Capítulo 3
Ponto de vista de Skye
Eu cavei uma cova nas colinas atrás do campus.
Sem pá. Só com as minhas próprias mãos. A terra misturada com pedras pontudas arrancou todas as minhas unhas, e sangue e lama preta cobriram minhas mãos.
Mas eu estava anestesiada.
Coloquei Buddy no buraco, enrolei-o na minha jaqueta e depois fui enchendo, punhado por punhado. A aurora estava nascendo, e a tempestade tinha parado. Eu me levantei e me encarei — coberta de lama, com as roupas rasgadas, como um fantasma que rastejou para fora de uma cova.
Eu não voltei para o meu dormitório. Os homens de Locke estavam me esperando lá.
Também não fui à polícia. Aí o Locke entregaria para os policiais as imagens do atropelamento e fuga.
No fim, eu ainda estava protegendo ele. Que piada do caralho que eu era.
Arrastei meus pés pesados em direção à casa da fraternidade de West Side.
A festa tinha acabado; o gramado estava cheio de garrafas vazias e lixo. Fiquei do lado de fora do portão de ferro, encarando aquela sacada familiar do segundo andar.
Eu só queria vê-lo uma última vez.
A porta da frente se abriu.
Sarah saiu usando a camisa enorme do Liam. Ela congelou quando me viu, e então torceu o rosto num nojo exagerado.
— Jesus, de onde saiu essa mendiga maluca? — Ela me olhou de cima a baixo através do portão. — Skye, você está absolutamente NOJENTA.
— Onde está o Liam? — Minha voz saiu rouca.
— Ele ainda está dormindo. Quem diabos você acha que é? — Sarah zombou e gritou em direção à casa. — Liam! Sua ex patética voltou!
Liam apareceu de pijama, franzindo a testa quando me viu.
— Qual é o seu problema? Por que você está aqui?
Eu abri a boca, querendo dizer que Buddy tinha morrido, querendo contar tudo o que eu tinha suportado nesses últimos seis meses. Mas as palavras que saíram foram:
— Você lembra lá no orfanato? Você prometeu que sempre ia me proteger.
O rosto de Liam se fechou na hora.
— Você está tentando me fazer sentir culpa pra eu te emprestar dinheiro DE NOVO? Skye, eu não te aguento.
De repente, Sarah gritou:
— AI! Meu ROSTO!
Olhei para o lado, confusa — havia um arranhão superficial na bochecha dela por ter chegado perto demais da cerca de arame.
Mas o que Liam viu foi eu estendendo a mão em direção ao portão, enquanto Sarah cobria o rosto e recuava.
— Você acabou de tentar MACHUCAR a Sarah?!
Ele explodiu, empurrando o portão para abrir e me dando um chute bem no meio do peito. Eu caí com força na lama, e minha cabeça bateu com tudo nos degraus de pedra.
— Eu não—
— CALA A BOCA! Você é completamente maluca! — Ele se impôs sobre mim, os olhos cheios de nojo.
Eu fiquei ali, deitada na terra, com sangue escorrendo da parte de trás da minha cabeça. Olhando para o rosto furioso dele, qualquer esperança que ainda me restava simplesmente morreu.
Seis meses atrás, era uma noite chuvosa como esta.
Liam correu até mim coberto de sangue, desabou no meu quarto do dormitório tremendo: “Skye, eu tô ferrado... eu atropelei alguém, as câmeras pegaram a minha placa...”
O homem de meia-idade na bicicleta morreu na hora. Ver ele daquele jeito me destruiu.
“Eu vou dar um jeito.” Eu o abracei com força.
Cem mil dólares. Ele me deu cem mil para fazer as imagens das câmeras de vigilância desaparecerem.
Eu encontrei Locke. Ele apagou as gravações, mas guardou uma cópia — e me ameaçou: “A partir de agora, você me paga três mil de juros todo mês. Ou eu entrego essa gravação pra polícia.”
Então eu comecei a inventar motivos para pedir dinheiro emprestado ao Liam. Mensalidade, aluguel, despesas de vida... Cada mentira me matava por dentro.
Por seis meses, eu tomei dinheiro emprestado dele dezenas de vezes, sendo mal interpretada e ridicularizada todas as vezes. Ele achava que eu tinha virado uma interesseira gananciosa, sem nunca saber o peso que eu carregava.
A esposa da vítima se agarrou às minhas pernas, chorando: “Por favor, me diga a verdade! Como meu marido morreu de verdade!”
Eu cerrei os dentes e menti, aguentando xingamentos e lágrimas. Usando minhas economias minguadas para indenizá-los, visitando aquela menininha sem pai todo mês.
Eu passei pelo inferno sozinha, tudo para proteger alguém que já não me amava.
“Liam...” Estendi as mãos trêmulas. “Aquela noite, seis meses atrás—”
“Você tá tentando me CHANTAGEAR com essa merda de novo?” Ele riu, frio. “Skye, você não tem jeito.”
Eu encarei o rosto de um estranho e sussurrei: “Você nunca vai entender o que eu sacrifiquei pra te proteger.”
“Para de bancar a vítima! Segurança! Tirem ela DAQUI!”
Sarah jogou mais lenha na fogueira: “Ela acabou de tentar me MATAR! Malucas como ela tinham que ser trancadas num hospício!”
Eu olhei para os dois e, de repente, ri.
Uma risada alta, estridente, como de uma louca de verdade. Sarah cambaleou para trás, me chamou de “pirada” e correu para dentro.
Liam franziu a testa para mim. “O que tem de tão engraçado?”
Eu limpei o sangue do canto da boca. “Eu tô rindo do quanto eu fui ESTÚPIDA. Quinze anos, e eu não valia pra você nem cinco mil de merda.”
Eu me virei e caminhei em direção às profundezas do campus.
Havia uma área proibida cercada por arame farpado — o Lago Negro.
Diziam que era sem fundo, que embaixo não havia nada além de lodo e ervas daninhas.
Eu escalei a cerca e fui até a beira d’água. O lago era como um espelho preto, refletindo meu rosto pálido.
Dei um passo à frente, e a água gelada subiu pelos meus tornozelos.
De repente, ouvi passos atrás de mim.
