Capítulo 2

Eu não sabia quanto tempo tinha passado até abrir os olhos de novo.

— Ei, você acordou?

A mulher na cama ao lado se inclinou, com os olhos cheios de compaixão.

— As enfermeiras disseram que você teve um parto de emergência. Os médicos ficaram duas horas trabalhando só pra te trazer de volta... Como é que seu marido não estava aqui numa coisa tão séria?

Eu congelei.

— Ele... não veio?

Naquele instante, o frio no meu peito doeu mais do que os meus ferimentos.

Respirei fundo, segurando a dor e a raiva que subiam por dentro, e disquei o número do Ethan.

— Sarah? — a voz do Ethan veio meio ofegante. — Você é tão impaciente. Eu só pedi pra você esperar mais um pouco, não pedi? A tempestade estourou a janela da Chloe. Tem vidro pra todo lado. Se eu não consertar, a chuva vai acabar com o apartamento dela hoje à noite.

Meus dedos ficaram brancos apertando o celular.

— Ethan, já faz quatro horas desde que você me prometeu “dez minutos”.

— Eu tava ocupado! — ele retrucou, estourando. — Tá bom, tô descendo agora.

Ele desligou.

Eu encarei a tela escura do celular, até que as lágrimas finalmente escaparam.

Dez minutos depois, Ethan me ligou de volta.

— Sarah! Que diabos você tá fazendo? Por que você não tá no carro? Você tem noção de como tá chovendo? Você tá grávida, prestes a dar à luz, e fica andando pra lá e pra cá? Você tá querendo me preocupar?

Ele finalmente tinha notado que eu tinha sumido.

Nessa hora, uma enfermeira entrou na ronda.

— Senhora, precisamos verificar o seu sangramento. E como a sua bebê nasceu com baixo peso, a senhora precisa ficar bem atenta à temperatura dela.

A ligação ficou muda.

Depois de alguns segundos, a voz do Ethan voltou, trêmula, incrédula:

— Sarah? Onde você tá? Você... você teve o bebê?

Eu não respondi. Só desliguei.

O Ethan apareceu, sim. Eventualmente.

Ele entrou correndo no quarto do hospital, mas eu estava exausta demais — por dentro e por fora — até pra olhar pra ele.

— Sarah, deixa eu explicar, eu realmente achei que... — ele continuou falando ao lado da minha cama, tentando segurar minha mão.

Eu puxei a mão e fechei os olhos.

Eu não queria ouvir.

Tudo o que eu queria agora era dormir.

Eu dormi pesado. Quando acordei, a cadeira ao meu lado estava vazia — Ethan tinha ido embora.

No criado-mudo havia um bilhete rabiscado às pressas: [A enfermeira disse que você precisa de absorventes e fraldas. Vou ali na lojinha aqui embaixo. Já volto.]

Peguei o celular e abri a rede social da Chloe, quase por hábito.

Ela tinha postado uma hora antes.

A foto mostrava um termômetro marcando 39°C, com a mão grande de um homem segurando uma bolsa de gelo na testa de uma criança.

Aquela mão usava uma aliança — a mesma que eu tinha escolhido.

A legenda dizia: [O Liam teve uma febre assustadora, mas graças a Deus você está aqui. Mesmo cansado, você ainda é a rocha em que eu posso me apoiar.]

Claro. Essa era a verdade.

Ele tinha ficado no meu quarto, no máximo, meia hora.

Nem perguntou: “Cadê a nossa filha?”

Eu encarei a foto, e meus lábios se torceram num sorriso mais feio do que chorar.

— Ei, você precisa de ajuda? — a mulher na cama ao lado falou com gentileza. — Você não tem nada aí... Se você não se importar, pode usar um pouco do meu? Meu marido comprou coisa demais.

— Obrigada... — minha voz falhou quando meus olhos se encheram de lágrimas.

A bondade de uma desconhecida me atingiu como um tapa na cara do meu casamento.

No fim daquela noite, o rostinho da minha filha ficou de um vermelho escuro, assustador, e o peitinho dela subia e descia depressa.

— Doutor! Enfermeira! — eu gritei em pânico, apertando o botão de chamada com força, mas o corredor estava um caos — devia ter chegado alguma emergência — e ninguém respondeu de imediato.

O terror afogou a minha dor.

Ignorando a queimação dos pontos, cerrei os dentes e peguei minha filha, que ofegava.

Ela era tão pequena, ardendo em febre, tremulando nos meus braços como um passarinho morrendo.

Descalça, eu cambaleei para fora do quarto, apertando-a contra o peito.

— Cadê um médico... por favor, ajudem minha bebê...

A cada passo, era como se facas girassem dentro de mim, e um suor frio encharcava a camisola do hospital.

Ao passar pela porta entreaberta de um quarto pediátrico comum, eu parei na hora ao ouvir uma voz conhecida.

— Pronto, pronto, Liam. O papai tá aqui. Tá tudo bem, já passou...

Eu me virei, anestesiada.

Pela fresta, vi Ethan sentado ao lado da cama, embalando o filho da Chloe nos braços.

Ele dava tapinhas leves nas costas do menino, cantarolando uma canção de ninar baixinho — a mesma que eu tinha implorado pra ele aprender pro nosso bebê, a mesma que ele chamou de “ridícula” e se recusou.

Agora, ele cantava perfeitamente, com ternura.

Chloe estava sentada perto, os olhos brilhando de carinho enquanto observava os dois.

E eu? Eu fiquei no corredor, coberta de sangue e suor, segurando nossa filha recém-nascida febril, parecendo uma louca.

Nesse instante, minha bebê soltou um choro — um lamento cru, desesperado, cortante.

— Uááá—!

Ethan ergueu a cabeça, assustado, e o olhar dele encontrou o meu através da porta aberta.

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