Capítulo 3

Bianca Azevedo entrou no posto de resgate como se a sala tivesse sido preparada para ela.

Livia nao deveria estar ali. Tinha ido entregar uma caixa de cafes encomendada por Rafael, que dizia que sem cafe forte a equipe confundia boia com tubarao. O comentario era absurdo, mas Rafael era absurdo com tanta conviccao que as pessoas acabavam pagando para ver.

O posto ficava perto da agua, numa area onde o cheiro de diesel se misturava ao sal. Havia coletes pendurados, mapas nauticos, fotos de treinamentos e uma parede com recortes de operacoes de resgate. Para Livia, tudo parecia maior do que ela: a disciplina, o risco, a seriedade. Ela segurou a caixa com as duas maos e tentou nao parecer uma curiosa.

Rafael apareceu sorrindo.

  • A salvacao chegou. E trouxe cafe.

  • Se cafe salva, quero adicional de periculosidade.

  • Fala com o comandante. Mas sorri primeiro, ele fica confuso.

Livia riu. A risada saiu mais alta do que pretendia, ecoando na sala. Dois bombeiros olharam. Um deles sorriu. Outro continuou preenchendo um formulario.

Caio estava perto da porta do almoxarifado. Ao ouvir a risada dela, virou o rosto. A expressao dele mudou quase nada, mas mudou. Livia viu. Ou quis ver.

Antes que pudesse dizer oi, Bianca atravessou a sala.

Ela usava calca clara, camisa de linho azul e um cracha da Fundacao Mar Aberto preso com uma fita elegante. O cabelo castanho caia liso ate os ombros. O sorriso era macio, treinado para nao mostrar esforco.

  • Capitao Monteiro? - ela perguntou.

  • Tenente - Caio corrigiu.

  • Perdao. Tenente Monteiro. Bianca Azevedo. A fundacao esta muito feliz com a parceria.

Ela estendeu a mao. Caio apertou. Livia percebeu que a mao dele soltou rapido, como sempre. Mas Bianca nao pareceu se incomodar. Ela se inclinou um pouco, criando uma cena bonita: a voluntaria impecavel e o bombeiro silencioso diante do mural de resgates.

O aplicativo vibrou no bolso de Livia.

Ela nao queria olhar. Olhou.

Capitulo 3: Bianca nao precisava desenhar sois em copos para parecer importante. Ela trazia projetos, conexoes e uma calma que nao implorava por atencao.

Livia mordeu a parte interna da bochecha.

Rafael pegou a caixa de cafes.

  • Ei, Li, voce esta bem?

  • Estou.

  • Esse "estou" veio com obito incluido.

  • Rafael.

Caio olhou para eles.

Bianca tambem. O olhar dela passou pelo uniforme simples de Livia, pelo avental dobrado na bolsa, pela caixa de papel e parou no celular na mao dela.

  • Voce trabalha no quiosque da estacao, nao e? - perguntou Bianca, doce.

  • Trabalho.

  • Que gracinha. Eu sempre acho tao importante quando o comercio local apoia campanhas comunitarias.

Nao havia nada errado na frase. Era justamente isso que a tornava dificil de responder. Bianca falava como quem elogia de cima de um degrau invisivel.

Livia sorriu.

  • Cafe tambem e infraestrutura emocional.

Rafael soltou uma gargalhada. Caio baixou os olhos por meio segundo, e Livia teve quase certeza de que ele estava segurando um sorriso.

Bianca nao riu.

  • Claro. Cada um contribui como pode.

A frase pousou no ar com delicadeza e veneno.

O comandante chamou todos para a pequena sala de reuniao. Rafael levou os cafes. Bianca entrou ao lado de Caio. Livia ficou perto da porta, sem saber se ia embora ou se esperava a assinatura do recibo.

Foi entao que ouviu Bianca falar:

  • Pensei em um Dia de Seguranca Infantil no Porto. Oficinas simples para familias, simulacao de colete, orientacao sobre queda na agua, material visual para escolas publicas. Algo acessivel, mas com impacto.

Livia levantou a cabeca.

Ela conhecia aquela ideia.

Nao, nao inteira. Ainda era uma semente. Duas semanas antes, Nora comentara que a fundacao procurava voluntarios para atividades comunitarias. Livia, animada, passara uma noite montando um documento chamado "Sol no Colete - Dia de Seguranca Infantil", com lista de estações, mapa do fluxo, proposta de patrocinio local e ate modelo de cracha para criancas. Tinha enviado para Nora pedir opiniao, e Nora dissera que talvez mostrasse a alguem da fundacao.

Bianca continuou:

  • Podemos chamar de Porto Seguro para Pequenos. Algo nesse tom.

Livia sentiu o estomago fechar.

Rafael saiu da sala para buscar mais copos e a viu parada.

  • Li?

  • Essa ideia... - Ela baixou a voz. - Eu escrevi algo parecido.

  • Para a fundacao?

  • Para Nora. Era so um rascunho.

Rafael olhou para a sala, depois para ela.

  • Fala com Caio.

Livia quase riu.

Falar com Caio. Como se ela nao estivesse tentando falar com ele em silencio havia meses. Como se o aplicativo nao tivesse acabado de apresentar a mulher que sabia usar a voz certa.

Caio apareceu na porta naquele momento.

  • Voce vai embora?

Livia apertou a alca da bolsa.

  • Ja entreguei os cafes.

  • Quer ficar para a reuniao? E aberto para parceiros comunitarios.

Parceiros. A palavra devia aquecer. Mas Bianca olhava por cima do ombro dele, tranquila, como se soubesse que lugar cada pessoa ocupava.

O celular vibrou outra vez.

Livia nao abriu, mas a notificacao apareceu:

Pela primeira vez, Livia viu Caio ao lado de alguem que nao precisava ser explicada.

Ela guardou o celular.

  • Nao. Tenho turno.

Caio deu um passo, pequeno.

  • Livia...

  • Tenente Monteiro, a reuniao vai comecar - chamou Bianca, com um sorriso impecavel.

O titulo na boca dela soou intimo de uma forma estranha.

Livia fez o que sabia fazer melhor: sorriu como se nada tivesse acontecido.

  • Bom trabalho, tenente.

Ela saiu antes de ver se ele tentou segui-la.

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