Capítulo 2 Beleza e sono

Millie ouviu — só não conseguia acreditar. Triplicar o valor dela? Assim, do nada?

Claro que ele faria isso. No mundo de Aidan, dinheiro não era só poder — era a resposta para tudo. Jogue dinheiro suficiente num problema, e ele desaparece. Inclusive o fato de que aquele homem claramente não ouvia um “não” desde a pré-escola.

Millie ficou ruminando a proposta. Não literalmente, mas daquele jeito que as pessoas fazem quando dinheiro e moralidade estão tentando disputar queda de braço atrás dos olhos. Triplicar o valor dela apagaria a luzinha demoníaca piscando no painel.

Mas desmarcar com um cliente? Aquilo não era a cara dela.

— Oferta generosa — ela disse, e era mesmo. — Mas dar um perdido em alguém não faz meu estilo.

Claro que não fazia. Ela tinha princípios.

Ela mudou a marcha, recalculou. — Que tal assim? — disse, com a voz de uma mulher que tinha planos B para os planos B. — Eu adio meu próximo compromisso e volto mais tarde. A limpeza fica pronta, e você coloca o sono em dia.

Aidan encarou Millie. Não apenas olhou — encarou. E o silêncio dele se estendeu um pouco demais, como se ele quisesse que ela se contorcesse sob aquilo.

— Sono de beleza? — ele repetiu, uma sobrancelha arqueada como a de um homem que não ouvia um elogio sincero havia anos. — Você acha que eu estou com cara de quem acabou de perder uma briga de bar?

Ele meio que estava. E, de algum jeito, isso só piorava. Porque ele também parecia o tipo de cara que ganhava a briga de bar, depois comprava o bar e, em seguida, botava fogo nele só para ver as chamas.

Ela deu de ombros. — Não foi um insulto. Só estou dizendo… você está com cara de quem teria se beneficiado de mais algumas horas de sono.

Isso arrancou um tique no canto da boca dele — não exatamente um sorriso, mais como uma diversão que passou de raspão.

— Bom, obrigado. E quer saber o que eu acho que você parece, senhorita Agenda-e-Esfrega? — O tom era leve, mas havia uma provocação sutil por baixo.

— Não precisa — ela disse, fria e uniforme. — Eu pareço alguém que está aqui para limpar, não para conversar ou entreter. Vamos manter as coisas bem claras.

— Ah. Ok. — Ele soltou uma risada baixa, sem se abalar. — Claríssimas.

Mas, quando Millie sustentou o olhar dele por tempo demais, sentiu um meio sorriso puxar o canto da própria boca — um que ela se recusou a deixar acontecer.

Ela não disse o que estava pensando: que sim, ele parecia um pouco acabado, mas daquele jeito que fazia as pessoas quererem fritar ovos para ele e perguntar se estava tudo bem. Porque isso teria cruzado uma linha. E Millie não borrava linhas — principalmente não por homens como ele. E aquilo era perigoso. Aquele tipo de pensamento. Porque podia levar para algum lugar macio. E suavidade nunca era segura com um homem daquele tipo.

Então o silêncio se instalou entre os dois. Ela esperou. Aí — quase imperceptivelmente — a expressão dele mudou.

Merda.

Ele soltou o ar. Não só um respiro. Um suspiro.

— Tá, tá, beleza — ele murmurou, se arrastando até um canto com um bar montado que ela nem tinha notado antes. Os olhos dela se arregalaram quando ele puxou uma garrafa de rum. Às… sei lá… 10h12 da manhã? Café da manhã dos campeões.

— Mudou de ideia sobre o sono de beleza? — ela perguntou, tentando soar mais divertida do que alarmada.

Ele torceu a tampa. — Um pouco tarde pra isso, não acha? — disse, e então fez aquilo: deu dois goles enormes, direto da garrafa. Sem nada para acompanhar. Sem instinto de autopreservação.

As sobrancelhas de Millie quase saltaram do rosto.

Aquilo não fazia parte da descrição do trabalho. Limpar coberturas? Sim. Polir bancadas de mármore enquanto assistia a um homem despencar num abismo líquido? Nem tanto.

— Hum, eu acho que… — Millie começou. Ela estava tentando fazer aquilo dar certo — sair com elegância, com um fiapo do cronograma ainda de pé. — Talvez eu devesse voltar quando o senhor estiver… mais você mesmo, Sr. Moretti.

