Capítulo 4 Permita que você tenha prazer suficiente
Sophia encarou Joshua, incrédula. Levou um bom tempo até entender o que ele queria dizer.
— O que foi que você acabou de dizer?
Um sorriso cruel se insinuou nos lábios de Joshua.
— Não foi você que disse que não queria perder seu filho? Ela está de volta dentro de você agora. Então, Sophia… qual foi o gosto do seu próprio filho?
— Não!
O estômago de Sophia se revirou. Ela fitou a tigela vazia e, naquele instante, sua mente se despedaçou.
Ela se lançou na direção da cama e enfiou os dedos na garganta.
Meu bebê. Meu bebê.
Joshua, seu monstro. Era do seu próprio sangue. Como você pôde fazer algo tão desumano?
Ácido e um caldo turvo jorraram no chão, impregnando o ar com um cheiro nauseante, rançoso.
Ela desabou ao lado da sujeira, empurrando os dedos ainda mais fundo na garganta até começar a vomitar bile.
A força deixou sua garganta em carne viva. Um fio de sangue escorreu pelo canto de sua boca, gritante contra o rosto mortalmente pálido.
— Sai… sai!
Ela socou o próprio estômago, arranhando a pele até rasgar e sangrar. Não parecia sentir nada.
Joshua ficou de pé sobre ela, olhando-a com frieza e distanciamento. Cutucou-a com o pé.
— Qual é a dessa encenação? Quando você estava dormindo com outros homens, você parou pra pensar nesse filho bastardo?
Sophia ergueu os olhos para ele, o rosto manchado de lágrimas e sangue.
— Joshua, você é um monstro! Você merece apodrecer no inferno! Vai pro inferno!
Ela se atirou nele e cravou os dentes na panturrilha dele.
O sangue escorreu pela perna. Joshua nem sequer se mexeu. Ele a chutou para longe.
Sophia bateu com força na parede. O impacto tirou seu fôlego, e ela desabou no chão.
— Inferno? — Joshua endireitou a gravata e ajeitou os punhos. — Seus pais já estão no inferno por sua causa. Já que você gosta tanto, vá ver com os próprios olhos… veja como eles ficaram quando morreram.
Dois seguranças entraram e a puxaram para cima.
Sophia reagiu, chutando e se debatendo.
— Me soltem! Eu não vou! Meus pais não estão mortos! Eles não podem estar mortos!
Os seguranças a ignoraram e a arrastaram para fora.
Ela ainda sangrava. O avental do hospital estava encharcado de sangue — uma visão horrível. Um longo rastro vermelho se estendia atrás dela pelo corredor.
O carro parou em frente à funerária.
Lírios brancos cobriam os caixões no centro do salão. Os retratos de seus pais estavam entre as flores, com velas acesas dos dois lados.
Sophia foi largada no chão de concreto frio, no meio da capela mortuária.
Ela se ajoelhou e ficou encarando, vazia, os rostos bondosos e gentis de seus pais nas fotografias.
Mãe… Pai… vocês…
As lágrimas de Sophia caíam sem parar.
Seu tio, Aubrey Hernandez, correu até ela e lhe deu um tapa forte no rosto. O estalo seco ecoou pela capela.
— Sua puta sem vergonha! Você arrastou o nome Hernandez na lama! Você levou seus próprios pais para o túmulo e ainda tem coragem de aparecer aqui! Eu vou te espancar até a morte!
A tia apontou um dedo na cara dela e berrou:
— Nós vimos os vídeos na internet. Seus pais passaram a vida inteira construindo um bom nome, e foi isso que criaram: uma coisa nojenta dessas. Por que você não morre logo? — E cuspiu direto no rosto de Sophia.
Sophia não se mexeu. Não se defendeu. Ficou ajoelhada, completamente imóvel, tentando gravar os rostos dos pais na memória.
Rainey se aproximou com um vestido preto, os olhos vermelhos e inchados, e se colocou à frente de Aubrey.
— Tio, por favor, pare. Tenho certeza de que a Sophia só não estava pensando…
— Rainey, não se atreva a defender ela! A família Hernandez não quer ter nada a ver com lixo como ela! — Aubrey tremia de raiva, apontando diretamente para Sophia. — Cai fora! Você está cagando em cima da memória dos seus pais!
