Capítulo 1
Ponto de vista de Sera
Minha filha estava morta havia exatamente sete dias.
Neste mundo, a morte geralmente vem acompanhada de algum tipo de ritual — um sino dobrando, um elogio fúnebre ou, no mínimo, uma lápide não maior que uma unha, gravada com um nome.
Mas minha filha morta não tinha nada.
O motivo era simples: ela não era um membro oficial da Alcateia Lua de Ferro. Era apenas uma filhote "vira-lata", um fardo que só sobreviveu agarrada à minha existência.
Agarrei com força a pequena urna branca de cerâmica em minhas mãos, algo que consegui em troca com as poucas economias que ainda me restavam numa loja de variedades humana fora da cidade.
O toque frio da cerâmica penetrou pela minha palma e entrou na minha corrente sanguínea, exatamente como a mão de Lily esfriando e enrijecendo aos poucos naquele momento final.
A três quilômetros dali, a propriedade da Alcateia Lua de Ferro brilhava em meio às luzes.
O som distante de uma sinfonia chegava com o vento noturno até esta floresta escura, mortalmente silenciosa. Era a cerimônia de coroação da Luna de Alpha Caden Thorne e sua nova Luna — Elena Caldwell.
Que ironia — no exato momento em que nossa filha deu seu último suspiro, o pai da criança recebia sua nova Luna neste território.
As botas nos meus pés já estavam gastas até a sola. A cada passo, o cascalho cravava dolorosamente na planta dos meus pés.
Mas eu não ousava parar. Tinha medo de que, se parasse, aquelas lembranças me afogassem como uma maré.
Meu pai não era um membro original da alcateia. Ele era um lobo rogue que havia sido acolhido pelo velho Alpha Victor Thorne quinze anos atrás.
Ele carregava a linhagem de Beta e era reconhecido como um dos maiores guerreiros de sua geração.
Anos atrás, quando o velho Alpha foi emboscado e encurralado numa situação desesperadora, foi meu pai quem resistiu com carne e sangue até o último instante, trocando a própria vida para arrancar o velho patriarca das portas da morte.
Antes de morrer, meu pai me confiou a Caden, que ainda era apenas um garoto na época, bem diante do velho Alpha Victor.
Caden se ajoelhou ao lado do leito ensopado de sangue do meu pai, segurou minha mão e jurou: "Sera, enquanto eu viver, a Alcateia Lua de Ferro será o seu lar."
Naquela época, eu ingenuamente acreditei que ele realmente me protegeria por toda a vida por causa daquele juramento. Então eu os segui de volta para a alcateia.
Na Alcateia Lua de Ferro, a cerimônia de maioridade de um lobisomem era sagrada.
Normalmente, as crianças da alcateia passavam pelo primeiro despertar aos treze anos, o que significava que em breve aprenderiam a se transformar, teriam uma força tremenda e habilidades de cura, e se tornariam oficialmente membros da alcateia.
Naquele ano, Caden despertou sem qualquer problema.
Uma luz dourada o envolveu enquanto um enorme lobo prateado-acinzentado erguia a cabeça e uivava para o céu — aquela era a suprema linhagem Alpha, majestosa e dominadora, destinada a governar tudo.
A alcateia inteira vibrou, e o velho Alpha Victor ficou tão comovido que lágrimas escorreram por seu rosto enquanto chamava Caden de "o rei mais forte que a Alcateia Lua de Ferro viu em cem anos".
E eu assistia lá de baixo do palco.
Embora eu ainda não tivesse despertado, ingenuamente pensei que isso não importava.
Porque Caden havia prometido me proteger.
Mas meus treze anos vieram e passaram sem sinal algum.
Quatorze, quinze... Um por um, todos os meus colegas conseguiam se transformar em lobos, correndo e caçando sob o luar. Só eu continuava presa a um invólucro mortal.
Até que completei dezoito anos, quando veio o julgamento final.
Naquela cerimônia tardia, fiquei diante da multidão, rezando e gritando, mas dentro do meu corpo só havia um silêncio morto.
Nenhuma luz brilhante de transformação, nenhuma dor lancinante dos ossos se rearranjando, nenhuma resposta de um espírito lupino.
O ancião que presidia a cerimônia balançou a cabeça e carimbou friamente um selo preto no registro — "Sem Lobo".
No dicionário dos lobisomens, Sem Lobo era o status mais baixo de mercadoria defeituosa, lixo que não servia nem para bucha de canhão.
A partir daquele dia, o mundo mudou.
Aqueles que antes me chamavam educadamente de "Senhorita Sera" mudaram instantaneamente o olhar que lançavam para mim.
"Tsc, então ela é Sem Lobo. Que azar."
"Ela acha que o Alpha se importaria com uma Sem Lobo? Que piada."
"Fiquem longe dela. Sem Lobo espalha azar."
