Capítulo 3 O RETORNO
A vida tinha o péssimo hábito de me pregar peças quando eu menos esperava.
A maior delas foi me afastar do meu próprio comando.
Durante cinco anos, precisei assistir tudo de longe. Cinco anos preso, vivendo em um lugar onde ninguém era tratado como gente, onde o tempo parecia passar devagar de propósito e cada dia exigia uma dose absurda de paciência para não perder a cabeça.
Mas eu aguentei.
Não porque fosse fácil.
Aguentei porque sabia que, do lado de fora, havia pessoas cuidando do que era meu.
Meu comando estava em boas mãos. Eu sabia disso. Ainda assim, preocupação nunca deixou de existir.
Mesmo de longe, eu continuava dando ordens, recebendo informações e tentando acompanhar o que acontecia na comunidade. Só que não era a mesma coisa.
Nada substituía estar ali.
Sentir o movimento das ruas.
Ouvir as vozes conhecidas.
Saber quem estava chegando, quem estava saindo, quem precisava de ajuda e até quem estava aprontando alguma coisa.
Agora, depois de cinco anos, eu finalmente estava de volta.
E, pela primeira vez em muito tempo, tinha a sensação de que minha vida estava começando outra vez.
Talvez eu tivesse mudado.
Com certeza tinha amadurecido.
Só não fazia ideia do quanto o destino ainda pretendia bagunçar meus planos.
TK — Narrando
Puta merda.
Como era bom estar de volta.
Parei por alguns segundos diante da entrada da comunidade, observando tudo ao meu redor.
Cinco anos.
Cinco anos longe daquele lugar.
Cinco anos vendo minha comunidade apenas através de notícias, telefonemas e informações que chegavam até mim.
Agora eu estava ali.
Respirei fundo.
— Finalmente em casa.
Um sorriso escapou do meu rosto.
Minha ficha estava limpa. Eu tinha cumprido o que precisava cumprir e, apesar de tudo o que passei, não deixaria aqueles anos definirem quem eu era.
Eu tinha sobrevivido.
E agora queria recuperar o tempo perdido.
Mal tive tempo de continuar pensando quando ouvi uma voz conhecida atrás de mim.
— Fala, aí, irmão!
Virei o rosto e abri um sorriso.
PH vinha na minha direção com aquele mesmo jeito de sempre.
— Lili canto, mané! Tá na área!
Ri e abracei meu parceiro.
— Caralho, PH. Que saudade desses arrombados!
— Também senti tua falta, seu filho da mãe.
Nos afastamos e ele me analisou dos pés à cabeça.
— Mudou pra caramba, hein?
— Cinco anos preso naquela merda fazem isso com qualquer um.
— Mas tá inteiro.
— Inteiro e com fome.
Ele começou a rir.
— Isso eu acredito.
Olhei ao redor mais uma vez.
— E aí? Como estão as coisas?
PH cruzou os braços, assumindo imediatamente aquela postura de quem estava prestes a apresentar um relatório.
— Aqui não tem bagunça. Está tudo no esquema. A gente está faturando bem pra caramba.
Assenti, satisfeito.
— Do jeito que o pai gosta.
— Exatamente.
Antes que pudéssemos continuar, outra voz conhecida surgiu.
— Fala, irmão!
PC apareceu sorrindo.
O cumprimento veio acompanhado de um abraço apertado.
Aquele moleque tinha crescido.
Na verdade, eu ainda tinha dificuldade de enxergá-lo como o homem que estava diante de mim. Para mim, continuava sendo quase meu caçula.
— Olha só quem resolveu aparecer — falei.
— Demorou, hein?
— Eu estava ocupado.
— Ocupado uma ova. Estava preso.
PH caiu na gargalhada.
— Esse cara não perdoa.
Balancei a cabeça, rindo.
— E vocês continuam os mesmos cornos de sempre.
— Algumas coisas nunca mudam — PC respondeu.
