Capítulo 2

Na manha seguinte, Livia nao desenhou o sol.

Ela acordou antes do despertador, ficou olhando para o teto manchado do quarto alugado em Sao Goncalo e prometeu a si mesma que seria normal. Nao fria, porque ela nao sabia ser fria sem parecer doente. So normal. Profissional. Uma pessoa que vendia cafe, nao afeto.

No caminho ate Charitas, o aplicativo apareceu tres vezes na tela, mesmo sem notificacao. Ela apagou. Ele voltou. Livia pensou em desinstalar, mas nao havia botao de desinstalar. Pensou em trocar de celular, mas o saldo da conta riu na cara dela. Entao fez o que sempre fazia quando algo doia: chegou cedo, abriu o quiosque, limpou o balcao ate brilhar e sorriu para os primeiros clientes.

Quando Caio apareceu, sete minutos mais tarde do que o costume, ela ja tinha o copo pronto.

  • Bom dia - disse ele.

  • Bom dia. Americano sem acucar.

Ela colocou o copo no balcao. A capa estava lisa, sem desenho, sem piada, sem nada. So papel marrom barato.

Caio olhou para o copo.

Foi rapido. Qualquer outra pessoa nao notaria. Mas Livia notou, porque tinha passado meses notando tudo nele: o jeito como ele segurava o dinheiro dobrado quando a maquina falhava, a forma como franzia a sobrancelha ao ler mensagens do posto, o silencio diferente de um homem cansado e de um homem preocupado.

Ele girou a capa uma vez. Depois outra.

  • Acabou a caneta?

O coracao dela deu um salto tao estupido que Livia quase se irritou com ele.

  • Que caneta?

Caio levantou os olhos.

  • A amarela.

Por um instante, a estacao ficou pequena demais para a respiracao dela. Ele sabia. Ele tinha visto. Talvez nao jogasse fora antes do posto. Talvez o aplicativo estivesse mentindo.

Entao a tela do celular, virada para cima ao lado da caixa registradora, acendeu.

Capitulo 2: Quando ele notou a falta do desenho, nao foi saudade. Foi alivio. Finalmente ela tinha entendido o limite.

Livia puxou o celular e virou para baixo.

  • Ah, aquilo. - Ela forçou uma risada leve. - Bobeira minha. Eu fazia em varios copos.

Caio ficou quieto.

  • Em varios?

  • Sim. Coisa de atendimento. Cliente gosta de mimo, mas a gente tambem nao pode exagerar. Tem gente que interpreta errado.

A frase saiu antes que ela pudesse medir. Caio apertou o copo de leve. A capa amassou um pouco sob os dedos dele.

  • Voce acha que eu interpretei errado?

Dona Rosa, que fingia organizar os saches de acucar, parou de fingir. Livia sentiu o olhar dela nas costas.

  • Nao. Eu so... estou tentando ser mais profissional.

Caio assentiu devagar, mas nao se moveu.

  • Alguem reclamou?

Ele fez a pergunta com a mesma calma que usava quando ouvia a sirene ao longe. Sem pressa, mas ja pronto.

Livia quase disse a verdade. Quase empurrou o celular pelo balcao e falou: olha isso, Caio, tem alguma coisa escrevendo sobre nos, e eu estou com medo de ser a pessoa que todo mundo tolera por educacao.

Mas o aplicativo ja tinha colocado uma palavra na boca dela: inconveniente.

E havia poucas coisas mais humilhantes do que pedir consolo ao proprio motivo da humilhacao.

  • Ninguem reclamou. So estou mudando umas coisas.

  • Entendi.

Ele pagou. Dessa vez, nao saiu de imediato. Ficou um segundo a mais, como se tivesse esquecido alguma coisa. Depois levou o cafe e atravessou a rua.

O celular vibrou.

Ela tentou se convencer de que nao leria. Leu.

O silencio dele era a resposta. Livia finalmente tinha feito algo util: parou de se oferecer.

Ao meio-dia, Nora Monteiro chegou ao quiosque usando um vestido verde e uma irritacao que parecia combinada com o calor.

  • Meu irmao perguntou se voce estava brava com ele.

Livia quase derrubou a jarra de leite.

  • O que?

  • Caio. Alto, dramaticamente calado, usa camisa da corporação como se tivesse nascido nela. Meu irmao. Ele perguntou se voce estava brava.

  • Ele perguntou isso?

  • Do jeito dele. Disse: "A Livia parecia diferente". Ai ficou me olhando como se eu fosse o Google Tradutor de sentimentos masculinos.

Livia tentou rir. Nora era sua amiga desde que comecara a comprar cafe ali, antes mesmo de Livia saber que ela era irma de Caio. Foi Nora quem contou que ele nao era grosso, so tinha sido criado por um pai que tratava emocao como vazamento: algo a ser contido antes de estragar a estrutura.

  • Eu so estou trabalhando.

  • Livia.

  • Serio.

Nora cruzou os bracos.

  • Voce esta com aquele sorriso de quando cliente te chama de querida e depois deixa avaliacao ruim.

Livia baixou os olhos para a maquina. No canto da tela do celular, uma nova pre-visualizacao apareceu, mesmo bloqueada:

Bianca Azevedo chegaria ao posto naquela tarde. Ao lado dela, Livia finalmente entenderia como uma mulher adequada se comporta.

  • Quem e Bianca? - Livia perguntou antes de pensar.

Nora piscou.

  • Bianca Azevedo? Da fundacao? Ela vai coordenar uma campanha com o posto de resgate. Por que?

Livia sentiu o frio subir pelos bracos.

  • Nada.

Naquela tarde, quando Caio voltou pelo outro lado da rua, sem comprar nada, apenas olhando para o quiosque por um segundo longo demais, Livia ja tinha decidido uma coisa pequena e covarde.

No dia seguinte, tambem nao haveria sol.

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