Capítulo 6

POV do Zane

Eu nunca pensei que a noite fosse terminar assim. Um instante eu estava, cheio de confiança, acompanhando minha verdadeira companheira por um dos restaurantes mais exclusivos do território e, no seguinte, estavam me mandando embora como se eu fosse algum vira-lata.

— Desculpe, Sr. Thorne — disse o gerente, com uma cortesia polida e ensaiada. — Sua associação foi cancelada por decisão do proprietário. Infelizmente, vamos ter que pedir que o senhor se retire.

Cancelada? A palavra me atingiu como um golpe. Aquilo não era só um lugar para comer — era um símbolo. Um centro de poder da elite dentro da comunidade de lobisomens. Ser membro significava alguma coisa. Ser expulso… significava ainda mais.

— Posso saber o que motivou essa decisão? — consegui perguntar, mantendo a voz controlada apesar da fúria crescendo por dentro.

O gerente apenas estendeu a mão na direção da saída, o rosto impassível, sem revelar nada.

E então eu a vi. Sylvia. Ela estava sentada, relaxada, com aquele sorrisinho irritante repuxando os lábios. A expressão de uma mulher que tinha acabado de derrubar um rei do trono.

A mão de Chloe tremeu na minha. Eu sentia o desconforto dela no jeito rígido com que se agarrava a mim, o cheiro dela azedando de aflição. Eu me virei e a conduzi para fora, com a mandíbula tão cerrada que as têmporas latejavam. A ardência da humilhação foi cortante — e piorava com o olhar calmo e sabendo de Sylvia.

Assim que saímos, os olhos de Chloe se encheram de lágrimas, e a voz suave dela quebrou o silêncio tenso entre nós.

Do lado de fora, a voz de Chloe rompeu o silêncio, baixa e hesitante:

— Zane… você acha que a Sylvia teve algo a ver com isso?

Eu respondi rápido demais, cortante demais:

— Impossível.

Meu lobo uivou em discordância, mas eu o enterrei.

— Ela não tem esse tipo de influência.

Chloe se aproximou mais e sussurrou:

— Mas o dono não é alguém muito poderoso? E se ela estiver… se oferecendo pra ele? Ela mudou. Talvez esteja fazendo isso por despeito.

— Deixa ela sonhar. — Minha voz saiu fria, seca. — Homens como ele não perdem tempo com alguém como ela. Ela não vale isso.


POV da Sylvia

O encontro tinha terminado horas antes — mais uma reunião decepcionante com um possível companheiro que não conseguia despertar o menor interesse no meu lobo. Três anos suprimindo minha verdadeira natureza de Alfa tinham embotado meus sentidos, tornando quase impossível sentir aquela faísca de que todo mundo falava.

Depois do meu encontro satisfatório com Zane e a tal “Verdadeira Companheira” dele, eu fiquei no restaurante, bebendo vinho e aproveitando o silêncio do que tinha sido uma justiça poética. Quando eu me levantei para ir embora, uma figura familiar surgiu do outro lado do salão.

Caesar Conrad.

Meu lobo imediatamente se animou com a presença dele — coisa que não tinha acontecido em nenhum dos meus encontros arranjados. Alto, poderoso, com cabelo escuro como a meia-noite e olhos que pareciam guardar segredos antigos, ele se movia com a graça letal de um predador. Como Alfa da Matilha Lua de Sangue e o suposto Rei Lobo, que tinha autoridade sobre todas as matilhas da América do Norte, a presença de Caesar sempre chamava atenção.

— Que surpresa ver você por aqui, Alfa Caesar — cumprimentei, cuidando para manter a compostura mesmo com o calor subindo pela minha pele por causa da proximidade dele. Eu me recusei a reconhecer a noite que já havíamos compartilhado — a noite que assombrava meus sonhos mais do que eu gostaria de admitir.

O olhar dele passeou por mim, lento e calculado.

— Em mais um encontro? — perguntou, a voz baixa, áspera e macia ao mesmo tempo.

Eu assenti, tentando me manter firme. Não era surpresa ele saber das minhas tentativas — as notícias corriam rápido no nosso meio, ainda mais quando envolviam uma herdeira Alfa sem companheiro.

— Ideia da sua mãe? — ele perguntou, a expressão indecifrável, os olhos sem refletir nada e, ao mesmo tempo, enxergando tudo.

Antes que eu conseguisse formular uma resposta, ele continuou, com uma franqueza inesperada:

— Que coincidência. Minha família também está me pressionando por causa de casamento.

Os olhos dele prenderam nos meus, e uma intensidade queimava por trás daquela calma.

— Então, Sylvia… por que a gente não se vincula? Resolve os dois problemas de uma vez.

Meu coração falhou várias batidas.

Merda… aquilo não era uma proposta qualquer — era Caesar Conrad.