Ficamos alguns minutos conversando sobre a comunidade, o movimento e tudo o que havia acontecido durante minha ausência.
Era estranho perceber quanto coisa tinha mudado e, ao mesmo tempo, como algumas coisas permaneciam exatamente iguais.
— Bora lá pro seu Zé — PC sugeriu. — As meninas já estão lá.
Ergui uma sobrancelha.
— Que meninas?
PH soltou uma risada.
— As nossas fiéis.
— Sua irmã e a namorada dela — PC completou.
— Ah...
Comecei a caminhar com eles.
— E quem mais?
PC trocou um olhar rápido com PH antes de responder.
— A Nat.
Parei por um instante.
— Quem é Nat?
— A neta do seu Zé.
— E?
— Médica do postinho.
Arqueei uma sobrancelha.
— Médica?
— É. Ela e as meninas trabalham juntas. São praticamente os terrores da comunidade.
PH riu.
— E têm mais respeito aqui do que muito homem que se acha dono do mundo.
— Isso eu quero ver.
— Vai ver.
Continuamos andando.
PC parecia animado.
— A Natália é gente boa. As três ajudam demais a comunidade. Quando aparece algum problema, elas estão sempre dispostas.
PH concordou.
— Já vi essas mulheres virarem plantão de três dias praticamente sem dormir quando teve confronto. Principalmente a Natália.
— Três dias?
— Pois é.
Soltei uma risada.
— Aí vocês estão apaixonados.
— Sai fora! — PH respondeu imediatamente.
— Eu sabia.
— Não viaja.
— Estou apenas constatando os fatos.
Os dois começaram a discutir enquanto caminhávamos, e eu apenas ria.
Aquela sensação de estar novamente no meio deles era boa.
Muito boa.
Eu tinha sentido falta disso.
Da zoeira.
Dos problemas.
Das conversas sem sentido.
Até das discussões idiotas.
Quando chegamos perto do bar do seu Zé, ouvi risadas vindas de dentro.
Parei por alguns segundos.
As vozes femininas se misturavam, acompanhadas de gargalhadas que deixavam o ambiente leve.
Entrei logo atrás dos dois.
Foi aí que meus olhos percorreram o grupo.
E, por alguns segundos, esqueci completamente o que estava fazendo.
Caralho.
Havia várias mulheres ali.
Todas bonitas.
Mas uma delas...
Meu olhar parou nela.
Não soube explicar exatamente o motivo.
Talvez fosse o sorriso.
Talvez a maneira tranquila como conversava.
Ou simplesmente o fato de que, mesmo sem fazer absolutamente nada para chamar atenção, ela havia conseguido chamar a minha.
— Ei — PH falou ao meu lado.
Não respondi.
— TK.
— Hã?
Ele riu.
— Voltou há cinco minutos e já está viajando.
— Cala a boca.
— Gostou de alguém?
— Nem sei quem é.
— Ainda.
Revirei os olhos.
— Quem é aquela?
PH acompanhou meu olhar.
— Ah.
O sorriso dele aumentou.
— Essa é Alicia, minha fiel.
A mulher percebeu que estávamos olhando e se aproximou.
— Então você é o famoso TK?
— Depende do que falaram de mim.
Ela estendeu a mão.
— Só coisas ruins.
Soltei uma risada e fiz um toque com ela.
— Então já gostei de você.
Alicia riu.
— Dizem que você é convencido.
— Dizem muitas coisas.
Ela me analisou por alguns segundos.
— E você continua com essa cara de poucos amigos?
— É meu charme.
— Coitado.
PH gargalhou.
— Eu avisei.
Alicia tinha um jeito engraçado. Vestia-se bem, tinha postura de patricinha, mas falava como alguém que tinha nascido e crescido ali.
Gostei dela imediatamente.
PC então apontou para outra mulher.
— Essa é a Júlia.
Cumprimentei-a também.
— Prazer.
— Prazer é meu.
Foi então que minha irmã apareceu.
— Fala, seu arrombado!
