Capítulo 7
Ponto de vista de Sera
Eu não esperava que ele mostrasse misericórdia naquele momento, mas, antes que pudesse tomar uma decisão, Vera se apressou e se adiantou. Depois de cair nas graças de Elena, seu status tinha disparado. Ela não só escapara de críticas por ser minha guardiã, como também tinha se tornado confidente de Luna.
— Sera, você já não teve o bastante da sua loucura?
Vera ficou de mãos na cintura, com a voz estridente, cortante.
— Você acha que vai sobreviver saindo da alcateia? Acorda! Um lixo inútil como você, sem espírito de lobo… sem a proteção do clã, você não dura três dias lá fora! Vai ser estraçalhada por outras alcateias, capturada por caçadores e esfolada viva, e vai morrer ainda mais miseravelmente do que aquele cachorro vira-lata!
Ela fez uma pausa, vestindo uma expressão de “preocupação com você”, e continuou, com uma seriedade debochada:
— Afinal, eu vi você crescer. Me escute… não seja tola. Fique aqui, admita sua culpa com honestidade e se redima diante do Alfa e da Luna. Desde que você seja obediente, mesmo que vire uma escrava, pelo menos vai ter comida e vai preservar a própria vida. Vagando lá fora, você só vai encontrar a morte. Só ficando no clã você tem alguma chance de sobreviver!
O lugar inteiro mergulhou num silêncio sepulcral.
Eu olhei para o rosto dela, vermelho de excitação, e, de repente, aquilo me pareceu completamente risível.
Um dia, eu achei que ela era a pessoa mais próxima de mim. Por um tempo, eu até a considerei como minha mãe. Eu colhia orvalho fresco para ela beber, só para agradá-la. Para elevar o status dela dentro do clã, eu me desdobrei para agradar Caden.
Mas agora eu finalmente entendia: ela era apenas a cadela mais completamente domesticada.
Eu puxei o canto da boca, deixando aparecer um sorriso frio, extremamente zombeteiro.
— Vera — eu a encarei, com a voz assustadoramente calma —, você sempre foi tão esperta… sempre tão boa em fazer contas a seu favor.
Vera achou que eu tinha acatado e seu rosto quase se iluminou de alegria.
— Mas — eu me virei bruscamente, e meu olhar cortou o rosto dela como uma lâmina — você sabe que, do jeito que está agora, abanando o rabo e implorando, você realmente parece um cachorro?
O rosto de Vera ficou instantaneamente de um azul-acinzentado.
— Você…
— Um cachorro que só abana o rabo para o dono — eu a interrompi, fria. — Seu dono manda morder alguém, você morde. Seu dono manda deitar, você deita. Acha que vai ganhar um osso só por ser obediente? Não. Aos olhos deles, você não vale nem como cachorro… você é só uma peça de xadrez que pode ser descartada a qualquer momento.
— Cala a boca, sua miserável ingrata! — Vera, atingida onde doía, tremia inteira de raiva e gritou, tentando avançar em cima de mim.
— Chega! — o ancião Victor bateu o cajado com impaciência, interrompendo aquela farsa.
Ele olhou para Vera com um traço de nojo nos olhos, como se estivesse vendo uma cadela louca latindo sem parar.
— Uma coisa de cada vez! — Victor disse, frio. — Caden, dê a ordem. Não deixe esse lixo e a mãe maluca dela fazerem todo mundo perder tempo.
Por fim, virou o rosto e disse, gelado, ao executor:
— Prossiga com a punição.
Naquele instante, o meu último fiapo de esperança se despedaçou.
No pilar ao lado da plataforma de execução, pendia um chicote grosso de couro, feito sob medida.
Não era um chicote comum, e sim um chicote de presas de lobo, encharcado em água salgada, com cada farpa brilhando sob uma luz fria.
De acordo com o costume, os condenados eram despidos. Afinal, escravos e traidores não tinham dignidade.
Mas quando o executor se preparou para arrancar minhas roupas, Caden se levantou de repente e virou as costas para ir embora.
— Deixem que ela receba a punição vestida. — De costas para nós, sua voz trazia uma irritação quase imperceptível.
O lugar inteiro explodiu em murmúrios.
