Capítulo 3
Cheska
Passei o dia inteiro me escondendo. Fiquei enroscada nos lençóis, encarando o teto até os olhos arderem. Toda vez que eu os fechava, ele estava lá. Eu ainda conseguia sentir o calor fantasma dos lábios de Damian nos meus, provar o cheiro escuro e caro do hálito dele, e o choque aterrorizante de adrenalina quando Kier o chamou de pai.
A constatação era um peso no estômago. A gente morava a poucas quadras de distância. Num bairro tão pequeno, nossos caminhos inevitavelmente se cruzariam, ainda mais porque eu estava saindo com o enteado dele. Eu queria sumir, correr até esquecer como as mãos dele pareciam na minha cintura, mas não havia para onde ir.
Não dormi. Quando o sol começou a sangrar pelas cortinas, minha cabeça latejava. Pensei em faltar à aula, mas meu treinador tinha me mandado mensagem dizendo que minha vaga no time titular estava garantida apesar da matéria em que eu tinha reprovado. Eu precisava aparecer. Eu precisava ser a garota que todo mundo esperava que eu fosse.
Me arrastei para fora da cama, me sentindo uma casca oca. Me vesti depressa e saí de casa cedo, torcendo para que a névoa da manhã me protegesse de qualquer pessoa conhecida.
Então, o som de uma buzina cortou a rua silenciosa. Um carro vermelho e elegante encostou ao meu lado.
O vidro baixou, e meu coração parou.
Damian.
Uma corrente elétrica percorreu minha pele, me pregando ao asfalto. Minhas mãos começaram a tremer, então enfiei as duas nos bolsos. Ele se inclinou na direção do banco do passageiro, um sorrisinho cúmplice brincando nos lábios, como se conseguisse sentir o pânico saindo de mim em ondas.
— Bom dia — ele disse. A voz era macia, como um bourbon caro. Ele agia como se a gente não tivesse ficado colado um no outro num bar escuro quarenta e oito horas atrás. — Quer uma carona? Estou indo para esse lado.
Eu não encontrava minha voz. Eu sabia que devia dizer não, mas o ar entre nós parecia denso e magnético. Quando percebi, eu estava assentindo e entrando no carro antes que meu cérebro encontrasse um motivo para me impedir.
O interior do carro cheirava a ele — couro e alguma coisa picante. O silêncio era agoniante. Cada segundo parecia uma batida de coração socando na minha garganta. Depois de alguns minutos, ele quebrou a tensão sem tirar os olhos da estrada.
— Kier e eu conversamos sobre você ontem à noite — ele disse, casual. — Ele tinha bastante coisa para falar. Vocês dois estão saindo, não é?
Um arrepio gelado desceu pela minha espinha. Engoli em seco; de repente, minha boca estava seca. Ele tinha contado? Kier estava me esperando na escola para gritar comigo?
— É... é mais uma ficada por enquanto — gaguejei, odiando como minha voz soou pequena.
Damian apenas assentiu. O silêncio voltou, mas dessa vez parecia mais cortante. Eu me obriguei a olhar para ele, com o pulso disparado.
— Damian — comecei, a voz tremendo. — Sobre aquela noite. Eu não queria que acontecesse. Foi um desafio. Minhas amigas... eu não tinha muita escolha.
Ele diminuiu no sinal vermelho e virou para mim. O olhar dele era intenso, escuro, observador demais. Devagar, os lábios se curvaram num sorriso maldoso.
— Então... não é verdade que eu beijo mal?
Senti o sangue correr para o meu rosto.
— O quê? Eu— não— eu não—
Ele soltou uma risada baixa e profunda que vibrou no meu peito. — Estou brincando. Relaxa, Cheska. Você tá com cara de que vai se jogar pra fora do carro em movimento. Não se preocupa. Não tenho a menor intenção de contar pro Kier o que aconteceu.
Ele voltou a atenção para a estrada, o perfil marcado e absurdamente bonito. — É melhor a gente só esquecer. Agir como se nunca tivesse acontecido. E para de me chamar de “senhor” ou “Po”. Damian tá ótimo. Eu só tenho vinte e oito. Você tá me fazendo sentir um velho.
Eu congelei. Vinte e oito?
Kier tinha vinte e quatro. Só havia quatro anos entre eles. Minha mente disparou, tentando fazer as contas, tentando entender como ele podia ser o padrasto do Kier. Ele mal era mais velho que o meu namorado, e mesmo assim se portava com uma autoridade que fazia Kier parecer uma criança.
— Ah… tá — murmurei, com o rosto ainda pegando fogo. — Obrigada, Damian.
Eu me atrapalhei com o nome dele, a língua embolando. Levei a mão à nuca, esfregando, desejando que o chão se abrisse e me engolisse.
