Capítulo 3

Ponto de vista de Isla

“Declaro a rainha do baile desta noite como sendo — Leila Walker!”

A coroa brilhante foi colocada na cabeça de Leila, sob o olhar de todos.

Era o momento culminante do baile. No salão luxuoso no qual David tinha conseguido entrar à base de patrocínio, todos os holofotes se concentraram em sua “filha” querida e motivo de orgulho. Justin, como rei do baile, puxou-a para os braços para receber os parabéns de todos.

Meu espírito vinha atrás de David, assistindo àquele circo.

“David, você realmente criou uma filha incrível”, derreteu-se uma senhora. “A Leila não só conseguiu aquela entrevista na Ivy League, como é tão elegante e bonita.”

David e Sarah sorriram, radiantes de orgulho.

“A propósito, você não tem outra filha? Como é que não vimos ela hoje à noite?”

O sorriso de David congelou na mesma hora. “Não fale dela. Aquela peste roubou a carta de recomendação da Leila por pura maldade. Tranquei ela em casa, pra refletir sobre o que fez.”

“Meu Deus… que tipo de irmã faria uma coisa dessas…”

“Fomos bonzinhos demais com ela”, Sarah balançou a cabeça. “Ela está emburrada. Não se preocupe.”

Eu os observei com frieza.

Emburrada?

Sim. Eu estava emburrada, sim — com o meu cadáver congelado a vinte graus abaixo de zero.

A dança continuou até tarde da noite.

A família voltou para casa meio alegre, eufórica com a comemoração. Justin voltou com eles também, dizendo que ajudaria Leila a levar os presentes para o quarto.

No instante em que entrou, Justin se desculpou, dizendo que precisava usar o banheiro, e foi direto para o andar de cima.

Eu sabia aonde ele ia. Para o meu quarto.

Meu quarto ficava no sótão. Quando eu tinha quinze anos, Leila choramingou que queria o meu quarto como ateliê de arte, porque era voltado para o leste e tinha uma luz boa para pintar.

“A Isla pode se mudar pro sótão. Ela vai ficar bem lá em cima.” Meus pais decidiram sem pensar duas vezes.

Então fui obrigada a me mudar para esse depósito improvisado — paredes com mofo, teto com goteira e só uma claraboia ridícula fazendo as vezes de janela.

Eu não tinha como lutar contra isso. Nesta casa, eu sempre fui a menos importante.

Eu o segui imediatamente escada acima.

Justin empurrou a porta do meu quarto e franziu a testa na hora.

O quarto estava vazio.

Os livros tinham sido tirados da minha escrivaninha, e a maior parte das minhas roupas tinha sumido do armário.

Justin paralisou.

Ele correu até a escrivaninha e puxou a gaveta. Nada de diário, como ele esperava; nada de bugigangas aleatórias.

Só um envelope vazio.

Justin pegou o envelope e sacudiu, fazendo cair o que havia dentro.

Uma carta de aceitação da Universidade de Nova York.

E uma passagem só de ida para Nova York, com partida amanhã de manhã.

As pupilas de Justin se contraíram bruscamente.

“Ela… ela não estava fazendo birra?”, murmurou Justin. “Ela já tinha planejado ir embora? Ela ia mesmo me abandonar e ir pra Nova York sozinha?”

Sim, Justin. Eu planejei tudo desde o começo.

Dezoito anos dessa merda já tinham sido o bastante. Quando meus certificados de honra foram jogados no lixo enquanto os rabiscos infantis da Leila eram tratados como tesouro na parede, eu entendi — nunca haveria um lugar para mim aqui.

Então comecei a me preparar. Trabalhei em empregos, juntei dinheiro, me inscrevi na NYU, até consegui uma bolsa integral. Eu tinha planejado ir direto para o aeroporto depois da formatura.

Sem nunca mais voltar para esta casa sufocante.

Pena que eu nunca cheguei a ver esse dia.

O pânico absoluto tomou conta de Justin.

Ele achou que eu só estava fazendo joguinho para chamar a atenção dele. Achou que, se me desse um pouco de gentileza, eu voltaria abanando o rabo feito um cachorro.

Mas ele nunca tinha considerado que eu pudesse ir embora de verdade.

Justin puxou o celular às pressas e começou a me ligar.

— Trim—trim—trim —

Só um toque interminável.

— ATENDE O TELEFONE! Isla, atende! — os olhos de Justin ficaram vermelhos. Ele andava de um lado para o outro no quarto como um animal enjaulado. — Você não pode simplesmente sumir assim comigo!

Enquanto isso, lá embaixo, na sala de estar.

David afrouxou a gravata e olhou para o relógio de parede.

— Ela ficou trancada um dia e uma noite inteiros — disse David, gelado. — Já passou da hora de aprender a lição.

Sarah estava sentada no sofá, massageando as têmporas:

— Vai lá tirar ela. Faz ela pedir desculpas à Leila e consideramos isso resolvido. Amanhã ela também precisa limpar a casa — ficou uma bagunça completa por causa da festa.

Leila disse docemente ao lado:

— Pai, não grita mais com a minha irmã. Tenho certeza de que ela sabe que estava errada.

— Sabe que estava errada? Se soubesse, já estaria lá dentro chorando e implorando a essa altura!

David bufou e pegou a chave do porão numa gaveta.

Então foi em direção à escada do porão.

Eu flutuei atrás de David, observando enquanto ele descia degrau por degrau.

O ar do porão estava visivelmente mais frio do que o de cima.

David não conseguiu evitar um arrepio:

— Por que essa porcaria tá tão fria? O sistema de refrigeração quebrou?

Ele foi até a porta de ferro da câmara fria.

Uma crosta grossa de gelo branco cobria a porta, e na fresta de baixo havia uma poça de gelo vermelho-escuro.

Mas David não olhou para baixo.

Ele gritou para a porta:

— Isla! Já acabou com essa sua ceninha de coitadinha? Tira essa sua bunda daí AGORA e vem pedir desculpas pra Leila!

Silêncio de morte lá dentro.

— Vai continuar fingindo de morta pra mim?

David ficou completamente furioso.

Enfiou a chave à força na fechadura.

Clique.

A fechadura se abriu.

Nesse momento, os passos desesperados de Justin vieram do andar de cima. Depois de descobrir meu plano de fuga, ele tinha enlouquecido e estava descendo às pressas.

David agarrou a maçaneta congelada e puxou a porta para fora.

A porta pesada de ferro fez um som áspero de raspagem quando se entreabriu.

Um cheiro absurdamente forte de sangue, misturado a uma névoa branca de vinte graus abaixo de zero, explodiu para fora na mesma hora, batendo no rosto de David.

David cambaleou para trás por causa do frio, ainda praguejando:

— Que porra você andou fazendo aí den...

As palavras morreram, interrompidas de repente.

David viu o corpo encolhido no canto.

Meu corpo.

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