Capítulo 1
Estou morta.
Morri naquela noite chuvosa, desesperada porque não consegui juntar cinco mil dólares para salvar meu cachorro.
Liam riu de mim ao telefone — meu amigo de infância me mandou parar com a história triste. A nova namorada dele, Sarah, disse que eu devia me ajoelhar e implorar se quisesse que ela me jogasse umas migalhas. Eles não faziam ideia de que cada dólar que eu devia àqueles agiotas era para encobrir o atropelamento e fuga do Liam.
Meu cachorro morreu. Então eu me joguei no Black Lake.
Só quando tiraram meu corpo da água foi que Liam encontrou as imagens de vigilância naquela caixa de lata e percebeu o erro enorme que tinha cometido. Aí ele surtou, arrastando Sarah e todo mundo que me matou para o fundo, um por um.
Pena que já era tarde demais.
Ponto de vista de Skye
Meu cachorro estava morrendo.
“Bip... bip... bip...”
O tom de ocupado cortava meus nervos como uma serra cega. Eu estava de pé no corredor iluminado por uma luz fluorescente dura, completamente encharcada.
Três horas atrás, eu tinha me arrastado para casa depois do meu turno da noite, empurrado a porta e encontrado o Buddy desabado no chão, com a barriga inchada como um balão. Entrei em pânico, peguei ele no colo e corri para esta clínica veterinária de emergência 24 horas.
A água da chuva pingava da minha jaqueta barata sobre os azulejos estéreis. Eu tremia, mas não estava nem aí para o frio.
O Buddy estava morrendo lá dentro, e eu não tinha um maldito centavo para salvá-lo. Ele não podia morrer. Tirando ele, ninguém neste mundo realmente se importava comigo.
O ar fedia a desinfetante misturado com dejetos de animal e sangue.
Pela porta de vidro, eu via Buddy deitado na mesa fria de metal. O abdômen dele estava distendido, e a respiração, rápida e superficial.
Torção gástrica aguda. O veterinário disse que, sem uma cirurgia imediata, ele não sobreviveria à noite.
Custo da cirurgia: cinco mil dólares.
Saldo da minha conta bancária: uns míseros trinta e dois e cinquenta.
Eu mal conseguia fazer meus dedos funcionarem enquanto apertava para rediscagem. A tela mostrava “Liam”.
Sétima ligação.
Finalmente, um segundo antes de cair na caixa postal, ele atendeu.
“O quê?”
Ao fundo, o som explodia com música pesada de grave, tilintar de copos e risadas bêbadas. Noite de festa da fraternidade no West Side.
“Liam...” Eu mal conseguia soltar as palavras. “Sou eu, Skye.”
Silêncio por um segundo.
Então, um bufar de desprezo.
“Skye, você enlouqueceu pra caralho?” A voz irritada dele chiou pelo alto-falante. “É uma da manhã e eu tô festejando. Isso é melhor ser alguém morrendo.”
“O Buddy está morrendo.” Mordi o lábio com força até sentir o gosto de sangue. “Torção gástrica. O veterinário disse que ele precisa operar AGORA. Por favor, me empresta cinco mil. Eu juro que te pago. Posso trabalhar em três empregos —”
“PARA.”
Liam me cortou, frio.
“Cinco mil? O que eu pareço, um banco da porra?” A voz dele escorria deboche. “No mês passado você precisava de dois mil pra faculdade. No anterior, mil e quinhentos pro aluguel. Agora cinco mil? O Buddy tá doente? Você é um disco riscado com essa merda.”
“Dessa vez é VERDADE!” As lágrimas escorreram pelas minhas bochechas, minha voz se partindo num choramingo. “Ele tá morrendo de verdade! Por favor, Liam, VOCÊ me deu o Buddy! Não lembra dele? Ele tá morrendo mesmo, por favor, pelos velhos tempos —”
“Pelos velhos tempos?” Liam riu, amargo. “Você tem mesmo cara de pau de jogar isso na minha cara. Desde que começou a andar com aqueles vagabundos, você virou uma psicopata mentirosa. Os caras do Rock estavam te caçando no campus só na semana passada!”
Meu coração parou.
Rock. O chefão agiota do campus.
Liam NÃO fazia ideia de que eu tinha pegado dinheiro com o Rock não por mim, mas pra comprar as imagens da câmera de vigilância do atropelamento com fuga que ele causou, bêbado, seis meses atrás!
Se aquelas imagens viessem à tona, esse menino de ouro da Ivy League estaria acabado — talvez até preso.
Eu tinha levado toda a culpa por ele. Todo mês, agiotas me perseguiam como um cachorro raivoso. E, aos olhos dele, eu era só alguma viciada gananciosa.
“Não é o que você está pensando...” Tentei explicar, com a garganta parecendo entupida de algodão.
“Poupa.” A voz de Liam ficou gelada. “Para de teatrinho. Eu não vou te dar um centavo. Tá tão desesperada assim? Vai pra rua. Talvez algum cara pague por essa cara.”
As palavras me acertaram como um tapa.
Eu congelei. Parecia que todo o sangue tinha escoado do meu corpo.
Foi então que ouvi uma voz de mulher ao fundo.
“Liam, quem é?”
Sarah.
“Uma pedinte”, Liam disse, seco.
“Skye, né?” A risada de Sarah soou como vidro quebrado quando ela pegou o telefone. “Ai, MEU DEUS, você é patética! Ligando pro meu namorado uma da manhã? Cinco mil? Rasteja de quatro, talvez eu jogue umas moedas pra você.”
“Devolve o telefone pro Liam —” eu praticamente gritei.
“Clique.”
Ela desligou na minha cara.
Fiquei encarando a tela preta. O único som era o zumbido monótono do sistema de ventilação no fim do corredor.
Meu celular vibrou. Mensagem.
Remetente: Rock.
“Skye. 8 mil até meia-noite ou seus nudes viralizam. Ou vem me ver hoje à noite. Paga a dívida com o seu corpo. Você sabe o que eu quero dizer.”
Eu escorreguei pela parede gelada até desabar sentada no chão.
