Capítulo 1

Cheska

O grave das caixas de som bate na minha caixa torácica, fazendo o mundo inclinar só um pouco mais do que já está. Aperto as palmas das mãos contra as têmporas. Minha cabeça está pesada, e o salão começa a girar em círculos lentos e borrados.

O resto das líderes de torcida está agindo como uma matilha. Elas gritam, pulam e dão tapas nos meus braços toda vez que a garrafa de cerveja gira na mesa pegajosa e aponta o gargalo irregular bem para mim. De novo.

— Mais uma! — Jules berra, o rosto corado de vodca vagabunda e malícia. — Verdade ou desafio, Cheska?

— Verdade — murmuro, tentando manter o equilíbrio enquanto fico perfeitamente imóvel sentada. — Cansei dos desafios.

Jules se inclina, um brilho perverso nos olhos.

— Nada disso. Você já fez dez verdades hoje. Ou encara o desafio, ou paga as próximas três rodadas.

Gemo, olhando para a minha carteira vazia.

— Tá bom. O que é?

Jules não hesita. Aponta um dedo impecavelmente manicureado para a área VIP, longe das luzes de neon piscando.

— Tá vendo aquele cara? O que está sentado sozinho como se fosse o dono do lugar? Vai lá. Beija ele. E depois diz que ele beija mal.

Meu queixo cai. Eu encaro o homem. Ele está sentado nas sombras, usando uma camisa preta cara com as mangas dobradas até os cotovelos. Ele parece perigoso. Parece que vive em um mundo totalmente diferente deste clube suado e barulhento.

— Não — eu digo, mas minhas amigas já estão agarrando meus braços. Elas me puxam de pé, rindo e me empurrando em direção à entrada do VIP. — Gente, para! Eu não posso fazer isso!

— Vai, Cheska! Não seja covarde!

O álcool no meu sangue me dá um surto repentino e idiota de confiança. Eu me solto delas e aliso a saia. Passo a mão pelo cabelo e respiro fundo.

— Observem — eu sibilo.

Eu caminho até ele. Cada passo parece como se eu estivesse andando através de mel. Quanto mais me aproximo, mais o ar parece mudar. Fica mais frio, mais silencioso e muito mais intenso.

Ele está encarando a pista de dança, mas não está realmente vendo nada. Parece assombrado por alguma coisa. Parece quebrado.

— Oi — eu digo, parando bem na frente dele.

Ele levanta o olhar. Seus olhos são cor de mel, afiados, e tão intensos que quase esqueço como se respira. Ele não diz uma palavra. Só me encara como se eu fosse um enigma interessante que ele não tem vontade de resolver.

— Você está sozinho? — pergunto. Minha voz sai ofegante. — Você é solteiro?

Ele dá um gole lento na bebida, a garganta se movendo enquanto engole.

— Acho que sim — ele diz. A voz é grave. Um rosnado baixo que vibra no ar entre nós.

Não me dou tempo para pensar. Se eu pensar, eu fujo. Eu entro no espaço dele, apoiando os joelhos no banco e deslizando para o colo dele.

Ele congela. Eu sinto o músculo duro das coxas sob mim. Ele tem um cheiro incrível. Uma mistura de uísque caro, sândalo e algo limpo como chuva. Um aroma masculino e entorpecente que faz minha cabeça girar mais do que a cerveja fez.

— O que você quer? — ele pergunta. Ele não me empurra. A mão grande paira perto da minha cintura, sem me tocar de fato, mas eu sinto o calor irradiando da palma.

Eu me inclino até nossos narizes quase se encostarem. Vejo os pontinhos dourados nos olhos dele. Vejo a curva sutil da boca.

— Eu quero você — sussurro.

Eu fecho a distância e pressiono meus lábios nos dele.

No começo, ele é pedra. Não se mexe. Mas então a mão dele desliza firme para a minha lombar, me puxando de encontro ao peito. Ele solta um gemido fundo na garganta e começa a me beijar de volta.

Não é um beijo simples. É lento, possessivo, experiente. Ele tem gosto de fumaça e mel. Ele move a boca contra a minha com uma confiança que deixa meus joelhos fracos e meu coração martelando contra os dentes. Ele é melhor do que qualquer cara com quem eu já fiquei. Anos-luz melhor do que meu ex, Kier.

Eu começo a me perder. Começo a querer ficar aqui a noite toda.

Eu me forço a me afastar. Estou sem fôlego, o coração acelerado tão rápido que dói. Eu me atrapalho para sair do colo dele, o rosto em chamas. Olho para trás, para minhas amigas, que estão gritando e filmando com os celulares.

Volto a encarar ele e visto o melhor sorriso falso e debochado, embora meus lábios estejam formigando.

— Você não beija bem — digo. Minha voz falha só um pouquinho.

Ele não parece ofendido. Ele se recosta no banco, um sorriso lento e sombrio se abrindo no rosto. Solta uma risada baixa e seca que me manda um arrepio direto pela espinha.

— Tem certeza disso? — ele pergunta.

O olhar dele desce para a minha boca e depois volta para os meus olhos, me desafiando. Ele sabe que estou mentindo. Ele sabe exatamente o que acabou de fazer comigo.

Eu não aguento o jeito como ele está me olhando. Reviro os olhos, viro nos calcanhares e praticamente corro de volta para minhas amigas sem olhar para trás.

