Capítulo 1

O primeiro aviso apareceu no celular de Livia Santos enquanto ela desenhava um sol no lado de dentro de uma capa de copo.

Eram seis e vinte e sete da manha, horario em que a estacao de Charitas parecia cuspir gente para todos os lados: enfermeiras de jaleco dobrado no antebraco, estudantes com fone, homens de camisa social correndo atras do onibus, mulheres equilibrando bolsa, marmita e paciencia. O quiosque de Dona Rosa ficava espremido entre a banca de jornal fechada e a grade azul que separava a plataforma. Pequeno, quente, barulhento. Perfeito para Livia.

Ela conhecia os pedidos antes das pessoas abrirem a boca. Cafe coado sem acucar para o fiscal da linha. Pingado forte para a professora de matematica. Pao de queijo extra para o menino que mentia dizendo que era para a irma. E, toda segunda a sexta, americano sem acucar para Caio Monteiro.

Caio era bombeiro militar, mergulhador de resgate no posto perto do porto. Alto, ombros largos, cabelo escuro sempre um pouco umido, como se tivesse acabado de sair do mar mesmo quando o sol ainda nem tinha subido direito. Falava pouco. Pagava com pix. Dizia "obrigado, Livia" olhando nos olhos por um segundo inteiro, e esse segundo ficava nela mais tempo do que qualquer conversa.

Por isso ela desenhava o sol escondido. Nao era flerte, ela dizia para si mesma. Era so um jeito bobo de desejar que o dia dele voltasse inteiro.

Naquela manha, o celular vibrou perto da maquina de cartao. Livia segurou o copo com uma mao e abriu a notificacao com o polegar.

Novo capitulo disponivel: A Garota Inconveniente do Quiosque.

Ela franziu a testa.

Nao conhecia aquele aplicativo. O icone era um livro aberto vermelho, com uma chama no meio. Antes que ela pudesse fechar, a tela abriu sozinha.

Capitulo 1: Ela achava que seu sorriso iluminava o dia dele. Caio Monteiro so queria pegar o cafe em paz, mas a garota do quiosque insistia em falar, rir e desenhar bobagens no copo, como se intimidade pudesse ser comprada por quatro reais e cinquenta.

O barulho da estacao pareceu afundar.

Livia leu a frase outra vez. Depois mais uma. O nome dele estava ali. O dela vinha duas linhas abaixo.

Livia Santos nao percebia o constrangimento que causava. Para todos, ela era simpatica. Para ele, era so insistente.

Uma mao bateu no balcao.

  • Li? Meu cafe?

Ela levantou o rosto. Caio estava do outro lado, com a camiseta azul-marinho da corporacao sob a jaqueta aberta. Havia uma marca vermelha fina perto do pulso dele, talvez de equipamento. Os olhos dele desceram para o copo parado na mao dela.

  • Desculpa. - Livia travou a tela tao rapido que quase derrubou o celular. - Hoje eu estou meio avoada. Americano, sem acucar. Eu sei.

  • Voce sabe de todo mundo.

Aquilo devia ser um elogio. Na cabeca dela, sempre tinha sido. Mas a frase do aplicativo latejou: insistente.

Livia encaixou a capa no copo e, por impulso, girou a parte desenhada para dentro, como sempre. Caio pegou o cafe. Os dedos deles quase se tocaram.

  • Esta tudo bem? - ele perguntou.

Caio nao perguntava coisas assim. Nao para qualquer pessoa. Livia abriu um sorriso automatico, daqueles que ela usava quando o leite acabava, quando o cliente reclamava do preco, quando a vida parecia pedir desculpa de uma forma muito sem graca.

  • Claro. So sono. Voce sabe, cafe para os outros, sono para mim.

Ele continuou olhando, como se a resposta tivesse ficado curta demais.

Atraves da tela escura do celular, Livia viu o reflexo do proprio rosto: cabelo preso num coque torto, bochechas coradas do vapor, boca sorrindo sem combinar com os olhos. Ela se odiou um pouco por isso.

Caio pagou. Antes de sair, virou a capa do copo entre os dedos. Livia prendeu a respiracao. O sol estava la dentro, escondido, amarelo e ridiculo.

Ele nao comentou. Nunca comentava.

Quando ele se afastou, o aplicativo vibrou de novo.

Ela nao sabia que ele nunca guardava aquelas capas. Caio as jogava fora antes de chegar ao posto, para que ninguem risse da piedade que sentia por ela.

Livia sentiu o rosto queimar.

Dona Rosa apareceu atras dela, carregando uma bandeja de paes.

  • Menina, voce ficou branca. Comeu?

  • Comi, sim.

  • Mentira. Voce acha que me engana desde quando?

Livia tentou rir, mas o som saiu quebrado. Do lado de fora, Caio atravessava a faixa de pedestres em direcao ao porto, o copo na mao. Ele parou para deixar uma senhora passar, depois seguiu com aquele jeito de quem economizava todos os movimentos.

O aplicativo ainda estava aberto. Embaixo do capitulo, havia uma pre-visualizacao:

No proximo trecho, a garota inconveniente descobrira que gentileza nao e convite.

Livia fechou a tela.

O problema era que Caio tinha perguntado se ela estava bem.

E o problema maior era que, naquele momento, ela ja nao sabia se aquilo era cuidado ou educacao.

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