Capítulo 1 Aidan Moretti
Claro, eles estavam bebendo champanhe.
Em festas daquele tipo, era sempre champanhe — aquele tipo de evento em que todo mundo fingia ser naturalmente rico, naturalmente interessante e naturalmente não estar morto por dentro. A cobertura da Torre Moretti, um dedo do meio de vidro e aço apontado para a gravidade.
Uns sessenta convidados tomavam conta do lugar, fazendo as mesmas três coisas em looping: beber, fofocar e torcer para que alguém estivesse olhando enquanto faziam isso.
O horizonte de Atlanta brilhava lá embaixo como se fizesse parte da piada. Lá do alto, encharcado de luzes de LED e narcisismo, você achava que estava acima de tudo. Mas a cidade não ligava para o seu champanhe nem para os seus segredos. Só piscava de volta para você, indiferente.
O DJ tocava uma batida que parecia ter sido geneticamente modificada para anestesiar gente com dinheiro demais e conteúdo de menos. Garçons deslizavam pela multidão com bandejas cheias de distração líquida, os sorrisos tensos, os olhos vidrados de tanto riso falso.
Ali, todo mundo falava em sussurros. E todos estavam sussurrando sobre ele. O homem da noite.
Giovanni Aidan Moretti.
O nome surgia a cada poucos minutos. As mulheres — em sua maioria silicone e paetês — lançavam olhares furtivos para o segundo andar, onde uma porta permanecia fechada. Jogavam o cabelo sobre os ombros bronzeados e tentavam seduzir mais do que as outras com seus sussurros.
“Já viu ele?”, disse uma loira a uma morena, os lábios brilhantes o bastante para refletir a luz da lua.
“Ainda não”, sussurrou a morena.
No submundo, ele era rei. Giovanni Aidan Moretti era um nome de peso, e não no tipo de fama de influenciador do Instagram. Ele comandava os territórios do sul do império Moretti como se fossem propriedades do Banco Imobiliário que já tinha cansado de colecionar.
Jovem, impecável, com aquele ar estudado de mistério que, na verdade, não era mistério nenhum — era distância. E distância é poder. A festa era em homenagem a ele. Seu mais novo “empreendimento”, seja lá o que isso significasse. O tipo de negócio que talvez exigisse um celular descartável.
Quando a luz do sol foi abrindo caminho à força pela cobertura, a multidão se desfez. Sumiu em carros executivos e carros de aplicativo, os saltos ecoando como reflexos tardios. A festa terminou como a maioria das mentiras termina — em silêncio, sem encerramento.
E Giovanni nem apareceu. Como se tivesse dado a festa só para ver o que aconteceria se ele não aparecesse.
Taças de champanhe tombadas jaziam de lado como pequenas vítimas do capitalismo. Guardanapos amassados nos cantos. A pista de dança tinha deixado de brilhar para ficar deprimente.
Às 8h45 da manhã, o elevador anunciou sua chegada.
Ela saiu dele com o cabelo preso num coque. Sem salto. Sem brilho. Só um moletom preto simples, jeans e uma bolsa de lona que parecia já ter passado por muita coisa.
Millie “Millie” Foster. Vinte e cinco anos. Era o tipo de mulher que sabia que, por trás de toda “noite divertida”, vinha uma manhã como aquela. Vidro quebrado. Chão pegajoso.
Os olhos dela percorreram o ambiente como os de uma detetive numa cena de crime. Ela absorveu tudo, um desastre de cada vez. Foi direto para a cozinha. Prioridades. Pratos batiam uns nos outros como ossos. Ela se movia com o ritmo de quem não precisava de elogio, só de progresso.
Quando chegou à sala de estar, o sol já iluminava a bagunça em alta definição. Ela olhou para o celular — 10h da manhã. Precisava ir para o pátio ou corria o risco de desequilibrar o resto do dia.
Ela se abaixou para arrumar uma pilha de revistas de moda — um monte de bobagem empilhada sem cuidado, feita para dizer às pessoas quem invejar — quando um gemido cortou o silêncio. Não do tipo bom. Do tipo que faz o sangue gelar.
Ela congelou.