Ele riu de novo, um som cheio que parecia sugar o oxigênio de dentro do carro. — Você é péssima nisso, hein? — provocou, os olhos passando por mim com um lampejo de algo perigoso. — Mas pelo menos tá tentando.
Eu forço um sorriso, sentindo o nó pesado no meu peito afrouxar só um pouco. Respirar fica um pouco mais fácil. Minha cabeça ainda é um borrão de imagens dos últimos minutos. Continuo vendo o jeito como os lábios de Damian se curvaram quando ele me provocou e como a voz dele vibrou naquele espaço pequeno e caro do carro. É difícil encaixar na cabeça que ele só tem vinte e oito. Ele tem uma presença que faz parecer que é dono de qualquer lugar em que entra, um contraste gritante com a energia juvenil do Kier.
Um rosto conhecido na calçada me tira do transe. É a Kai. Ela está escorada num poste, tão caótica e pronta pra confusão como sempre. Kai é o tipo de amiga que começaria um motim por mim sem nem perguntar o motivo.
— Hmm… você pode me deixar aqui, Damian. Eu vou andando com a minha amiga — digo, a voz um pouco ofegante enquanto aponto para a Kai.
— Tem certeza? Sua escola fica a só alguns quarteirões — ele pergunta. Ele reduz a velocidade, a mão mudando de posição no câmbio. Eu reparo no jeito como os músculos do antebraço dele se retesam sob as mangas arregaçadas.
— Sim, tenho. É bem perto. Obrigada pela carona. — Dou um sorriso rápido e tenso.
Ele faz que sim com a cabeça, os olhos escuros demorando nos meus por um segundo a mais do que deveriam antes de se afastar. — Tá. Se cuida, Cheska.
Eu fico na calçada e vejo o carro vermelho desaparecer na esquina. A Kai já está praticamente grudada em mim, os olhos arregalados e um sorrisão enorme e malicioso estampado no rosto.
— Caralho, Cheska. Quem era aquele? Ele é lindo demais — ela guincha, me cutucando com força. — Por favor, me diz que você tá pegando ele enquanto namora o Kier. Aquele homem é literalmente um deus.
Eu solto um suspiro longo, exausto, e começo a andar em direção aos portões do campus. — Kai, para. É uma história longa e eu não tô com vontade de contar ainda.
— Tá bom — ela diz, embora eu saiba que ela vai ficar cavando detalhes dentro de uma hora. O tom dela muda, ficando um pouco mais suave. — Enfim, o que aconteceu aquele dia? Você saiu da aula do senhor Serrano parecendo um fantasma. Eu fiquei realmente preocupada com você.
Gemei ao ouvir aquele nome. Sr. Serrano. O homem que, sozinho, acabou com o meu CR. “Aff, nem me lembra. Eu não suporto ele. Sinceramente, a única coisa que aprendi na aula dele foi como entregar um trabalho às 23h59 sem ter um ataque cardíaco.”
Nós duas caímos na gargalhada, daquele tipo alto e feio que faz as pessoas encararem. Eu me dobro de tanto rir, finalmente me sentindo eu mesma de novo, quando uma voz fria e cortante rasga o ar atrás de nós.
“É mesmo, Srta. Vega?”
A risada morre na minha garganta. Meu sangue vira gelo. Eu me viro devagar, rezando para que a terra se abra e me engula inteira.
Meu Deus, não. É o Sr. Serrano.
Kai morde o lábio para não desandar, mas eu fico paralisada. “B-bom dia, Sr. Serrano”, gaguejo. Meu coração martela nas costelas. “A gente... a gente não estava falando do senhor.”
Ele me lança um olhar que diz que sabe exatamente o quanto estou mentindo. Um sorriso pequeno e perigoso encosta nos lábios dele. Não é um sorriso amigável. É o tipo de sorriso que um predador dá à sua presa.
“Se tudo o que você aprendeu na minha aula foi como vencer um prazo”, ele diz, a voz baixa e assustadoramente calma, “então você com certeza merece estar sentada na minha primeira fileira de novo este ano, Srta. Vega.”
Ele não espera a minha resposta. Apenas se vira e vai embora, as costas retas, perfeitamente composto, enquanto eu fico ali, plantada, parecendo uma idiota.
“Cheska...”, Kai sussurra, finalmente deixando escapar uma risadinha abafada. “Fala sério, que timing horrível. Você basicamente invocou o diabo. Pelo jeito você vai ter um ano divertido com o Sr. Fera.”
Reviro os olhos e dou um empurrão nela, tentando ignorar como meu pulso ainda está disparado. “Cala a boca, Kai. Ele provavelmente vai me dar uma prova-surpresa só por eu respirar na direção dele.”
Vou direto para o ginásio, para o treino de cheerleading. Eu preciso me mexer. Preciso suar o estresse da manhã e esquecer os dois homens que, no momento, ocupam cada canto do meu cérebro. O ginásio está úmido e cheira a cera de piso e esforço.
