrisinho provocador. — E por que eu não estaria aqui?

— A Srta. Sylvia veio trabalhar? — a risadinha suave de Chloe vinha com um toque de falsa pena. — O pagamento deve ser bom, eu imagino, mas uma formada em universidade como você com certeza consegue algo melhor do que servir mesas.

— E qual é o problema em ser garçonete? — deixei meu olhar passear com preguiça pelo look dela, que devia custar uma pequena fortuna. — Dinheiro ganho com trabalho honesto é muito melhor do que viver às custas da carteira de um homem.

Chloe empalideceu um pouco, mordendo o lábio inferior naquele jeito perfeitamente ensaiado de donzela em apuros que fazia minha loba querer rosnar.

O rosto de Zane escureceu de nojo. — Não há nada de errado em sustentar a minha companheira. Quando nós terminamos, eu te ofereci cem mil dólares como compensação, e você recusou teimosamente. Com essa atitude, Sylvia, você está longe de ser qualificada para trabalhar num lugar como este.

Ele se virou para chamar o gerente, enquanto Chloe me observava com uma satisfação discreta brilhando nos olhos.

Vendo os dois juntos, de repente eu achei a situação ridiculamente absurda. Se eu realmente fosse uma recém-formada passando aperto, sem matilha nem recursos — a ômega que eu fingi ser —, as atitudes de Zane teriam destruído a minha vida, me empurrando ainda mais para a miséria.

E Chloe, que deveria entender essa vulnerabilidade melhor do que qualquer um, simplesmente ficou ali, assistindo enquanto ele tentava me arruinar. Bela “companheira verdadeira”.

O gerente veio apressado, com a preocupação estampada no rosto.

— Aquela garçonete está cheia de marra — disse Zane, num tom que dava vontade de desligar o ar-condicionado. — Sério, vocês deixam alguém com essa atitude trabalhar aqui?

Os olhos do gerente se arregalaram, alarmados. — Ei, calma… houve um mal-entendido, Sr. Thorne. Essa é a Srta. Sylvia, uma das nossas associadas do cartão black. Ela não é funcionária.

— Como é que é? — as sobrancelhas de Zane saltaram, como se ele tivesse acabado de ver um cachorro recitar Shakespeare.

A expressão dele azedou, o nariz enrugando como se tivesse sentido um cheiro podre. — Sylvia. Poupe-me do teatrinho. Você acha mesmo que esse showzinho vai me fazer voltar rastejando? Ah, por favor.

Eu lancei um olhar entediado na direção dele, com os lábios tremendo de diversão. — Uau. Você é mais burro do que uma porta.

Ponto de vista de Zane

Eu não acreditava no que estava vendo. Sylvia — ali, como se mandasse no lugar, transbordando uma confiança que eu nunca tinha visto nela. As palavras do gerente ecoavam na minha cabeça: associada do cartão black.

Nada fazia sentido.

Por três anos, ela tinha sido o retrato da humildade — usando sempre as mesmas roupas discretas, aceitando os itens mais baratos do cardápio quando a gente saía para comer, sem nunca dar um único indício de riqueza escondida. E agora, de repente, ela aparecia com cartão black em um dos lugares mais exclusivos da cidade?

— Sua mesa está pronta, Srta. Sylvia — anunciou o gerente, com uma deferência que me deu um arrepio. — A sala privativa, como solicitado.

— Obrigada — ela respondeu com naturalidade, a voz carregando uma autoridade que parecia ter surgido do nada.

Ao meu lado, Chloe se remexeu, desconfortável. — Zane, querido, talvez a gente devesse ir… a nossa reserva—

Mas eu não conseguia me mexer. Algo essencial tinha mudado, como se o chão debaixo dos meus pés tivesse inclinado de repente. A Sylvia que eu conhecia — a ômega quieta que venerava cada passo que eu dava — não existia em lugar nenhum naquela postura confiante.

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