Eu estava pronta para lutar desesperadamente, mas então vi o sorriso de Elena congelar em seu rosto. Ela encarou a figura de Caden se afastando, com o ciúme quase transbordando dos olhos. Agarrou a saia com tanta força que as unhas quase rasgaram a seda.
Uma sensação inexplicável de satisfação surgiu no meu peito. Ela provavelmente achou que Caden ainda se importava comigo e não queria que os outros vissem meu corpo.
Olhei de novo para a silhueta sombria de Caden e, de repente, senti uma onda de ironia nauseante.
Ele simplesmente achava que já era humilhante o bastante ter uma companheira predestinada sem loba. Ser despida e humilhada como uma escrava só faria com que ele perdesse ainda mais prestígio. Então gritei para as costas de Caden:
— O quê? O Alfa está com medo de passar vergonha? Com medo de que todos descubram que você escolheu como Luna uma mulher que envenenou a sua própria filha biológica, enquanto empurrava sua companheira predestinada e outra filha biológica para a morte?!
— Crack!
Antes que eu pudesse terminar, o chicote do carrasco atingiu meu rosto.
A dor aguda escureceu minha visão; metade do meu rosto inchou na mesma hora, e minha boca se encheu com o gosto de sangue.
— Como se atreve a caluniar a Luna? Batam nela! Batam nela até a morte! — rugiu o carrasco.
A primeira chicotada caiu.
— Crack!
A carne se rasgou.
A dor era indescritível, como se alguém estivesse arando minhas costas com uma barra de ferro em brasa.
Um.
Contei em silêncio na minha mente.
A segunda chicotada.
— Crack!
A dor ardente fez meu corpo inteiro se contorcer.
Mordi os dentes com força, recusando-me a soltar um grito.
Dois.
Os membros do clã ao redor aplaudiam e xingavam.
Vera estava na frente da multidão, com um sorriso satisfeito no rosto, gritando em alto e bom som:
— Muito bem! Matem essa vadia ingrata na surra!
Elena se aninhava ao lado de Caden, dando-lhe delicadamente um gole d’água, mas seu olhar cortava meu corpo como uma faca.
A terceira chicotada, a quarta chicotada...
Minhas costas já eram um amontoado de carne ensanguentada.
Cada golpe parecia arrancar minha dignidade.
Mas eu não chorei.
Mantive os olhos fixos no chão, deixando o sangue fresco pingar das pontas dos meus dedos.
Doía? Sim, mas essa dor mantinha minha mente lúcida.
Aquelas lembranças da ternura de Caden, aquelas fantasias sobre os juramentos ancestrais, aquelas imagens de Lily me chamando docemente de “mamãe” — tudo isso era arrancado à força a cada chicotada agonizante.
Eu já não era mais aquela Sera ingênua.
Eu era um espírito vingativo rastejando de volta do inferno.
Quando a contagem chegou a vinte, minha consciência já começava a se desfazer.
Mas ainda assim endireitei a coluna, como um prego cravado no pelourinho.
Observei Caden sentado na plataforma elevada, segurando uma taça de vinho, seu olhar observando tudo friamente, como se eu fosse realmente apenas uma escrava insignificante recebendo punição.
Mas eu sabia que ele não estava à vontade. Vi que ele não tinha tomado um único gole de vinho e quase estava esmagando a taça na mão.
Como meu companheiro predestinado, o instinto dele dizia para me proteger, para impedir tudo aquilo.
Mas ele sufocou o rugido da alma de lobo com uma força de vontade implacável. Escolheu Elena, escolheu aquela Luna perfeita, e me abandonou.
— Vinte e oito, vinte e nove, trinta.
Quando a última chicotada caiu, eu estava à beira da inconsciência.
Desabei como uma poça de lama, ofegando pesadamente, com sangue fresco escorrendo das minhas costas e tingindo de vermelho a poeira sob meus pés.
— Joguem-na de volta na cabana de madeira. Sem ordens, ela não deve sair de lá. — Caden se levantou, soltou essa ordem e se virou para ir embora.
Fui arrastada como lixo.
Mas, no último instante antes de perder a consciência, o canto da minha boca se curvou em um arco quase imperceptível.
Só esperem.
Essa dívida de sangue... vou fazer vocês pagarem dez vezes mais.
