Capítulo 1

Eles me deixaram para morrer congelada no freezer do nosso porão.

Na noite anterior ao baile de formatura, minha irmã adotiva, Leila, apareceu chorando, dizendo que eu tinha queimado a carta de recomendação dela para a Ivy League. Meus pais biológicos nem sequer ouviram uma palavra de explicação — me jogaram naquele inferno gelado a quarenta e cinco graus abaixo de zero.

Esmurrei aquela porta até meus dedos ficarem em carne viva, gritei até minha garganta se rasgar, mas tudo o que eu conseguia ouvir lá de cima era a risada deles, comemorando a Leila. Até o Justin — o garoto que eu amava desde criança — me mandou mensagem me chamando de uma psicopata do caralho.

Quando dei meu último suspiro, ouvi a voz macia da Leila do lado de fora da porta: “Descanse em paz, irmã.”

Agora sou um fantasma, assistindo a eles enlouquecerem quando a verdade vier à tona.


Ponto de vista de Isla

— ENTRE AÍ! Você não vai sair até contar a verdade e entregar a carta de recomendação da Leila!

O rugido furioso do meu pai ecoou quando minhas costas bateram na parede de metal gelada.

Antes que eu conseguisse me firmar, a porta pesada e enferrujada da câmara fria se fechou com força.

A trava fez um clique.

— Pai! Eu não peguei a carta de recomendação da Leila! Foi ela que queimou! Me deixa sair!

Eu me atirei contra a porta, socando freneticamente. A ferrugem abriu cortes nas minhas palmas, mas eu não me importei com a dor.

A voz chorosa da Leila veio do lado de fora:

— Papai, deixa isso pra lá... A Isla provavelmente só tem inveja de eu ter conseguido a entrevista. A carta sumiu, mas eu posso pedir para o professor escrever outra. Não tranca ela aí dentro — está congelando!

— Inveja? — Papai soltou uma risada fria. — Leila, você é boa demais! Ela é só uma putinha egoísta! Precisa levar uma lição hoje! Essa câmara fria pode estar abandonada, mas o sistema de refrigeração ainda funciona. Dez graus abaixo de zero — isso é o suficiente pra colocar juízo na cabeça dela!

— Pai, por favor...

— Isla, para de fazer cena.

Dessa vez, foi o Justin.

O garoto que um dia segurou minha mão e prometeu que nós iríamos para Nova York juntos.

A voz dele pingava cansaço e nojo:

— A Leila passou incontáveis noites acordada por causa dessa carta de recomendação. Por que você seria tão cruel? Só pede desculpas e entrega a carta, que o David te solta na mesma hora. Até quando você vai prolongar isso?

— EU NÃO FIZ ISSO! Justin, você também não acredita em mim?

Encostei o rosto na porta gelada. As lágrimas congelaram na hora, virando lascas de gelo que ardiam nos cantos dos meus olhos.

— Mãe... Sarah, você está aí, não está? Diz alguma coisa por mim! Eu realmente não fiz isso!

Silêncio por dois segundos.

Então ouvi a voz da minha mãe biológica, Sarah, fria como gelo:

— Deixa ela aí. Quando ela não estiver mais tão teimosa, a gente solta. Vamos. A Leila ainda precisa se preparar para o baile de amanhã. Não deixem essa bagunça estragar o clima.

Os passos se afastaram.

Um passo, dois passos.

Até desaparecerem completamente no topo da escada de madeira que levava ao primeiro andar.

Eu permaneci paralisada, ainda na posição de socar a porta. O depósito subterrâneo de refrigeração estava um breu absoluto, com apenas o compressor do refrigerador zumbindo.

Espera — essa temperatura estava definitivamente errada.

Papai disse dez graus abaixo de zero, mas minhas lágrimas congelavam no instante em que caíam, e minha respiração virava de imediato uma névoa branca. Esse nível de frio... pelo menos vinte abaixo de zero, talvez ainda mais.

Alguém tinha mexido naquilo.

Eu estava vestindo apenas uma camisola fina de seda — uma que Sarah tinha comprado para Leila. Leila a rejeitou por causa da cor horrível e a jogou em mim como lixo descartado.

O frio me atravessou como picaretas de gelo.

Comecei a bater na porta freneticamente.

— Me deixem sair! Por favor, me deixem sair!

— David! Sarah! Eu sou a filha biológica de vocês!

— Justin... me salva...

Bati até minhas mãos sangrarem. Minhas unhas se partiram e rasgaram contra o metal áspero, algumas se descolando por completo. Sangue quente escorreu pela porta de ferro, congelando em cristais vermelho-escuros antes de conseguir tocar o chão.

Minha garganta estava em carne viva de tanto gritar; cada inspiração era como engolir cacos de vidro.

Encolhi-me em posição fetal na escuridão. Minha mente continuava voltando em flashes para a cena de horas atrás.

Leila em pé no meu quarto com um isqueiro, sorrindo enquanto ateava fogo à própria carta de recomendação.

— Irmã, o que você acha que a mamãe e o papai vão fazer com você quando descobrirem que você queimou minha carta de recomendação da Ivy League por ciúme?

Eu tinha avançado, furiosa, para salvá-la, mas ela me empurrou.

Nesse instante, David e Sarah arrombaram a porta.

Leila caiu para trás, cobrindo o rosto e soluçando:

— Irmã, por que você faria isso comigo...

Por causa daquela mentira patética.

Meus pais biológicos nem me deram a chance de explicar antes de me chutarem para dentro deste inferno.

O tempo se arrastou.

Meu corpo começou a tremer violentamente, os dentes batendo. Aos poucos, deixei de sentir o frio. Um calor estranho me envolveu.

Eu sabia que era a hipotermia grave se instalando.

Minha consciência começou a se desfocar, uma luz branca preenchendo minha visão. Eu me forcei a manter os olhos abertos, encarando aquela porta de ferro selada.

— Justin... você prometeu... que ia me proteger...

Eu tentei falar, mas nenhum som saiu.

Meu peito se ergueu com força uma única vez, e então ficou completamente imóvel.

O tempo não significava nada.

De repente, senti meu corpo ficar sem peso, o frio cortante desaparecendo. Abri os olhos e me vi flutuando no ar.

Abaixo de mim, no chão coberto de gelo do depósito, jazia um cadáver rígido.

O meu cadáver.

Metade do rosto pressionada contra a porta, as duas mãos congeladas em posições retorcidas de arranhar, os dez dedos em carne viva e sangrando, sem nenhuma unha. O sangue tinha deixado marcas horríveis de arranhões na porta de ferro antes de congelar por completo.

Eu estava morta.

Morta aos dezoito. Morta no dia anterior ao baile de formatura.

Eu olhei para o meu cadáver desde o vazio, com os olhos ocos.

Eu ri — um som quebrado, feio.

David, Sarah, vocês não disseram que, quando eu aprendesse a falar a verdade, vocês iam me deixar sair?

Que pena.

Eu nunca mais poderia sair.

Próximo Capítulo