Capítulo 24 - Aniversário

(Aviso: este capítulo contém conteúdo que pode ser muito sensível para alguns leitores. Não há detalhes, mas há referências ao que aconteceu, em particular abuso infantil.)

Emma estava na unidade de cuidados paliativos há várias semanas. Ela havia perdido a noção dos dias e do tempo, pois a mantinham constantemente sedada para que parasse de gritar. Emma estava determinada a sair dali e encontrar Cat, mas não sabia como.

Quando as enfermeiras entravam, ela implorava para usar o telefone, mas elas recusavam. Ela pedia por Cat, e elas achavam que ela estava pedindo um gato, e diziam que animais não eram permitidos. Emma não sabia o que fazer, mas não podia deixar Leo tocar em Cat. Ela sabia que devia estar perto do aniversário de Cat, e ele havia dito que iria tocá-la no aniversário dela.

"Por favor, me deixe sair daqui." Emma sussurrou quando uma enfermeira entrou.

"Não posso fazer isso, Emma. Sinto muito, mas você fez do seu irmão seu procurador, e ele decidiu que você deveria ficar aqui. Agora vou te dar uma injeção para te ajudar a relaxar." A enfermeira puxou uma agulha e a espetou na coxa de Emma.

"Nãããão, por favor, eu preciso ver a Cat."

A enfermeira se afastou, balançando a cabeça. Ela sentia pena da jovem, mas não entendia por que ela continuava chamando por seu gato. Achava que ela devia estar muito confusa.


Cat acordou no seu sexto aniversário, esperando que hoje fosse o dia em que sua mamãe voltaria para casa. Leo havia dito que sua mãe estava muito doente dessa vez. Ela não acreditava nele, mas isso explicava por que ela não voltava para casa.

Quando saiu do quarto, Leo estava sentado no sofá onde dormia. Cat sentou em uma das cadeiras e olhou para ele.

"Minha mamãe vai voltar para casa hoje? É meu aniversário." Cat sentia vontade de chorar.

"Não, não hoje. Falei com o hospital, e disseram que ela ainda está muito fraca para falar ao telefone também. Tenho uma surpresa para você mais tarde, mas agora, quero te dar isso." Leo entregou a ela alguns sacos de presente, e Cat os pegou cautelosamente. Ela havia aprendido que os presentes de Leo vinham com um preço. Um que ela não podia contar para sua mãe, ou ele dizia que a deixaria mais doente.

Cat olhou dentro dos sacos, e eram vestidos. Todos de cores diferentes. Ela costumava gostar de ganhar vestidos dele, mas depois ele insistia em ajudá-la a se vestir. Cat sabia que a maneira como ele a tocava não era certa porque sua professora havia lhe ensinado a diferença entre toques bons e ruins. Cat deixou os vestidos nos sacos e sentou-se novamente.

Leo observou enquanto Cat se encolhia na cadeira. Ele havia decidido esperar até o dia seguinte ao aniversário dela para contar que sua mãe havia morrido. Claro, não era verdade, mas ele a faria acreditar que era. Assim, ela entenderia que agora era toda dele. Mas hoje à noite, ele ia dar a ela um presente de aniversário muito especial.

Leo fez panquecas para o café da manhã de Cat, sabendo que eram suas favoritas. Depois, jogou um jogo de tabuleiro com ela, tentando fazê-la ver que ele não era tão ruim. Mas ela nunca sorria; apenas parecia triste.

Para o jantar daquela noite, ele pediu comida e trouxe um bolo de aniversário para ela. Depois que ela soprou as velas e comeu um pedaço, ele se levantou e pegou sua mão.

"Vamos, Cat, é hora de dormir." Cat olhou pela janela e viu que ainda nem era noite.

"Ainda está cedo. Eu não quero ir para a cama ainda." Leo a puxou para o quarto e fechou a porta.

