Capítulo 8 - Adeus
Emma sentia como se alguém tivesse arrancado seu coração do peito. Ela não podia acreditar que sua mãe tinha partido. Tudo o que conseguia pensar era que nunca mais poderia falar com ela ou dizer que a amava. Emma queria ser a pessoa a salvar sua mãe e tirá-las daquela casa, mas Martin tinha garantido que isso nunca aconteceria.
"Ezra, por favor, me diga que você vai pegar o Martin desta vez. Você sabe que ele a matou. O abuso dele nunca parou, mesmo depois de você prendê-lo da última vez; se é que algo, piorou. Você vai conseguir pegá-lo?" Emma olhou para o rosto de Ezra querendo ver a verdade.
"Emma, não vou mentir para você. Será difícil provar que ele a matou, mas faremos tudo o que pudermos para garantir que descobrimos a verdade. Você pode vir comigo? Quero pegar seu depoimento sobre tudo o que tem acontecido naquela casa." Ezra não conseguia se comprometer a fazer mais promessas quando não tinha certeza se poderia cumpri-las.
"Obrigada por não me dizer que vai garantir que tudo ficará bem. Eu sei que você fez o seu melhor antes, mas pessoas como Martin sempre vencem. Ezra, você pode me levar para ver minha mãe antes de eu dar meu depoimento? Preciso me despedir dela."
"Sim, vamos. Martin estará na delegacia para interrogatório quando chegarmos lá, mas vou garantir que você fique longe dele. E seu irmão? Devemos buscá-lo também?" Ezra se lembrou do garotinho loiro que estava com Paula todos aqueles anos atrás.
"Leo é meu meio-irmão, e ele não vai se importar com o que aconteceu com minha mãe; ele é igual ao pai." Emma falou de forma tão direta que Ezra ficou chocado. Como Leo poderia ser tão insensível à perda da madrasta? Ele decidiu que agora não era o momento para questionar Emma sobre isso.
Ezra levou Emma ao necrotério para ver sua mãe antes de irem para a delegacia. O legista tinha acabado de preparar Paula quando chegaram. Ela olhou de Ezra para Emma com preocupação. Nenhuma criança deveria ver seu pai ou mãe na condição em que Paula estava.
"Você tem certeza disso?" A legista era uma mulher mais velha que não conseguia imaginar deixar seus filhos ou netos fazerem algo assim. Ela olhou para Emma, que já tinha os olhos vermelhos.
"Sim, senhora. Preciso me despedir dela. Graças ao abuso do meu padrasto, eu já sei como ela está." Emma olhou nos olhos da legista e viu sua expressão suavizar.
"Tudo bem, querida." Ela lentamente moveu o lençol do rosto de Paula, e Emma engasgou enquanto suas lágrimas começavam a cair novamente. O rosto de sua mãe parecia ainda mais pálido, fazendo os hematomas parecerem um roxo profundo. Ela acariciou levemente a bochecha da mãe e beijou sua testa.
"Está tudo bem, mãe. Pelo menos ele não pode mais te machucar. Prometo ser forte, para que você não precise se preocupar comigo. Eu vou ficar bem. Eu te amo, mãe." Emma deu mais um beijo em sua mãe antes de se virar para sair pela porta. Tanto a legista quanto Ezra tiveram que enxugar as lágrimas dos olhos na despedida mais triste que já testemunharam.
Emma ainda sentia como se tivesse um buraco no coração, mas se sentiu melhor depois de ver sua mãe e se despedir. Ela sabia que sua mãe agora estava em paz e nunca mais seria machucada. Assim que entraram no elevador, Emma olhou para Ezra.
"Me leve para a delegacia, e eu contarei tudo o que você precisar saber." Ezra olhou para a adolescente ao seu lado em descrença. Ela era a garota mais forte que ele já conhecera. O que o machucava, no entanto, era que a vida que ela teve que suportar a fez assim.
Ezra levou Emma para a delegacia ao lado e encontrou uma sala longe de onde Martin estava sendo mantido. Ele não queria que ele chegasse perto dela se pudesse evitar. Ezra estava preocupado com Martin sendo seu tutor legal; ela teria que voltar para aquela casa se ele não fosse preso. Ele queria garantir que isso não acontecesse.
Ezra pediu a Emma para contar tudo o que aconteceu naquela manhã antes de ela sair para a escola. Quando ela terminou, ele pediu que falasse sobre como as coisas estavam na casa na última semana. Emma foi muito detalhada ao descrever cada soco, tapa e chute que ela e sua mãe receberam.
Ezra se sentiu mal ouvindo-a falar sobre o abuso em um tom monótono. Ele podia perceber que ela havia se endurecido e tentava não deixar a dor atingi-la. Quando ela terminou e olhou para ele com olhos frios, ele sabia que tinha que dizer algo. Ezra se sentia responsável por deixar Emma e Paula naquela casa.