No instante em que volto para a mesa, a galera entra em combustão. Estão gritando, curvados de tanto rir, batendo na superfície com tanta força que as garrafas chacoalham. Jules está praticamente chorando, apontando para mim como se eu tivesse feito a façanha do século.

Eu não consigo acompanhar. Não consigo nem sorrir.

Tudo o que eu sinto é o fantasma persistente dos lábios dele nos meus. O calor ainda está ali, vibrando sob a minha pele. Os olhos dele ficaram queimados na minha mente, escuros e frios, como se enxergassem através de mim.

Meu celular vibra contra a madeira. Eu baixo o olhar e vejo o nome na tela. Kier.

Eu suspiro, com o coração dando um saltinho nervoso. “Gente, pera aí. Eu tenho que atender”, digo, abrindo caminho pela multidão em direção à saída do bar.

O ar fresco da noite bate no meu rosto, mas não faz muita coisa para diminuir o rubor nas minhas bochechas. Deslizo o dedo para atender.

“Oi, linda”, a voz do Kier é quente, tranquila. “Você ainda tá com as meninas? Eu tô aqui no bar do lado. Quer que eu passe aí pra te buscar e a gente fica por aqui?”

Olho de volta, através da porta de vidro, para as minhas amigas. Ainda estão fundo nos shots e completamente caóticas. Eu não quero ir pra casa ainda, e estar com o Kier parece o único jeito de lavar aquela tensão estranha que ficou por causa do desconhecido no camarote VIP.

“Tá”, eu digo, a voz um pouco trêmula. “Fica aí. Eu vou andando.”

Desligo e tento forçar um sorriso. Digo a mim mesma que o beijo foi só um desafio. Não significou nada.

E essa é a última coisa de que eu me lembro com clareza.

Quando meus olhos se abrem de supetão, eu me sento na cama num pulo. Minha cabeça lateja com uma dor surda e ritmada. Este não é o meu quarto. A cama é enorme, os lençóis são brancos e impecáveis, e o ar cheira a hotel caro.

Então eu vejo ele. Kier está deitado bem ao meu lado, dormindo profundamente.

O pânico me invade quando eu percebo que estou nua. Completamente sem nada debaixo do edredom pesado.

Eu paro de respirar por um segundo. Minhas mãos ficam geladas enquanto tento remontar a noite. Eu me lembro do bar. Eu me lembro do álcool e das risadas. Eu me lembro de encostar no peito do Kier e de como as mãos dele pareciam na minha cintura. Mas depois disso? Nada.

“Será que a gente...?”, eu sussurro para mim mesma. Meu coração martela contra as costelas.

Aperto os cobertores com mais força contra o peito, sentindo uma onda de calor subir pelo meu pescoço. Olho para o rosto tranquilo do Kier. Eu quero acordá-lo e exigir respostas, mas estou apavorada com o que ele pode dizer.

De repente, meu celular no criado-mudo começa a vibrar como louco. Eu o pego antes que acorde o Kier. É o meu irmão, Calix.

Atendo, com a voz tremendo. “Calix?”

“Cheska! Onde diabos você está?”, a voz do Calix é um rugido de pura preocupação e raiva. “Você não voltou pra casa ontem à noite!”

“Calix, eu... eu só...”, eu me atrapalho nas palavras, com o cérebro parecendo cheio de algodão.

Kier se mexe ao meu lado. Esfrega os olhos, piscando para o teto. “Argh”, ele resmunga, com a voz carregada de sono. “Dá pra vocês pararem de brigar? Tá cedo demais pra isso.” Ele puxa um travesseiro por cima do rosto para bloquear a luz.

O sangue some do meu rosto.

“Cheska!”, Calix grita do outro lado da linha, o tom ficando cortante. “Quem foi esse? Quem é esse homem? Me diz agora onde você tá. Eu vou aí te buscar.”

O pânico toma conta. Eu não dou chance de ele dizer mais uma palavra. Aperto o botão de encerrar e saio da cama às pressas. Pego minhas roupas do chão, tremendo enquanto as visto. Eu tenho que sair daqui. Agora.

Eu escapo do quarto e desço as escadas correndo.

Meu coração bate tão alto que tenho certeza de que todo mundo na casa consegue ouvir. Chego ao último degrau e congelo.

Tem um homem na sala.

Ele está sentado num sofá de couro elegante, com uma calma perfeita. Segura uma xícara de café em uma mão e um jornal na outra. Veste uma camiseta preta simples que estica sobre os ombros largos. O ar ao redor dele parece pesado, imóvel, dominante.

Devagar, ele abaixa o jornal.

Olhos cor de avelã.

Um olhar frio, indecifrável.

Eu paro de respirar. Meu estômago despenca até os pés. É ele. O homem do bar. O desconhecido que eu beijei na frente de todo mundo.

“O-o que você tá fazendo aqui?”, gaguejo. Minha voz sai quase como um sussurro.

Ele não responde. Só me encara, o olhar deslizando devagar do meu cabelo bagunçado até as minhas roupas amassadas. Ele está me dissecando sem dizer uma palavra.

Antes que eu consiga me mexer, ouço passos na escada atrás de mim. Kier desce, sem camisa, bocejando.

“Ah, pai”, diz Kier, num tom casual. “Não achei que você já ia ter voltado da província.”

O mundo para. Eu olho para o Kier, depois de volta para o homem no sofá.

“Pai?”, eu engasgo.

O homem que eu beijei ontem à noite — o homem que me fez esquecer meu próprio nome com um único toque — é o pai do meu caso.

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