“Aidan”, ele corrigiu de novo e, dessa vez, o rum chegou a chacoalhar quando ele ergueu a garrafa, como se a própria bebida também estivesse bêbada. “E, sinceramente, você ficar talvez não seja uma ideia tão ruim.”

Ah. Ali estava. A virada. A mudança do anfitrião de ressaca para o milionário entediado que fazia tempo que não ouvia um não.

“Você quer que eu fique?” Millie piscou para ele, confusa. “Tá bom. Eu posso ficar. Você bebe aí enquanto eu limpo. E pode fingir que eu não estou aqui.”

Ela estava traçando uma linha na areia, mas ele já estava chutando aquilo como uma criança mimada na praia.

“Impossível”, disse Aidan, com aquele sorrisinho. “Eu mal consigo ignorar a sua presença.”

De novo aquilo. O brilho no olhar. Não o olhar apagado de um homem curando uma ressaca. Não — isso era interesse.

“Mudança de planos”, ele acrescentou. “Fica e me faz companhia. Cancele seus outros compromissos. Eu dobro, triplico — o que for preciso — o seu valor. Fica comigo enquanto eu termino essa garrafa. E quando eu estiver bêbado demais pra me importar, aí você começa a limpar.”

A mandíbula de Millie deu uma contraída. Ela estava se controlando, mas por pouco. O homem era irritante — rico, inconsequente e consciente demais do efeito que causava nas pessoas.

“Olha, senhor Moretti—”

“Aidan”, ele a lembrou de novo, sorrindo. “Pensa assim: você não iria querer que eu deixasse uma avaliação devastadora no site da sua agência, iria?”

Ah. Nossa.

Millie chegou a soltar uma risadinha de desdém. “Só... uau.” Cruzou os braços. “Olha, eu tenho um dia inteiro, e nele não está incluído cuidar de cliente de ressaca que usa avaliação ruim como ameaça.”

Havia calor no tom dela, sim. Mas por baixo? Ela estava irritada, não com medo. E isso? Isso a tornava perigosa de outro jeito. Porque gente como Millie nunca recuava com elegância.

A sobrancelha de Aidan arqueou, como se ele estivesse agradavelmente surpreso com a resistência. Como se não ouvisse um “não” de alguém que não estivesse tentando ir pra cama com ele havia anos.

“Ameaça? Jamais”, ele disse, tão falsamente inocente que poderia ter sido charmoso se não estivesse encharcado de ego. “Mas um homem da minha… estatura” — ele deixou a palavra no ar, inflada de presunção — “certamente pode tornar a vida inconveniente para a sua agência.”

Os olhos de Millie se estreitaram.

“Você fica”, Aidan acrescentou, erguendo a garrafa, “e eu não destruo a reputação da sua agência com as minhas conexões chiques. Fechado?”

De novo aquilo. A ameaça velada, embrulhada num sorriso de bêbado e numa autoconfiança insolente.

Millie ficou parada, pesando as opções como alguém encarando um elevador quebrado e decidindo se pega as escadas. Era absurdo, sim. Beirava o antiético. E, ainda assim... o homem era como um acidente de carro feito de charme e trauma mal resolvido — você não queria olhar, mas alguma coisa em você precisava.

Ela soltou um suspiro. Um daqueles lentos, contrariados.

“Tá”, ela disse. “Eu fico até o meio-dia, e só. Triplica o meu valor normal, e você deixa uma avaliação brilhante de cinco estrelas, mencionando meu nome e dizendo que o serviço foi excepcional.”

Aidan se iluminou como uma criança a quem ofereceram sorvete antes do jantar. “Fechado!”, ele exclamou, batendo palmas uma vez, alto e eufórico — eufórico demais.

“Então… você tem nome?”

“Amelia Foster.”

“Venha, Amelia”, ele disse, com um gesto teatral na direção do sofá. “Vamos nos conhecer.”

Ela não se mexeu na hora. Só ficou ali, a bolsa ainda pendurada em um ombro, observando-o.

E, quando enfim deu um passo em direção ao sofá, um pensamento ficou quieto no fundo da mente dela: Com que diabos eu acabei de concordar?

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