Virei imediatamente.
— Lívia!
Ela veio me abraçar e quase me derrubou.
— Caralho, você está vivo!
— Também senti saudade de você.
— Mentiroso.
— Senti, sim.
Ela se afastou e me olhou com os olhos brilhando.
— Você está diferente.
— Todo mundo está falando isso hoje.
— É porque está mesmo.
Então ela segurou a mão de uma mulher que estava ao lado dela.
— Essa é a Ana, minha namorada.
Olhei para as duas.
— Finalmente conheci a responsável por você estar impossível.
Ana riu.
— Então a culpa é minha?
— Provavelmente.
Lívia me deu um tapa no braço.
— Para de ser idiota.
— Estou brincando.
A conversa continuou por alguns minutos, até que Lívia olhou para o lado.
— Ah, e essa aqui é a Natália.
Foi como se todo o bar tivesse ficado silencioso por um segundo.
Meu olhar encontrou o dela.
Natália.
Então aquela era a médica.
A neta do seu Zé.
Ela sorriu.
Um sorriso simples.
Sem exagero.
Sem tentar impressionar ninguém.
Mas foi suficiente para provocar uma sensação estranha no meu peito.
Estendi a mão.
— Prazer.
— Prazer, TK.
A voz dela era tranquila.
Firme.
E havia alguma coisa naquele olhar que me deixou curioso.
Muito curioso.
— Então você é a médica do postinho?
— Sou.
— Ouvi dizer que você dá trabalho.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Quem disse?
Olhei para PH.
Ele imediatamente levantou as mãos.
— Eu não falei nada.
Natália riu.
— Então já começamos bem.
Sorri.
— Pelo jeito, sim.
Ficamos conversando.
Não sei exatamente quanto tempo passou.
Só sei que, pela primeira vez desde que havia chegado, deixei de pensar no comando, nos problemas, nos cinco anos perdidos e em tudo aquilo que precisava resolver.
Eu estava apenas ali.
Conversando com ela.
E isso, por algum motivo, parecia perigoso.
Natália falava com naturalidade. Não parecia impressionada comigo. Não fazia perguntas sobre os anos que passei longe. Não me tratava como alguém diferente dos outros.
E aquilo me chamou atenção.
Muito mais do que deveria.
Eu observava cada detalhe enquanto ela conversava com Lívia.
O jeito como sorria.
A forma como mexia nas mãos enquanto explicava alguma coisa.
A maneira como parecia completamente à vontade naquele ambiente.
Eu não conseguia parar de olhar.
Até que ela percebeu.
Nossos olhos se encontraram novamente.
Dessa vez, ela sorriu de canto.
— Está tudo bem?
— Está.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela inclinou a cabeça.
— Então por que está me olhando desse jeito?
Fiquei alguns segundos sem resposta.
Eu, que sempre tinha uma resposta para tudo, simplesmente não encontrei nenhuma.
PH, que estava perto, começou a rir.
— Ih...
— Cala a boca — murmurei.
Natália riu.
E naquele momento tive uma certeza que me incomodou mais do que deveria.
Eu tinha acabado de voltar para casa.
Tinha um comando para reorganizar.
Uma vida inteira para colocar novamente nos trilhos.
E, mesmo assim, a primeira coisa que realmente conseguiu prender minha atenção não foi o trabalho.
Foi uma médica.
Uma mulher que eu conhecia havia poucos minutos.
Uma mulher que, provavelmente, nem imaginava o quanto tinha conseguido mexer comigo apenas com um sorriso.
Desviei o olhar.
Era melhor não alimentar aquela curiosidade.
Eu ainda nem tinha recuperado o controle da minha própria vida.
Não precisava começar outra confusão.
Só que alguma coisa dentro de mim parecia discordar.
E, pela primeira vez em muito tempo, tive a estranha sensação de que voltar para casa talvez tivesse sido apenas o começo.
Não o fim.
E eu ainda não fazia ideia do que estava por vir.