"Você não tem escolha, e agora que sua mãe não está aqui, eu vou dormir com você." Cat olhou para ele com medo e tentou sair do quarto, mas ele a impediu.


Na manhã seguinte, Cat ficou na cama chorando depois que Leo se levantou. Ela chorava pela sua mamãe, querendo que ela a salvasse do pesadelo em que estava. Leo a havia avisado que poderia ser pior, e Cat acreditava nele.

Quando saiu da cama, foi ao banheiro e fechou a porta. Cat ligou a água e tomou um banho. Sua mãe costumava ajudá-la, mas depois que ficou doente, Cat começou a fazer muitas coisas sozinha.

Ela se sentia suja depois do que Leo havia feito e queria se sentir limpa. Cat esperava que sua mamãe melhorasse logo. Ela não ia mais guardar o segredo de Leo. Agora sabia que ele estava mentindo sobre isso deixar sua mamãe mais doente, e estava pronta para contar tudo.

Quando saiu do banho, vestiu-se rapidamente com jeans e uma camiseta. Não havia chance de ela usar um dos vestidos que ele lhe deu. Cat pensou em fugir e ir para o hospital, mas não sabia como chegar lá.

Cat saiu do banheiro e sentou-se à mesa da cozinha, onde Leo havia colocado seu café da manhã. Ela comeu devagar, sem olhar para ele enquanto ele comia do outro lado da mesa.

"Cat, você tem algo a me dizer?" Leo perguntou; era hora de ela aprender algumas maneiras.

"Não." Cat disse, empurrando a comida no prato. Leo estendeu a mão e deu um tapa forte no rosto dela. Cat colocou a mão na bochecha enquanto começava a chorar. Ninguém nunca havia batido nela antes.

"Você precisa agradecer pelos presentes de aniversário e pelo café da manhã." Cat olhou para ele aterrorizada, e tudo o que podia ver era frieza em seus olhos azuis.

"Obrigada." Ela disse em um sussurro, sem saber o que mais fazer.

"Assim está melhor. Ah, sim, tenho outra coisa para te contar. Recebi uma ligação do hospital, e disseram que sua mãe morreu na noite passada. Sabe, Cat, acho que ela morreu porque estava cansada de ter que cuidar de uma pirralha mimada e ingrata como você. Provavelmente foi você quem deu câncer a ela." Leo cuspiu as palavras para Cat, e ela nunca se sentiu tão pequena em sua vida.

"Isso não é verdade; minha mamãe não morreu." Cat disse horrorizada através das lágrimas.

"Sim, ela morreu, e você nunca mais vai vê-la. Agora você pertence a mim, então é melhor se acostumar com isso." Leo sorriu enquanto continuava comendo.

Cat pulou da mesa e correu para uma cadeira na sala de estar. Normalmente, quando estava chateada, ela ia para o quarto, mas não mais depois do que Leo fez. Ela se encolheu na cadeira e chorou. Se sua mamãe estava morta, ela teria que viver com Leo para sempre. Ela não queria que ele continuasse machucando-a daquele jeito.

Leo riu enquanto Cat chorava. Ele planejava mudá-la para seu apartamento hoje. Não havia razão para manter este lugar porque Emma morreria em breve, mesmo que ainda não tivesse morrido.

Ele empacotou as roupas de Cat e se recusou a deixar que ela levasse qualquer coisa de sua mãe. Quando encontrou a urna com as cinzas de Paula, jogou-a no lixo, quebrando-a em pedaços. Não precisava daquilo, ele disse a si mesmo, pensando que Paula estava no lixo onde merecia estar.

Cat tentou esconder algumas roupas de sua mãe para levar, mas Leo a esbofeteou novamente quando descobriu. Ela só podia levar suas próprias roupas. Ele nem deixou que ela levasse seus livros ou brinquedos. Ela chorou ao deixar a única casa que já conheceu. Cat desejava poder morrer também para estar com sua mamãe.

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