Capítulo 4 O Ciúme do Todo-Poderoso

Natália — Narrando

Finalmente era meu dia de folga.

E, pela primeira vez em sabe-se lá quanto tempo, eu não precisava acordar cedo, vestir o jaleco e correr para o posto de saúde.

Nada de plantões.

Nada de pacientes chegando ao mesmo tempo.

Nada de gente batendo na porta perguntando se eu poderia atender "só mais uma pessoa".

Hoje eu queria apenas descansar.

Eu e as meninas tínhamos combinado de aproveitar a folga juntas. O plano inicial era simples: sair, dançar um pouco, rir e esquecer por algumas horas que éramos as responsáveis por praticamente metade dos problemas de saúde daquela comunidade.

O único detalhe era que nossas vidas amorosas tinham se tornado uma espécie de reunião permanente de segurança.

Tudo porque os nossos queridos namorados eram ciumentos.

Muito ciumentos.

Então, em vez de irmos para uma pista de dança como pessoas normais, acabamos no bar do meu avô.

— Isso é muito injusto — reclamei, apoiando o queixo na mão.

Ana gargalhou.

— Injusto é meu namorado perguntar quem estava olhando para mim enquanto eu estava comprando pão.

— Ele perguntou mesmo?

— Perguntou.

Júlia quase engasgou de tanto rir.

— E você respondeu o quê?

— Que era o padeiro.

O bar inteiro explodiu em risadas.

— Coitado do padeiro — falei.

— Coitado de mim! — Ana respondeu. — Porque depois ele quis saber há quanto tempo eu conhecia o padeiro.

— Não acredito.

— Pois acredite.

Alicia balançou a cabeça.

— Vocês precisam parar de escolher homem ciumento.

Olhei para ela.

— Você fala isso como se tivesse escolhido um santo.

— O meu é apenas... intenso.

— Intenso?

Júlia soltou uma gargalhada.

— Ela chama ciúme de intensidade.

— E você chama o quê? — Alicia rebateu.

— Eu chamo de problema.

Voltamos a rir.

Era exatamente disso que eu precisava.

Algumas horas sem preocupações.

Sem passado.

Sem lembranças desagradáveis.

Sem pensar no que aconteceria amanhã.

Só nós quatro, conversando besteira no bar do meu avô.

Até que ouvimos algumas vozes se aproximando.

Olhei para a entrada.

Os meninos estavam chegando.

E, com eles, havia um homem que eu nunca tinha visto antes.

Meu sorriso desapareceu por um segundo.

Meu Deus.

Quem era aquele homem?

Ele tinha uma presença que fazia as pessoas perceberem sua chegada sem que ele precisasse fazer absolutamente nada.

Alto, postura séria, olhar firme.

E uma expressão que parecia dizer claramente:

"Não mexa comigo."

Confesso que senti um pequeno arrepio.

Não exatamente de medo.

Mas aquele tipo de cautela que surge quando você percebe que está diante de alguém que provavelmente não costuma ouvir muitos "nãos".

PH foi o primeiro a falar.

— Nat, esse aqui é o famoso TK.

Famoso?

Olhei novamente para ele.

Então aquele era o homem que tinha acabado de voltar para a comunidade depois de cinco anos.

O tal chefe.

O homem de quem os meninos estavam falando desde cedo.

— Prazer — falei educadamente.

Ele me encarou.

— Prazer.

Apenas isso.

Só que o problema não foi a resposta.

Foi o jeito como ele continuou me olhando depois dela.

Fiquei alguns segundos tentando ignorar.

Não consegui.

Olhei para Júlia.

Ela percebeu.

Claro que percebeu.

As meninas percebiam tudo.

Continuei conversando, mas sentia aquele olhar sobre mim.

Era estranho.

E, sinceramente?

Estava começando a me irritar.

Eu mal conhecia aquele homem.

Não sabia nada sobre ele.

E ele já estava me observando como se estivesse tentando descobrir alguma coisa.

Resolvi simplesmente ignorar.

Foi quando Júlia mudou completamente de assunto.

— Ué, Nat... você vai aceitar o convite para jantar com o Alan?

Revirei os olhos.

— Ju...

— O quê?

— Não começa.

Alan era enfermeiro no posto. Novato, gente boa e, admito, uma gracinha.

Ele havia me convidado para jantar.

Nada demais.

Era apenas um jantar.

Um convite.

Eu ainda nem tinha decidido se iria.

— Então você vai? — Alicia perguntou.

— Ah, não sei.

— Vai sim — Júlia insistiu.

— Gente, calma.

— Você precisa sair um pouco.

— Eu já estou saindo. Estou aqui.

— Isso não conta.

— Por quê?

— Porque você está sentada no bar do seu avô.

— E qual é o problema?

— Você sabe qual é.

Alicia começou a rir.

— Natália precisa de um namorado.

Olhei para ela, indignada.

— O quê?

— Você ouviu.

— Ué, gente! Não era só um jantar?

As três me encararam.

