Capítulo 9 - Retorno
Ezra levou Emma até a casa de Melora e a deixou lá depois de entregar seu cartão para Tilly. Assim que ele foi embora, Tilly levou Emma para a sala de estar, onde se sentaram no sofá, e a abraçou enquanto ela chorava.
"Tilly, eu sei que ele a matou. Ela não teria se levantado sozinha, estava muito fraca. Não havia razão para ele estar em casa esta manhã, mas foi ele quem a encontrou. Eu sei que ele está mentindo, e espero que a polícia consiga provar isso." Emma estava triste, mas sentia mais raiva do que qualquer outra coisa.
"Sinto muito, Emma. Espero que eles o peguem desta vez também." Tilly acariciava seu cabelo enquanto ela chorava. Ela se sentia muito mal por saber que a mãe de Emma havia sofrido a maior parte de sua vida por causa daquele homem, e isso resultou em sua morte. Ela prometeu silenciosamente a Paula que cuidaria de sua filha em sua ausência.
Emma estava com medo de que, se não prendessem Martin, ela teria que voltar para aquela casa. Se a forçassem a voltar, ele não colocaria um dedo nela. Cada vez que ele a batesse, ela chamaria a polícia. Emma sabia que quanto mais queixas fizesse, maior seria a chance de sair daquela casa para sempre.
"Ezra disse que fará tudo o que puder para provar que Martin é o responsável. Se não o prenderem, talvez eu tenha que voltar para a casa dele porque ele é meu tutor legal." Tilly não podia acreditar que a polícia faria Emma voltar para lá. Seria devastador para ela viver na casa onde sua mãe foi abusada e possivelmente morta.
"Mesmo que isso aconteça, você pode ficar aqui sempre que quiser, Emma."
"Obrigada, Tilly."
Pouco mais de uma semana após a morte de Paula, o legista liberou o corpo dela para que pudessem fazer o funeral. Emma não queria que Martin estivesse envolvido, mas ele era o marido dela, então fez todos os arranjos.
Martin disse à funerária que Paula queria ser cremada. Emma gritou e disse que não era verdade, mas ninguém a ouviu.
Martin sorriu para ela o tempo todo durante o serviço memorial. Martin, Emma, Leo, Melora e os pais de Melora foram os únicos presentes. Após o serviço, Emma foi embora com Melora e sentiu a tensão em seu corpo desaparecer. Ela não gostava de estar perto de Martin e Leo.
Martin observou Emma sair e sorriu para si mesmo. Ele sabia que a investigação sobre a morte de Paula ainda estava em andamento, mas não se importava. Não havia nada que provasse que ele a havia matado, então Emma seria forçada a voltar em breve.
Ele não poderia tratá-la como tratou a mãe dela porque Emma não hesitaria em chamar a polícia. Martin planejava manter as mãos longe dela até que ela completasse dezoito anos; então, ela seria dele. Ele se afastou da funerária, assobiando enquanto Leo o seguia.
Leo não sabia por que seu pai estava de tão bom humor. Agora que Paula e Emma se foram, não havia ninguém para cozinhar ou limpar para eles. Ele esperava que Emma fosse forçada a voltar para que tivesse que cuidar da casa. Leo não ia fazer isso; não se importava com o que seu pai fizesse ou dissesse.
Quando Leo olhou para o caixão de Paula, não sentiu nada. Ela não era nada para ele além de uma mulher da limpeza e saco de pancadas para seu pai. Leo estava feliz que ela finalmente se foi, assim não teria que ouvir seus pedidos e choros mais. Ele esperava que seu pai encontrasse alguém novo em breve; a casa estava ficando bagunçada só com os dois.
Paula foi cremada logo após o serviço memorial, e as cinzas foram entregues a Emma. Martin disse que elas pertenciam à filha.
Dois meses após a morte de Paula, o legista e a polícia classificaram sua morte como indeterminada. Não tinham provas de que Martin a matou, mas devido aos danos em seu corpo, também não podiam provar que ele não a matou.
Ezra estava esperando por Emma quando ela chegou da escola, e assim que viu seu rosto, soube que não era uma boa notícia. Ela e Melora caminharam lentamente até ele.
"O que foi, Ezra?" Emma perguntou, prendendo a respiração.