—Posso perguntar por quê? —consegui dizer enfim, engolindo em seco enquanto as lembranças da nossa noite juntos me inundavam. —Se é por causa do que aconteceu entre a gente... não precisa. Você foi... habilidoso. Eu gostei.

—Se eu precisar de um motivo... —Caesar brincou distraidamente com a presa de lobo presa no pulso, a voz perigosamente casual. —Vamos chamar de benefício mútuo. Você é amiga da Morgana, e eu confio no julgamento dela.

Ergui uma sobrancelha, tomando um gole lento do meu vinho.

—Benefício mútuo? Fiquei curiosa pra saber que benefício o todo-poderoso Rei Lobo teria ao formar um vínculo comigo.

Os lábios de Caesar se curvaram num sorriso que não chegava aos olhos. Ele se inclinou mais perto, e o cheiro dele me envolveu —sândalo, pinho e algo selvagem que fez minha Alfa interior reagir por instinto.

—Pra começar —murmurou, baixando a voz para um tom grave e íntimo— eu ganharia mais uma noite com você. Sem pressa. Sem álcool. Só você, inteira, presente.

Os dedos dele roçaram nos meus por cima da mesa, e uma descarga percorreu minhas veias. Minha loba pressionou contra a minha pele, desesperada para ficar mais perto dele.

—Eu tive bastante tempo pra pensar naquela noite —continuou, a voz ainda mais baixa. —Em como você se sentiu sob mim. Nos sons que você fez. Em como seu corpo respondeu ao meu com perfeição.

Lutei para controlar a respiração, com as lembranças das mãos dele na minha pele, da boca dele marcando cada centímetro de mim, ameaçando engolir meus sentidos.

—E tem a pequena questão da política —acrescentou, recuando um pouco, num tom profissional que não combinava com o fogo nos olhos. —Uma aliança entre a Blood Moon e a Frostfang criaria a coalizão mais poderosa que o mundo dos lobisomens viu em gerações.

Observei-o com cuidado, tentando enxergar além da máscara perfeita.

—E você acha que eu aceitaria um casamento político? Depois do que aconteceu com o Zane?

A expressão dele esfriou ao ouvir o nome.

—Isso não é a mesma coisa. Eu não jogo, Sylvia. —Os dedos dele desenharam círculos na minha mão. —O que eu ofereço é poder, proteção... e prazer pra caramba.

Ele não tinha notado o nosso vínculo —ou talvez tivesse notado e preferido não mencionar. Eu ainda escondia a instabilidade no meu cheiro, as rachaduras na essência da minha loba. Sozinha, era um risco. Mas com ele... podia virar uma arma.

Minha loba ronronou, mas eu tinha aprendido a não me atirar no primeiro sinal de carinho.

—Eu vou precisar de tempo pra pensar.

—Claro. —Ele se levantou, imenso sobre mim, e a presença dele fez o ar ao redor parecer carregado de eletricidade. —Mas não demore. Eu não sou conhecido pela paciência.

Quando se virou para sair, ele parou.

—Ah, e espero que você tenha gostado do pequeno espetáculo mais cedo. Considere um presente —o primeiro de muitos, se você aceitar a minha oferta.

Meus olhos se arregalaram, entendendo.

—A revogação da associação? Foi você?

O sorriso de Caesar era predatório, e um arrepio prazeroso correu pela minha espinha.

—Eu sou dono deste restaurante, Sylvia. Entre outras coisas.

Eu nunca pensei que um jantar casual fosse mudar minha vida de forma tão drástica. Enquanto eu ponderava a proposta inesperada de Caesar, minha loba andava em círculos sob a minha pele, mais alerta e viva do que tinha estado em anos.

Quando ele mencionou a Morgana antes, não consegui evitar um sorrisinho. Fiquei imaginando o que minha amiga acharia de eu me casar com o primo dela. Mas, convenhamos, com aquela cara... era difícil não ceder à tentação.

Se eu precisava encontrar alguém que eu não desprezasse, alguém com integridade e poder pra me casar, Caesar realmente era a melhor opção disponível.

Desenhei um sorriso com meus lábios vermelho-rubi, batendo os cílios de modo provocante.

—Caesar, querido, acho que eu não tenho motivo nenhum pra recusar.

Os olhos dele escureceram, satisfeitos.

—Então amanhã. Dez da manhã no cartório.

Ele ia sair, aparentemente com outros assuntos pra resolver, quando parou de repente. As sobrancelhas escuras se franziram levemente ao perguntar, com intenção clara:

—E o Zane...?

—Acabou —respondi, baixando o olhar ao lembrar da expressão do Zane mais cedo naquela noite. —Não se preocupa. Eu não sou do tipo que volta pra repetir o prato.

Só então ele enfim se virou e foi embora. Eu acompanhei a silhueta dele se afastando, tomada por uma estranha sensação de irrealidade.

Eu realmente ia me casar com Caesar Conrad.

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