Aqueles sussurros cruéis zumbiam ao meu redor como moscas. No campo de treino, lobos jovens que eu já tinha orientado ousavam mostrar os dentes para mim. No refeitório, a mulher que servia comida fazia questão de jogar carne estragada no meu prato, resmungando: “Sem lobo não merece comida fresca mesmo”.
Corri, chorando, até Caden para desabafar.
A essa altura, ele já tinha sido erguido às nuvens pela adulação de todos. Vestia equipamento de combate preto e era tão bonito que doía encarar.
— Caden, eles estão me humilhando... Estão me chamando de inútil... — agarrei a manga dele como se fosse minha última tábua de salvação.
Caden parou de andar e olhou para baixo, para mim.
A ternura tinha sumido dos olhos dele, substituída por uma frieza complexa, avaliadora.
— Sera — ele puxou a mão de volta, a voz cruelmente serena —, a matilha reverencia a força. Ser Sem Lobo... realmente torna difícil ganhar respeito na matilha.
— Mas você disse que ia me proteger! Você jurou sobre o cadáver do meu pai...
— Isso foi antes. — Caden me cortou. Virou o rosto, já sem me olhar. — Agora, eu sou o futuro Alfa. O que eu preciso proteger é a minha matilha inteira, não um fardo.
Naquele instante, fiquei paralisada, como se tivesse sido lançada num abismo de gelo.
Então era isso: juramentos eram frágeis demais diante da hierarquia do sangue.
A partir daquele dia, outras lobas começaram a aparecer ao redor de Caden. Eram fortes, lindas e, o mais importante, tinham seus próprios espíritos de lobo. Me olhavam com provocação nos olhos. E eu só conseguia me esconder nos cantos, como um rato atravessando a rua, lambendo a marca vergonhosa de “Sem Lobo”.
Se não fosse a culpa que Victor ainda carregava por causa do meu pai, eu provavelmente já teria sido expulsa da matilha fazia muito tempo, largada para me virar sozinha.
Mas eu ainda não desistiria.
Eu me recusava a acreditar que a Deusa da Lua tinha me abandonado por completo, ou que Caden seria mesmo tão sem coração comigo.
Por isso, em toda noite de lua cheia, quando os lobisomens da matilha corriam sob a lua, eu escapava em segredo até a fonte sagrada, no fundo da floresta.
Aquele era um território proibido da matilha, onde quase ninguém se aproximava.
Eu me ajoelhava nas pedras geladas, rezando de novo e de novo.
“Por favor, me dê força, deixe que eu desperte meu espírito de lobo, deixe que eu seja digna de ficar ao lado dele...”
Era uma lua cheia incomumente brilhante.
A luz prateada descia como mercúrio, e o ar da floresta estava anormalmente abafado.
Como sempre, eu estava ajoelhada à beira da fonte sagrada quando, de repente, uma aura de Alfa, intensa e sufocante, pressionou o vento.
Ergui o olhar, apavorada, e vi Caden.
Ele estava meio ajoelhado no chão, as mãos arranhando a terra com desespero, o uniforme de combate preto encharcado de suor.
Os olhos dele brilhavam num vermelho carmesim anormal, e rosnados contidos vibravam na garganta.
Era “frenesi da lua” — Alfas poderosos entravam numa fúria violenta durante a lua cheia por causa do excesso de energia no corpo e, sem o consolo de uma companheira, enlouqueciam de dor.
— Caden? — chamei, hesitante, tentando recuar, mas o olhar dele se fixou em mim de repente e me pregou no lugar.
No segundo seguinte, o mundo girou.
Ele se atirou sobre mim como uma fera fora de controle, o peito escaldante pressionando com força o meu, e aquele cheiro dominador de cedro me engolindo num instante.
— Me ajuda... — A voz dele estava rouca, entrecortada por suspiros de dor; os dedos apertaram meu pulso com uma brutalidade quase cruel.
Naquele momento, eu devia ter corrido.
Mas eu senti o tremor no fundo da alma dele — meu Alfa me desejava.
Tomada por algum impulso, eu não o empurrei. Em vez disso, tremendo, estendi a mão e enrosquei os braços no pescoço em chamas dele.
No instante em que nossa pele se tocou, um milagre aconteceu.
Embora eu não conseguisse me transformar em loba, no meu mar mental uma luz prateada, fraca, porém pura, se acendeu de repente.
Era a ressonância de “companheiros predestinados”!
A Deusa da Lua não tinha me abandonado! Eu era a Companheira dele!
Naquela noite, o luar foi selvagem e delirante.
Nós nos enroscamos na grama ao lado da fonte sagrada, suor e lágrimas se misturando.
Eu senti o tremor da minha alma sendo preenchida — era “nosso vínculo de companheiros”.
Eu chorei no ouvido dele:
— Caden, nós nos vinculamos... Eu sou sua Companheira...
Ele me apertou forte no delírio, mas o nome que ele chamou era o de outra pessoa.
— Elena.