Rainey se virou e se agachou diante de Sophia, tirando um lenço para limpar o sangue do rosto dela. Baixou a voz até pouco mais que um sussurro, num tom baixo o suficiente para que só as duas ouvissem.
“Está vendo, Sophia? Todo mundo quer você morta. Quando seus pais pularam, bateram no chão com tanta força que os crânios deles se abriram. Sangue por toda parte. Foi uma cena e tanto.”
O corpo inteiro de Sophia começou a tremer. Ela ergueu a cabeça e cravou os olhos em Rainey, cujo sorriso era falso e traiçoeiro.
O ódio surgiu de algum lugar bem no fundo dela, deixando seus olhos vermelhos.
A capela mortuária ficava no terceiro andar. A janela do chão ao teto estava aberta, e o vento entrava de fora.
Sophia perdeu o controle.
Ela não sabia de onde vinha aquela força. Atirou-se em cima de Rainey e fechou as duas mãos em volta do pescoço dela.
“Foi você. Tudo isso é por sua causa. Morre. Morre logo!”
Rainey foi pega de surpresa e caiu com força, debatendo-se em pânico. “Socorro... Joshua, me ajuda...”
Os olhos de Sophia estavam injetados de sangue. Ela cravou as unhas na garganta de Rainey e a arrastou em direção à janela aberta. “Se eu não puder viver, você também não vai. Nós duas vamos para o inferno juntas.”
Ela já estava com metade do corpo para fora da janela, uma das mãos presa no cabelo de Rainey, puxando-a para além da borda.
Rainey gritou de terror, agarrando-se ao batente com mãos e pés, riscando linhas brancas na parede.
No instante em que Sophia estava prestes a jogá-la para fora, algo atingiu suas costas com violência.
Joshua atravessou a sala correndo e enfiou o pé na coluna dela. Com toda a força.
O impacto lançou Sophia longe. Ela se chocou contra o altar e caiu pesadamente no chão.
Joshua agarrou Rainey e a puxou para trás de si. Rainey tremia nos braços dele, soluçando contra seu peito. “Joshua, eu fiquei com tanto medo...”
Sophia jazia no chão e olhou para os dois abraçados. Então começou a rir. Riu até soar como se algo estivesse se rasgando dentro dela.
“Joshua... seu tolo cego. Você acredita naquela vadia da Rainey... vai se arrepender. Você vai.”
Uma golfada de sangue escapou de seus lábios e se espalhou pelo chão.
Então sua visão escureceu, e ela desabou. Imóvel. Silenciosa.
O ar ao redor dela era frio. Cheirava a terra úmida e a alguma coisa apodrecendo por baixo.
Sophia voltou lentamente à consciência.
Não havia luz. Ela não conseguia ver a própria mão diante do rosto.
Tentou mover os braços e descobriu que estavam acorrentados à parede. Seus tornozelos também estavam presos.
Alguma coisa se movia ao longo de suas panturrilhas. Lisa. Fria.
Hssss...
O som rastejou pela sua pele na escuridão.
O corpo inteiro de Sophia enrijeceu. Ela puxou os pés para trás.
Ao redor dela, por toda parte — o som suave de escamas raspando no concreto. Dos cantos. De cima. Bem ao lado dos pés dela. Em todos os lugares.
Então as luzes se acenderam.
O clarão branco a fez apertar os olhos.
Quando enfim conseguiu se acostumar e olhou em volta, seu sangue gelou.
Ela estava numa sala subterrânea selada.
Cobras cobriam todas as superfícies — o chão, as paredes — uma massa contorcida de cores e escamas. Algumas estavam enroladas nos cantos, com as línguas bifurcadas tremulando. Outras já subiam pelas correntes em direção a ela.
Uma cobra naja totalmente negra estava enrolada em seu ombro, as escamas frias pressionadas contra seu pescoço.
Passos do lado de fora da porta de ferro.
Joshua estava do outro lado de uma parede de vidro, uma das mãos no bolso, observando-a com os olhos vazios.
Rainey se apoiava nele, segurando um controle remoto.
“Sophia, Joshua me contou que você gosta de um pouco de emoção. Deixe-me ajudar com isso.”
Ela apertou o botão.
As saídas de ventilação se abriram. Um cheiro químico forte inundou o ambiente.
As cobras, que um instante antes estavam imóveis, enlouqueceram.
Elas se retorceram e se agitaram, com as bocas abertas e as presas expostas, avançando sobre Sophia—