— Já pularam para a parte do namoro? Que isso?

— Estamos pensando no futuro — Alicia respondeu.

— Eu não autorizei esse planejamento.

Júlia começou a rir.

— Então você admite que existe possibilidade?

— Eu não admito nada.

Foi quando uma voz masculina atravessou a conversa.

— Não precisa pular para a parte do namoro.

O bar ficou em silêncio.

Virei o rosto lentamente.

TK estava nos observando.

Meu coração deu uma pequena acelerada.

Ele continuou:

— Já que nem encontro vai ter.

Arqueei uma sobrancelha.

— Como é?

Mas ele já estava se levantando.

Simplesmente se levantou e saiu.

Sem explicar.

Sem olhar para trás.

Eu fiquei parada, completamente sem entender.

Olhei para as meninas.

Depois para os meninos.

Depois para a porta por onde ele tinha acabado de desaparecer.

— O que foi isso?

Ninguém respondeu imediatamente.

Ana foi a primeira.

— É impressão minha...

Ela fez uma pausa dramática.

— ...ou o todo-poderoso ficou com ciúmes?

— Ciúmes? — perguntei, quase rindo. — De mim?

PC parecia tão confuso quanto eu.

— Tendi foi nada.

PH olhou para a porta.

— Que porra foi essa?

Alicia cruzou os braços, tentando segurar o sorriso.

— Eu não sei.

Depois pegou o copo e tomou um gole.

— Só sei que hoje eu vou dançar muito no baile.

PH imediatamente apontou para ela.

— Se controla, hein.

— Eu vou me controlar.

— Você nunca se controla.

— Hoje eu prometo.

As meninas começaram a rir novamente.

Mas eu ainda estava pensando no que tinha acabado de acontecer.

Ciúmes?

Não.

Impossível.

Eu nem conhecia aquele homem.

Talvez tivesse sido apenas uma coincidência.

Talvez ele estivesse brincando.

Talvez...

— Nat?

Olhei para Júlia.

— Hã?

— Você está pensando nele.

— Não estou.

— Está sim.

— Não estou!

Alicia sorriu.

— Está pensando tanto que até esqueceu do baile.

Droga.

Ela tinha razão.

Eu realmente tinha esquecido.

— É hoje?

As três me olharam como se eu tivesse acabado de cometer um crime.

— Você esqueceu? — Ana perguntou.

— Esqueci.

Júlia colocou as mãos na cabeça.

— Natália!

— O quê? Eu tive uma semana cansativa.

PH ouviu e entrou na conversa.

— É o baile em homenagem à volta do chefe.

Suspirei.

— Ah, ótimo.

— Não gostou?

— Não disse isso.

Na verdade, eu até gostava dos bailes.

O problema era saber que provavelmente metade da comunidade estaria lá.

E, depois daquele pequeno episódio com TK, eu não estava exatamente interessada em descobrir se ele apareceria.

— Vai ser bom — Alicia disse. — Música, comida, bebida e fofoca.

— Principalmente fofoca — Júlia completou.

Ri.

— Vocês não prestam.

— E você ama a gente.

— Infelizmente.

As meninas riram.

Mas, por mais que eu tentasse entrar novamente na conversa, uma pergunta continuava martelando na minha cabeça.

Por que TK tinha feito aquilo?

Ele mal me conhecia.

Não tinha motivo algum para se importar com quem eu iria jantar.

Muito menos para decidir, por conta própria, que o encontro não aconteceria.

Aquilo me incomodava.

E talvez fosse justamente isso que mais me deixava curiosa.

Eu não gostava de homens que achavam que podiam decidir as coisas por mim.

Muito menos homens que eu nem conhecia.

Então, se TK imaginava que aquele comentário faria alguma diferença nas minhas escolhas, estava muito enganado.

Ou pelo menos era o que eu queria acreditar.

Mais tarde, voltei para casa.

Tomei um banho demorado, escolhi a roupa que usaria no baile e me joguei na cama.

Eu precisava descansar.

Afinal, naquela noite eu pretendia dançar até não sentir mais os pés.

Fechei os olhos.

Por alguns segundos, tudo ficou tranquilo.

Até que, sem motivo nenhum, a imagem de TK voltou à minha cabeça.

Aquele olhar.

Aquela voz.

Aquela frase.

"Já que nem encontro vai ter."

Revirei os olhos sozinha.

— Convencido.

Virei para o outro lado.

Eu não fazia ideia de quem aquele homem pensava que era.

Mas uma coisa era certa.

Eu não permitiria que ele decidisse nada por mim.

Muito menos com quem eu iria jantar.

Sorri sozinha.

— Quero só ver a cara dele no baile.

Talvez fosse divertido provocar um pouquinho.

Só um pouquinho.

Afinal, ele tinha acabado de chegar.

E já estava conseguindo me tirar do sério.

Antes mesmo de qualquer coisa acontecer.

E eu ainda não sabia que aquela noite seria o começo de uma confusão muito maior do que um simples comentário sobre um jantar.

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