Capítulo 1

Minha data prevista de parto já estava chegando, e meu marido, Ethan, estava me levando ao hospital.

Mas, no meio do caminho, Ethan freou de repente.

Eu segui o olhar dele e vi a Chloe.

A ex-namorada dele.

Ela estava debaixo de uma chuva torrencial, carregando duas sacolas pesadas de compras, se atrapalhando para segurar uma caixa de leite nos braços. O filho dela, de três anos, se agarrava ao casaco dela, andando colado.

— Espera aqui um minutinho — disse Ethan, soltando o cinto de segurança. — Preciso ajudar ela.

Desde o divórcio da Chloe, sempre que queimava uma lâmpada, ela ligava para o Ethan. Se um cano vazava, ela ligava para o Ethan. Até quando o filho dela precisava de ajuda com algum trabalhinho da escolinha, ela ligava para o Ethan.

E, toda santa vez, ele aparecia.

— Ethan! — eu encarei ele, sem acreditar. — A gente está indo para o hospital para ter o nosso bebê! Eu estou com dor agora!

— Eu sei, mas a Chloe está aqui fora nesse temporal, carregando tudo isso e cuidando do menino. Ela não tem como subir com tudo sozinha. Eu não posso fingir que não vi, posso? Vai levar dez minutos, no máximo.

— Não tem mais ninguém? Ela mora aqui, pode subir com o menino primeiro, descer depois para pegar as sacolas, ou pedir ajuda para um vizinho. Por que tem que ser você?

Ethan finalmente virou para mim, com a decepção estampada no rosto.

— Sarah, ela é mãe solo. Você está prestes a ser mãe também... não dá pra ter um pouco de empatia?

Antes que eu conseguisse responder, alguém deu uma batidinha suave no vidro do carro.

A Chloe tinha se aproximado em algum momento.

— Ethan, ainda bem. Você pode me dar uma mão? Ah... Sarah, você também está aqui? Vocês estão indo para o hospital? Desculpa mesmo, se eu soubesse que era urgente, não teria incomodado vocês.

Ela ajeitou a caixa de leite nos braços, deixando à mostra um pulso avermelhado de tanto esforço.

— Ethan, você devia levar a Sarah pro hospital.

— Tá tudo bem, eu te ajudo. Vai ser rapidinho. — Ethan saiu do carro e olhou por cima do ombro para mim. — Fica no carro e espera por mim.

Clique. A trava central acionou.

A Chloe acenou para mim, pegou a mão do filho e, com a maior naturalidade do mundo, passou a caixa mais pesada para o Ethan.

Os dois, com o menininho, se juntaram em volta do Ethan e desapareceram no vão de escada escuro.

O mundo ficou em silêncio, exceto pelo som surdo das gotas de chuva batendo no teto.

Uma dor aguda tomou minha barriga, e um jato quente e repentino encharcou a parte de baixo do meu corpo.

Com as mãos tremendo, eu procurei meu celular às cegas e liguei para o Ethan.

— Ethan! Socorro! Minha bolsa estourou! — eu soluçava ao telefone. — Volta! Eu estou com muita dor agora!

A voz de Chloe veio pelo telefone. “Sarah, relaxa. Do jeito que você tá gritando, você tá longe de entrar em trabalho de parto. Quando for de verdade, você nem vai conseguir falar.”

“Cala a boca! Passa o telefone pro Ethan!”, eu berrei.

“Se acalma, Sarah.” A voz de Chloe ficou mais suave. “Hormônio de gravidez deixa a gente à flor da pele.”

“Sarah.” A voz de Ethan saiu tensa, mal segurando a raiva. “Eu não sei qual é o seu surto. Eu te falei: eu só tô ajudando ela a subir umas coisas. Em dez minutos eu tô de volta.”

“Eu não tô mentindo… a minha bolsa estourou mesmo…”

A ligação caiu de repente.

Eu liguei pro Ethan de novo. Nada. De novo. Celular desligado.

“Ah—” Uma onda de dor me rasgou por dentro, e eu gritei.

Eu não podia morrer ali. Meu bebê não podia morrer ali.

Encharcada de suor e tremendo, liguei pro 192, soluçando enquanto explicava a minha situação.

Mandaram eu sair do carro, mas o Ethan tinha trancado.

Espera — o porta-malas tinha uma abertura de emergência…

Lutando contra a agonia que parecia me partir ao meio, soltei o cinto e, com muito esforço, me arrastei para trás.

Cada movimento mandava choques pelo meu ventre.

O líquido amniótico encharcava minha calça, frio e pegajoso.

“Onde tá… onde…” Desesperada, procurei no escuro, os dedos cortados na caixa de ferramentas, até que finalmente encontrei uma alça.

Bum!

O porta-malas abriu uma fresta.

Eu rolei pra fora, caindo com força numa poça de lama do lado de fora.

A chuva gelada se misturou ao líquido amniótico morno e salgado, escorrendo pelas minhas pernas e manchando a água embaixo de mim.

Pouco antes de tudo apagar, achei que ouvi o uivo urgente de uma ambulância.

……

“Onde está a sua família?” Uma enfermeira colocou uma máscara de oxigênio no meu rosto, gritando, aflita. “Senhora, precisamos falar com o seu marido agora! Qual é o número dele?”

Com as mãos tremendo, destravei o celular, mas o número que eu disquei não atendia.

Então apareceu uma notificação de rede social.

Era um snap da Chloe.

Sem pensar, eu toquei.

Na tela, passou um vídeo curto: Ethan estava sentado no sofá, com um ar tranquilo, enquanto Chloe, atrás dele, secava de leve o cabelo molhado dele com uma toalha.

A risada provocadora de Chloe enchia o vídeo. “Que bobo, se encharcou todo só pra me ajudar. Ainda bem que eu tô aqui.”

Uma tristeza esmagadora veio como uma onda, me deixando sem ar.

Eu desisti de tentar falar com ele.

E desisti do nosso casamento também.

“Não tenho família…” Eu soluçava, balançando a cabeça, lágrimas escorrendo e se misturando ao meu cabelo úmido, a voz rouca, quebrada. “Eu assino por mim.”

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