Capítulo 4
Ponto de vista da Iris
“O quê?” Eu me sentei na cama, com a cabeça ainda meio enevoada de sono.
“A Emily cortou os pulsos por causa de todo o ódio na internet!” A voz do Liam tremia — de raiva ou de medo, eu não soube dizer. “Não se faz de sonsa comigo! A escola inteira tá chamando ela de talarica, dizendo que ela se meteu entre a gente! Quem MAIS começaria isso se não fosse você?!”
Eu pisquei algumas vezes, de repente completamente acordada.
Ódio na internet? Talarica?
“Liam, do que você tá falando?” Eu franzi a testa. “Eu não sei de nada sobre assédio online nenhum.”
“Para de MENTIR!” Agora ele estava gritando. “O Instagram tá cheio de gente atacando a Emily! Dizendo que ela roubou meu lugar, dizendo que ela fingiu aquela queda, dizendo que ela é uma pobrezinha tentando subir na vida! Se não foi você que fez isso, então QUEM FOI?!”
Eu abri o Instagram e entrei nos perfis anônimos da escola.
Ele tinha razão — fotos e vídeos do baile estavam por toda parte. Cada post afundado em comentários venenosos.
“Emily talarica roubando o homem da Iris e pagando de vítima.”
“A Iris abriu mão de YALE por ele e essa vadia ainda foi atrás do Liam?”
“Comportamento típico de menina pobre — não aguenta ver os outros felizes.”
Eu fui rolando os comentários e cheguei a rir de verdade.
“Liam, o baile foi público.” Minha voz saiu gelada. “As pessoas estão caindo em cima da Emily porque ela merece.”
“Iris Vanderbilt!” A voz do Liam falhou. “O que é que tem de ERRADO com você?! A Emily tá no pronto-socorro! Os médicos disseram que ela perdeu muito sangue!”
“E?” Eu cortei. “O que exatamente você quer de mim?”
“Você tem que ir pro hospital AGORA e pedir desculpas!” Ele não estava pedindo — estava exigindo. “Você vai dizer pra Emily e pra todo mundo que você estava errada sobre ela!”
Ouvindo ele falar como se tivesse qualquer direito de me dar ordens, eu senti alguma coisa estalar dentro de mim.
“Liam, você enlouqueceu de vez?” Eu soltei uma risada fria. “Por que diabos eu pediria desculpas?”
“A Emily quase MORREU! E tudo que você se importa é com o seu ego?!”
“Se ela vive ou morre? Não é problema meu.” Minha voz ficou ainda mais fria. “Liam, eu não comecei campanha nenhuma de assédio. E quer saber? Mesmo que eu tivesse começado, ela ainda ia estar merecendo.”
“Você—”
Eu desliguei na cara dele.
No resto das férias, o Liam surtou de vez no Instagram.
Praia no pôr do sol — braço em volta da Emily. Carnaval — comprando algodão-doce pra ela. Um restaurante caro — a Emily com mais um vestido novo.
Eu sabia exatamente o que ele estava fazendo. Achou que eu ia desabar e voltar rastejando, como eu sempre fazia.
Dessa vez eu nem olhei. Só continuei arrumando minhas malas.
Eu fui até o meu closet, tirando tudo o que o Liam já tinha me dado.
Esse colar? Presente de aniversário. Ele disse que era peça única. Duas semanas depois, eu vi exatamente o mesmo no pescoço da Emily.
Esse ursinho de pelúcia? Fazia parte de um conjunto igualzinho. Ele pegou um porque “adorou meu perfume e queria ter alguma coisa pra se lembrar de mim”. No dia seguinte, apareceu em cima da mesa da Emily.
Aqueles saltos. Aquela vela. Aquele livro. Cada coisa que eu achava que me tornava especial era só uma cópia.
Joguei tudo num saco de lixo. Não guardei absolutamente nada.
As mensagens do Liam não paravam de chegar.
“Iris, você realmente precisa pensar no que você fez.”
“A Emily quase morreu por sua causa. Você não se sente nem um pouco culpada?”
Olhei aquelas mensagens e sorri sozinha.
Depois apaguei todas, uma por uma.
No dia anterior ao meu voo, o Liam mandou uma última mensagem.
“Iris, você devia refletir sobre o seu comportamento. Já chega de te punir — espero que você tenha aprendido alguma coisa. Te vejo amanhã na faculdade. Tenho algo importante pra te contar.”
Fiquei encarando aquela mensagem e, de verdade, caí na risada.
Algo importante?
Provavelmente pra me avisar que tinha sido aceito em Yale esse tempo todo e que não precisava mais de mim.
Não respondi. Só apaguei o contato do Liam de vez. Bloqueei ele em tudo.
Dez horas depois. Aeroporto de Heathrow.
O céu de Londres estava cinzento, pesado de nuvens, e o ar vinha carregado de uma névoa úmida.
Arrastei minha mala pela área de desembarque, procurando na multidão o misterioso “velho amigo” da Gen.
“Iris Vanderbilt?”
Uma voz grave falou atrás de mim.
Eu me virei e travei completamente.
Sebastian Rockefeller estava ali, num terno azul-marinho impecavelmente ajustado, o cabelo dourado arrumado sem um fio fora do lugar, os olhos âmbar brilhando de diversão.
“Quanto tempo.” Ele deu um sorriso torto. “Aposto que você não viu essa chegando.”
Eu abri a boca, mas não saiu nada.
“O que foi?” Sebastian arqueou uma sobrancelha. “Não era quem você estava esperando?”
“Eu só—” Respirei fundo. “Eu não achei que fosse você.”
“Sua irmã pediu pra eu te buscar.” Ele se inclinou e pegou minha mala como se não pesasse nada. “Ela comentou que você passou por uns ‘tempos difíceis’ ultimamente. Disse que você precisava dar uma sumida.”
Eu encarei ele, com a cabeça a mil. Depois daquela briga monstruosa três anos atrás, o Sebastian tinha ido estudar fora. A gente não se falava desde então.
“Vamos.” Sebastian cortou meus pensamentos, empurrando o carrinho de bagagem em direção à saída. “Meu carro tá lá fora. Ah, e tem um negócio hoje à noite — uma festinha, se você estiver a fim—”
Meu celular tocou.
Peguei — chamada de vídeo da minha amiga Jessica.
Mas, quando eu atendi, a Jessica não estava na tela.
Era o Liam.
O rosto dele ocupava o enquadramento inteiro, os olhos arregalados e avermelhados, o cabelo todo bagunçado, com uma expressão de choque e fúria ao mesmo tempo.
“Iris!” Ele estava praticamente berrando. “ONDE DIABOS VOCÊ TÁ?! Eu tô aqui parado na faculdade feito um IDIOTA desde cedo! ONDE VOCÊ TÁ?!”