"Sinto muito, Emma, mas não conseguimos determinar a causa da morte de sua mãe. Ela morreu em decorrência da queda, mas não podemos afirmar se alguém a fez cair." Emma assentiu; ela já esperava por isso.
"Então isso significa que vocês não podem prender o Martin?" Emma perguntou, já sabendo a resposta.
"Sim, e ele solicitou que você volte para a casa dele. Eu sei que você não quer, e podemos tentar lutar contra isso no tribunal. Você precisaria descrever os abusos que ele cometeu contra você." Emma pensou no que ele disse, mas sabia que não adiantaria. Ela não tinha fé no sistema legal; eles a decepcionaram muitas vezes.
"Não, eu vou voltar. Eu me preparei para isso. Garanto que o Martin não vai me machucar como antes ou como fez com a minha mãe. Se ele me tocar, vou ligar para você, Ezra."
Ezra ficou chocado; ele pensou que ela choraria e imploraria para ficar onde estava. Isso o fez se sentir ainda pior, pois podia perceber que ela já esperava que eles a decepcionassem.
Emma entrou na casa e disse à família de Melora que tinha que ir embora. Depois de arrumar suas coisas, incluindo as cinzas de sua mãe, ela abraçou todos e foi até Ezra. Ela não queria voltar, mas sabia que era mais forte que sua mãe.
Quando chegaram à casa de Martin, ele estava esperando na varanda com um grande sorriso falso. Emma o encarou enquanto pegava suas malas com a ajuda de Ezra.
"Bem-vinda de volta, Emma. Sentimos sua falta." Martin estava tentando parecer amigável para o benefício de Emma e do policial. Ele planejava se comportar da melhor maneira possível, para que pensassem que ele havia mudado.
"Eu não senti sua falta, e não estaria aqui se não fosse obrigada. Se você colocar um dedo em mim, prometo que será a última vez. Eu não sou minha mãe, e não vou aceitar isso calada." Martin teve vontade de puxá-la para dentro da casa e mostrar que ela aceitaria, mas se acalmou. Ele tinha que esperar o momento certo.
"Não sei do que você está falando, Emma. Eu nunca te machucaria." Emma olhou para ele como se ele tivesse duas cabeças. Ela sabia que ele estava fingindo e não confiava nele. Ele estava tramando algo, mas ela não sabia o quê.
"Sr. Edwards, Emma está sendo devolvida aos seus cuidados. Faremos visitas aleatórias para verificar seu bem-estar, e ela tem meu número para ligar a qualquer hora, dia ou noite." Ezra estava deixando claro para Martin que ele estava sendo observado. Emma poderia estar morando com ele agora, mas não seria esquecida.
"Sem problema, policial, você pode vir quando quiser. Emma, vamos entrar; eu pedi pizza para o jantar." Emma abraçou Ezra e depois passou por Martin. Ela viu a pizza na mesa de jantar, mas a ignorou enquanto subia as escadas. Emma não tinha vontade de comer com Martin ou Leo.
Emma olhou para o quarto de sua mãe e viu que estava completamente limpo. Ela ficou triste e aliviada ao mesmo tempo. Não queria ser lembrada do sofrimento de sua mãe, mas também queria lembrar dela.
Quando chegou ao seu quarto, viu que tudo estava como havia deixado. Emma respirou fundo e entrou. Depois de bater a porta atrás de si, trancou-a. Quase imediatamente, ouviu Martin batendo.
"Emma, desça e jante conosco. Pedimos só para você." Emma revirou os olhos, mas não abriu a porta.
"Não estou com fome." Ela começou a desempacotar suas malas, mas Martin não desistia.
"Vamos, Emma, por favor, passe um tempo conosco. Não te vemos há meses." Martin estava ficando irritado, e estava se segurando para não arrombar a porta e arrastá-la para baixo. Se ela continuasse agindo assim, ele não sabia por quanto tempo poderia ser paciente.
"Me deixe em paz. Não quero comer com você ou seu filho." Emma estava fazendo o possível para provocá-lo. Se ele a ameaçasse, ela chamaria a polícia para poder voltar para a casa de Melora. Para sua surpresa, ele não reagiu como ela esperava.
"Tudo bem, vou deixar as sobras na geladeira para você." Martin se afastou antes de fazer algo de que se arrependesse. Ela mudaria de atitude em breve; ele só precisava esperar.