"Sinto muito, Emma. Eu deveria ter feito mais para ajudar você e sua mãe. Vou fazer tudo o que puder para ajudar você agora. Há algum outro lugar onde você possa ficar enquanto fazemos nossa investigação? Não quero que você volte para aquela casa." Ezra viu o rosto de Emma empalidecer.
"De jeito nenhum eu vou voltar agora que minha mãe se foi. Posso ficar com minha amiga Melora. Os pais dela estavam tentando fazer com que eu e minha mãe nos mudássemos para lá, mas eu não queria que Martin os incomodasse. Tenho certeza de que eles vão me deixar ficar lá agora." Emma ainda estava preocupada que Martin fosse até a casa de Melora, mas ela não podia ficar com ele.
"Está bem, por que você não liga para os pais de Melora, e eu te levo até sua casa para pegar algumas de suas coisas?" Emma assentiu, e Ezra mostrou onde estava o telefone. Ela discou o número da casa de Melora, e Tilly atendeu no segundo toque.
"Alô?"
"Alô, Tilly. Aqui é a Emma."
"Emma, querida, o que aconteceu?" Tilly podia ouvir a tristeza na voz de Emma e sentiu um frio percorrer seu corpo.
"Tilly, minha mãe morreu, e eu não quero voltar para a casa do Martin. Posso ficar com vocês? Estou na delegacia agora, e eles vão me levar para pegar algumas das minhas coisas." Emma começou a chorar no telefone, e Tilly sentiu seu coração se partir. Ela sabia que Paula estava em má situação, mas não pensava que ela morreria.
"Sinto muito, Emma. Claro que você pode ficar conosco. Quer que eu te encontre na casa do Martin?"
"Não, o Ezra vai me levar até sua casa. Obrigada, Tilly." Emma desligou o telefone e olhou para Ezra.
"Estou pronta. Ela disse que eu posso ficar lá. Não quero ver o Martin ou o Leo, então podemos ir rápido, por favor?" Emma queria terminar isso o mais rápido possível. Ela culpava tanto Martin quanto Leo pela fragilidade de sua mãe. Eles trataram sua mãe tão mal que, se visse qualquer um dos dois, tinha medo de que pudesse matá-los.
Ezra levou Emma até a casa, e ela sentiu a garganta apertar enquanto entravam. Ainda havia pessoas lá coletando evidências e tirando fotos. Ela rapidamente subiu as escadas, e quando passou pelo quarto onde sua mãe estava, Emma sentiu suas lágrimas caírem.
Ela passou pelo quarto de Martin e notou uma camisa branca no chão. Emma achou estranho porque tinha passado uma camisa para ele naquela manhã, então por que outra estava no chão?
Quando chegou ao seu quarto, rapidamente pegou suas duas malas e colocou o máximo que pôde dentro delas. Emma pegou o álbum de fotos que tinha escondido debaixo do colchão com fotos dela, de sua mãe e de seu pai verdadeiro. Ela olhou ao redor, certificando-se de que não estava deixando nada importante para trás, pois não sabia se voltaria algum dia.
Enquanto ela e Ezra desciam as escadas, a porta da frente se abriu, e Martin entrou. Emma sentiu a raiva crescer dentro dela, e antes que Ezra pudesse detê-la, ela correu escada abaixo. Ela viu o sorriso sarcástico no rosto dele, e isso a deixou ainda mais furiosa.
"Está feliz agora, seu desgraçado? Você matou minha mãe, e agora não tem mais ninguém para bater, exceto seu precioso filho. Espero que você queime no inferno quando terminarem com você." Martin tentou controlar sua raiva ao ouvir Emma falar com ele daquele jeito. Se a polícia não estivesse lá, ele a ensinaria uma lição que ela nunca esqueceria.
"Eu não a matei; ela era fraca demais para viver. Para onde você pensa que está indo? Eu sou seu tutor legal, então você tem que ficar aqui."
Martin tinha toda a intenção de transformar Emma em sua próxima esposa; ele só precisava esperar até que ela completasse dezoito anos. Ele teve essa ideia enquanto estava a caminho do interrogatório. Quem melhor para substituir Paula do que sua filha, que ele poderia quebrar tanto quanto fez com a mãe dela?
"Sr. Edwards, Emma não ficará aqui enquanto estamos fazendo a investigação. Outras providências foram tomadas para ela. Se descobrirmos que você tentou contatá-la, será preso." Ezra levou Emma para fora da casa antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa. Martin ainda gritou atrás deles; ele não pôde se conter. Ele tinha que tentar entrar na cabeça de Emma.
"Você vai voltar, Emma. Você me pertence, e eu sempre consigo o que é meu."
Emma manteve a cabeça erguida e continuou andando. Ela estava acostumada com os jogos dele, mas também não queria que ele visse seu medo. E se ele estivesse certo e ela tivesse que voltar para aquela casa? Aconteceria com ela o mesmo que aconteceu com sua mãe?
