Capítulo 4
Na sexta-feira, o projeto de Bianca apareceu impresso em papel couché na recepcao da Fundacao Mar Aberto.
Livia nao costumava entrar naquele predio. A fundacao ocupava dois andares de um edificio antigo perto da orla de Niteroi, com fachada reformada, vasos de planta caros e fotos de criancas sorrindo em eventos beneficentes. Nora insistira para que ela fosse.
- So vem comigo - disse a amiga. - Se for mal-entendido, a gente resolve. Se nao for, eu arranco a cabeca de alguem com educacao.
Livia quase desistiu no caminho. O aplicativo tinha publicado trechos a noite inteira.
Bianca transformaria uma ideia confusa em algo apresentavel. Livia confundia entusiasmo com competencia.
Ela lera ate as duas da manha, odiando cada frase e odiando mais ainda o fato de que algumas pareciam possiveis. O documento dela tinha sido feito depois de um turno duplo, com erros de digitacao, comentarios soltos e links de referencia. O de Bianca, agora exibido numa mesa de vidro, tinha logotipo, paleta de cores e o nome "Porto Seguro para Pequenos" em letras azuis.
Mas os detalhes eram dela.
Estacao 1: colete salva-vidas em tamanho infantil, com jogo de encaixe.
Estacao 2: "Se cair, boie e grite", com cartazes ilustrados.
Estacao 3: pulseira de identificacao para eventos perto da agua.
Estacao 4: mapa de adultos de referencia, onde a crianca apontava quem procurar.
Ate a ideia dos adesivos de sol para as criancas completarem no fim. Bianca trocara por estrelas, mas a estrutura estava ali.
Nora pegou o folder, leu duas paginas e ficou vermelha.
-
Isso e seu.
-
Era um rascunho.
-
Livia.
-
Eu sei.
Bianca apareceu na escada com uma prancheta na mao.
- Nora! Que bom que veio. E Livia, certo? Do cafe.
Do cafe. Nao do projeto. Nao da ideia. Do cafe.
Nora ergueu o folder.
- A gente precisa conversar.
Bianca desceu os ultimos degraus sem perder o sorriso.
-
Claro. Sobre voluntariado?
-
Sobre esse projeto.
-
Ah, maravilhoso, nao e? A equipe aprovou ontem.
Livia ouviu a propria voz antes de decidir usa-la.
- Eu escrevi um plano muito parecido ha duas semanas.
O silencio na recepcao mudou de textura. Uma recepcionista fingiu procurar algo no computador. Um homem de camisa polo olhou de lado.
Bianca piscou, surpresa na medida certa.
-
Voce escreveu?
-
Escrevi.
-
Que interessante. Muita gente tem ideias parecidas quando pensa em seguranca infantil.
-
Com as mesmas quatro estacoes?
-
Sao recomendacoes comuns.
-
Com pulseira de identificacao patrocinada por comercio local?
O sorriso de Bianca diminuiu meio centimetro.
- Livia, eu entendo que voce esteja animada. De verdade. Mas projetos institucionais exigem metodologia, parceiros, autorizacoes. Talvez voce tenha sugerido alguma coisa para Nora, e isso tenha inspirado uma conversa maior.
Nora deu um passo a frente.
-
Nao coloca isso em mim.
-
Nao estou colocando, querida. So estou dizendo que colaboracao comunitaria e assim. Ideias circulam.
Livia abriu a bolsa e pegou o celular.
- Eu tenho o Google Docs.
Bianca olhou para o aparelho como se ele fosse um guardanapo sujo.
-
Otimo. Envie para o e-mail geral. A equipe avalia contribuicoes.
-
Contribuicoes?
-
Sim. E posso incluir seu nome na lista de agradecimentos dos apoiadores locais. "Apoio: Quiosque da Dona Rosa". Fica simpatico.
A palavra simpatico doeu mais que um insulto. Porque Livia era simpatica. Era isso que as pessoas elogiavam quando nao queriam admitir que a consideravam pequena.
O aplicativo vibrou.
Ela olhou por reflexo.
Capitulo 4: Ao tentar reivindicar o que nao sabia executar, Livia apenas confirmou o que todos ja pensavam: ela confundia presenca com importancia.
Nora tentou pegar o celular.
- Para de ler isso.
Bianca inclinou a cabeca.
-
Ler o que?
-
Nada - disse Livia.
Mas Bianca ja tinha visto o icone vermelho.
Por um segundo, algo agudo passou pelo olhar dela. Nao surpresa. Reconhecimento.
Livia sentiu o chao sumir um pouco.
- Voce conhece esse aplicativo?
Bianca riu baixo.
- Querida, todo mundo recebe anuncios de leitura. Eu mal tenho tempo.
Caio entrou na recepcao naquele momento, acompanhado de Rafael e do comandante. O uniforme dele estava impecavel, mas havia uma sombra de cansaco sob os olhos. Quando viu Livia, parou.
- O que aconteceu?
Bianca respondeu antes dela.
- Um mal-entendido. Livia acredita que a campanha da fundacao se parece com uma ideia dela.
Caio olhou para Livia.
- Se parece?
A pergunta era simples. Mas depois de tantos dias lendo que ele so tinha pena dela, Livia ouviu outra coisa: voce tem certeza?
Ela guardou o celular.
- Esquece.
Nora se virou para ela.
-
Nao.
-
Esquece, Nora. Nao vale a pena.
Bianca deu um sorriso triste, quase maternal.
- Eu sei que e frustrante quando a gente quer participar de algo maior. Mas e importante entender limites.
Limites.
A palavra fechou a garganta de Livia.
Caio deu mais um passo.
- Livia, mostra o documento.
O celular dela pesou na mao. Se mostrasse, estaria admitindo que se importava. Que queria reconhecimento. Que talvez tivesse criado uma historia na cabeca onde Caio entenderia tudo e ficaria do lado dela.
O aplicativo vibrou mais uma vez:
Ela esperava que ele a defendesse. Mas homens como Caio nao escolhem mulheres que precisam ser defendidas.
Livia sorriu.
- Tenho que voltar para o quiosque.
E saiu com o proprio projeto dobrado nas maos de outra mulher.