No meio da nossa rotina, a técnica apita. “Meninas! Todo mundo aqui. Como hoje só temos as veteranas, eu tenho uma coisa para perguntar.”
Nós nos juntamos ao redor dela, pingando de suor e ofegantes. Limpo uma gota de suor da testa, sentindo a queimação familiar nos músculos.
“Como todas vocês sabem, a Cheska voltou para mais um ano com a gente”, diz a técnica, olhando para mim com um sorriso. “Quero colocar em votação. A gente mantém ela como capitã ou quer escolher alguém novo?”
Antes que eu sequer consiga processar a pergunta, a mão de Stephanie dispara para o alto.
“Técnica, você e a Cheska são o motivo de termos chegado aos nacionais no ano passado”, Stephanie diz, firme. “A gente quer que ela continue. Não tem mais ninguém que consiga liderar esse time como ela.”
O resto das meninas começa a vibrar, gritando e aplaudindo. O som ecoa no pé-direito alto do ginásio, me enchendo de um orgulho repentino e intenso.
A técnica faz um gesto para eu ficar ao lado dela. “Então é isso. Como todo mundo está de acordo, a Cheska vai ser a capitã de vocês este ano.”
O time explode de novo. Pela primeira vez em todo o dia, o peso sufocante no meu peito se desfaz. Eu ainda sou a garota que sabe liderar. Eu ainda sou a garota que vence. Mesmo que a minha vida pessoal esteja uma bagunça completa, pelo menos aqui, nesta academia, eu sei exatamente quem eu sou.
A treinadora ainda está falando, mas o ar na academia muda. Eu sinto antes de ver. É aquele arrepio na nuca quando alguém poderoso entra no ambiente. Olho para o fundo da quadra e vejo um homem parado perto das portas.
Ele parece alguém da administração, mas se move como se fosse dono do prédio. Está vestindo um terno impecável que se ajusta a um corpo tão alto e largo quanto o de Damian. Segura uma prancheta numa das mãos, mas é a presença dele que realmente chama atenção. Todas as garotas da equipe param de se mexer. Nós todas nos viramos, atraídas como mariposas pela chama.
Olho de novo, e o ar me falta. Ele tem cabelo preto como breu e olhos tão azuis que parecem lascas de gelo. É inegavelmente bonito, embora o rosto esteja rígido numa expressão dura e mandona que faz minha pele coçar.
Ele começa a caminhar na nossa direção. A academia fica em silêncio absoluto. Engulo em seco, o som alto nos meus próprios ouvidos, enquanto ele para diante do nosso grupo.
— Quem é a capitã? — ele pergunta.
A voz dele é fria. Corta o ar úmido. Trocamos olhares, o silêncio se esticando por alguns batimentos. Respiro fundo, endireito os ombros e levanto a mão.
— Eu. Sou Cheska Vega, a capitã — digo. Mantenho o queixo erguido, me recusando a deixar que ele veja meu estômago revirando.
— Entendo. — O olhar dele percorre a equipe antes de voltar para mim. A intensidade daquele olhar pesa como se fosse algo físico. — Quero que você discipline suas integrantes, capitã. Serem líderes de torcida desta universidade não dá a vocês o direito de serem desleixadas. Todas, sem exceção, estão de castigo. Entendeu?
Minhas mãos começam a tremer, mas o orgulho se acende antes que o medo consiga me dominar. Minha manhã já foi longa, e eu estou cansada de homens tentando me colocar no meu lugar.
— E quem exatamente é você — retruco, com a voz baixa e afiada de irritação — para ficar dizendo o que a gente tem que fazer?
Ele para. Inclina-se só um pouquinho, trazendo consigo o cheiro de colônia cara e autoridade. Olha diretamente nos meus olhos e, por um instante, eu me esqueço de como respirar.
— Eu sou Oliver Rivera. O novo reitor desta universidade — ele diz.
O sangue some do meu rosto. Sinto um frio literal me atravessar, transformando meu suor em gelo.
— Eu... me desculpe, senhor. Eu não sabia—
Começo a tropeçar nas palavras, minha confiança evaporando. Ele nem espera eu terminar. Só gira nos calcanhares e vai embora, o passo controlado e indiferente. Me deixa ali, com a boca entreaberta, me sentindo uma idiota.
A treinadora corre até mim, o rosto uma máscara de choque e preocupação. Ela diz alguma coisa, mas a voz dela vira apenas ruído. Minha cabeça gira. Eu já estou do lado ruim do homem que segura todo o meu futuro acadêmico nas mãos.
Encaro as portas por onde ele sumiu. Primeiro Damian, depois o Sr. Serrano, e agora Oliver Rivera. Parece que a lista de homens prontos para transformar minha vida num inferno só aumenta.