— O que diabos... — murmurou, girando nos calcanhares.
E lá estava ele.
Um cara.
Ele era um clichê ambulante, mas do tipo que ainda conseguia te acertar em cheio no estômago. A cueca boxer minúscula descia baixa pelos quadris como se tivesse algo a provar, aparecendo por baixo de uma camisa meio abotoada que se agarrava a um peito esculpido com a dose certa de arrogância. Tatuagens serpenteavam pelos braços, pistas visíveis de qualquer mitologia que ele tivesse decidido seguir. Daquele tipo de tinta que gritava eu faço minhas próprias regras, mas provavelmente vinha com uma história envolvendo tequila e ego.
O cabelo dele estava artisticamente bagunçado — daquele jeito que custa 80 dólares para parecer que você não se importa — e os olhos, de um tom criminosamente azul, se apertavam contra o sol.
Quem diabos é esse cara? Os olhos dela fizeram a pergunta que sua boca ainda não conseguia formular.
Então, como um príncipe meio morto se erguendo dos destroços da própria festa, ele piscou para ela.
— Você deve ser a faxineira — disse ele, com uma voz rouca e áspera na medida certa, que deslizou sob a pele dela antes que pudesse se defender. Aquele tom. Indiferença transformada em arma.
— E você deve ser o sr. Moretti? — ela soltou num guincho e se odiou pela forma como aquilo saiu — como um personagem de desenho animado preso num túnel de vento de feromônios.
— Você faz eu parecer tão velho. — Ele gemeu, passando a mão pelo rosto como se estivesse tentando se apagar. — Aidan Moretti. E sim, sou eu. Mas me chama de Aidan. E, pelo amor de tudo que é sagrado, por favor faz alguma coisa naquela janela. Eu preciso de cortinas blackout. Meu cérebro está virando uma roda punk.
Certo. Cortinas blackout. Como se o sol fosse o inimigo ali, e não a garrafa que ele provavelmente tinha esvaziado cinco horas antes.
Millie não disse o que estava pensando — que talvez sua alteza pudesse tomar um café como o resto da humanidade. Em vez disso, olhou para a janela, por onde a luz do sol entrava com um tipo de agressividade alegre que fazia gente como ele chiar.
— Cortinas blackout? — perguntou, erguendo só um pouco a sobrancelha. — Isso pode dificultar a parte da limpeza, sr. Moretti.
— Aidan — ele repetiu, mais devagar dessa vez, como se fosse ela quem não estivesse entendendo. Cruzou os braços, exibindo mais tinta e mais músculo. — Você pode começar a limpar depois que eu acordar.
Claro. Ele era um homem acostumado a dar ordens. Mas Millie não recuou. Nunca recuava.
— Você pode voltar para o seu quarto enquanto eu continuo limpando aqui — sugeriu ela. — Prometo fazer menos barulho.
— Eu quero dormir no sofá — disse Aidan, os olhos vagando para o lugar logo atrás dela. — Então me deixa dormir. Espera até eu acordar, aí você pode começar a limpar. Pode pegar uma garrafa de vinho lá fora enquanto espera, se quiser. Não se preocupe, eu não vou denunciar você.
Como se estivesse fazendo um favor a ela. Como se ficar largada no sofá de couro de outra pessoa com uma taça de cabernet roubado fosse um sonho de vida. Millie mordeu o lábio. Com força. Aquilo já era um pesadelo de agenda e, em algum lugar por aí, outro cliente esperava que ela não chegasse dez horas atrasada porque Giovanni Aidan Moretti queria tirar um cochilo.
— Na verdade — disse ela com cuidado —, eu tenho outro compromisso depois do almoço, sr. Moretti.
— Aidan — ele corrigiu com suavidade. — Vamos pular as formalidades.
Ele ergueu uma sobrancelha irritantemente perfeita, usando aquela expressão como uma arma — partes iguais de desafio, charme e encrenca.
— Eu tenho a casa de outro cliente para limpar — disse Millie, tentando manter o profissionalismo.
— Cancela — disse ele, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. — Eu triplico o seu valor.
— Com licença?
— Acho que você me ouviu, srta....
