Capítulo 2
Ponto de vista de Isla
Eu era um fantasma agora.
Descobri que não podia sair desta casa — presa neste lugar cheio de lembranças amargas. Mas eu conseguia atravessar pisos, surgindo num instante ao lado de quem eu escolhesse.
No andar de cima, uma música pop ensurdecedora tocava no volume máximo.
A artista favorita da Leila.
Eu flutuei até o primeiro andar. A sala de estar estava decorada como um palácio dourado, cheia de balões, flores e champanhe por toda parte.
Amanhã era o baile de formatura do ensino médio.
David e Sarah tinham convidado toda a elite da comunidade e os colegas de turma para fazer uma grande comemoração antes do baile, só para a Leila.
— Leila, esse vestido está absolutamente perfeito em você! Amanhã, com certeza, você vai ser a rainha do baile!
Sarah ajustava a barra do vestido de Leila com carinho. Era alta-costura, coberto de cristais Swarovski, valia uma fortuna.
Eu observei as ruguinhas de sorriso ao redor dos olhos de Sarah, e isso doeu.
Ela nunca tinha me olhado daquele jeito.
Dezoito anos.
Tudo porque, no dia em que eu nasci, a empresa do David faliu e os credores vieram esmurrar a nossa porta. Mas quando Leila — a órfã amiga de um amigo do David — foi adotada, uma indenização enorme de seguro apareceu misteriosamente.
E ainda por cima aquela maldita profecia da cartomante cigana — eu virei a “filha do diabo” da família, enquanto a Leila era o “anjo” deles.
A partir daí, a filha adotiva virou a princesinha preciosa, e a filha biológica virou um rato de esgoto.
— Obrigada, mãe. Mas... — Leila mordeu o lábio, fazendo uma expressão preocupada. — A minha irmã ainda está no porão. E se ela estiver com muito frio? Talvez a gente devesse deixar ela sair. Eu nem a culpo mais por causa daquela carta de recomendação.
— Nem menciona essa psicopata de merda! — David se aproximou com a taça de vinho, bufando com frieza. — O sistema de refrigeração do porão é antigo; no máximo fica na temperatura de uma geladeira comum. Não vai matar ela! Ela só está sendo uma pirralha teimosa. Deixa ela lá embaixo por vinte e quatro horas inteiras. Talvez assim pense duas vezes antes de te intimidar!
Eu ouvi em silêncio do vazio.
David, você não sabe, sabe?
Alguém tinha abaixado a temperatura. A câmara fria já estava a vinte graus negativos, talvez menos.
Eu já estava morta.
Morta de verdade.
— Vou descer até a adega e pegar umas garrafas boas. Hoje a gente vai comemorar direito!
Sarah sorriu e foi na direção da escada do porão. Eu flutuei atrás dela.
A adega ficava bem ao lado da câmara fria.
Sarah desceu os degraus com o estalar dos saltos. Passou direto por aquela porta de ferro.
Se ela tivesse parado só por um instante.
Se ela tivesse apenas encostado o ouvido na porta para escutar.
Mesmo que só tivesse notado a camada anormalmente espessa de gelo sob a fresta da porta.
Ela teria percebido que havia algo errado.
Eu flutuei ao lado de Sarah, vendo-a tirar as chaves.
— Mãe... — chamei por instinto, mesmo sabendo que ela não podia me ouvir.
Sarah parou diante da porta. Franziu a testa, como se tivesse sentido um leve cheiro metálico.
Ela se virou e encarou com intensidade aquela porta de ferro.
A esperança se acendeu em mim.
Sarah estendeu a mão e agarrou a maçaneta da porta.
Nesse exato momento, a voz de Leila ecoou de repente do andar de cima: "Mãe! Onde você está? Não consigo achar aquele colar de diamantes! Você disse que eu podia usá-lo hoje à noite — ele está no seu quarto?"
"Meu Deus, eu quase esqueci!" Sarah bateu na própria testa. "Está no meu porta-joias, no compartimento pequeno lá embaixo!"
A mão dela se afastou num sobressalto.
Ela chutou a porta de ferro com desgosto e disse friamente: "Silêncio mortal aí dentro. Provavelmente emburrada como sempre. Isla, fique aí refletindo sobre o que você fez! Bancar a vítima não vai funcionar comigo!"
Com isso, ela se virou para a adega, pegou duas garrafas de Romanée-Conti e subiu sem olhar para trás.
Observei sua figura se afastando do vazio.
Mãe, faltou só um passo.
Você poderia ter descoberto meu corpo. Se tivesse olhado por apenas mais três segundos, teria visto que a poça sob a fresta da porta era, na verdade, sangue saindo das pontas dos meus dedos.
Que pena. Você desistiu.
Segui Sarah de volta para a sala de estar. Justin estava sentado no sofá, de cabeça baixa, encarando o celular.
Sua testa estava franzida, os olhos cheios de irritação.
Flutuei para trás dele e vi a tela com clareza. Era a conversa por mensagens dele comigo.
Isla, para de bancar a morta. Leila já até implorou por você.
É só pedir desculpa e a gente segue em frente. Por que você é sempre tão cruel pra caralho?
Se você não responder, acabou entre nós. E eu também não vou para Nova York com você.
Uma atrás da outra.
Só acusações.
Observei-o digitando e tive vontade de rir.
Justin, você esqueceu?
Quando tínhamos dez anos, Leila me empurrou na piscina e eu quase me afoguei. Você me puxou para fora e prometeu que sempre acreditaria em mim. Mas, desde que Leila começou a chorar na sua frente, você virou o herói dela.
Você sempre diz que sou cruel, diz que sou irracional.
Vi Justin jogar o celular no sofá com raiva e passar as mãos pelos cabelos, frustrado: "Isso não está certo... Por mais que ela faça escândalo, nunca fica em silêncio por tanto tempo. Qual é o problema dela?"
Ele se levantou: "Vou descer lá para obter respostas."
"Justin, espera..." Leila correu até ele, com os olhos vermelhos. "Isla acabou de me mandar uma mensagem... olha..."
Ela ergueu o celular com as mãos trêmulas, mostrando uma mensagem recém-enviada:
Leila, sua vadia, espere eu sair daqui para você ver o que eu vou fazer com você.
O rosto de Justin ficou cinza de raiva na mesma hora: "Ela OUSOU ameaçar você?! Leila, eu nunca imaginei que ela se tornaria assim! Isso é absolutamente perverso!"
"Tudo bem, Justin..." Leila disse, engasgando com o choro. "Talvez minha irmã sempre tenha me odiado no fundo... Só deixe ela pôr as emoções para fora."
"Pôr para fora? Ela está ameaçando a sua segurança!" Justin deu um passo em direção ao porão, o maxilar travado.
"Não vá, Justin." Leila agarrou depressa o braço dele. "Eu não quero que vocês dois briguem de novo..."
Justin respirou fundo, olhando para a expressão preocupada de Leila, e por fim cedeu: "Droga... Vamos, Leila. Eu vou ajudar você a ensaiar a dança de abertura."
