Capítulo 5 Uma Noite Fora de Controle

Natália — Narrando

Quando abri os olhos, a primeira coisa que fiz foi olhar para o celular.

23h45.

Fiquei alguns segundos encarando o horário, tentando entender como eu tinha conseguido dormir tanto.

— Não acredito nisso...

Hoje era minha folga.

Minha única oportunidade de esquecer o trabalho, o posto, os pacientes e todas as responsabilidades que pareciam me perseguir até nos meus sonhos.

E eu tinha dormido justamente na hora do baile.

Peguei o celular e encontrei uma quantidade absurda de mensagens.

Júlia.

Alicia.

Ana.

Olhei algumas sem coragem de abrir.

Provavelmente já estavam me xingando.

Sorri.

— Depois eu respondo.

Eu tinha passado dias dormindo pouco. Na última semana, o posto havia ficado lotado, tivemos situações complicadas e eu praticamente não conseguia parar para respirar.

Meu corpo estava cansado.

Eu sabia disso.

Mas, como toda pessoa teimosa que trabalha na área da saúde, aparentemente eu era ótima em cuidar dos outros e péssima em perceber meus próprios limites.

Levantei da cama.

— Hoje eu vou aproveitar.

Tomei um banho rápido, lavei o rosto e fiz uma maquiagem simples.

Nada exagerado.

Um pouco de corretivo, rímel, blush e gloss.

Pele de pêssego, meus amores. A gente não brinca com isso.

Escolhi uma roupa confortável.

Se eu fosse para um baile, queria poder dançar sem ficar puxando vestido, ajeitando blusa ou preocupada com qualquer coisa.

Peguei minha bolsa e saí.

Eu precisava me divertir.

Precisava rir.

Precisava lembrar que eu era mais do que a médica do posto.

Assim que cheguei à quadra, ouvi o som de longe.

O DJ estava tocando uma música que fazia o chão praticamente vibrar.

Senti meu humor melhorar imediatamente.

Era exatamente aquilo que eu precisava.

Passei pela entrada e fui direto para o bar.

— Uma vodka com energético, por favor.

O rapaz preparou a bebida e me entregou.

Peguei o copo e dei um gole.

Estava gelado.

Perfeito.

Olhei para o camarote e encontrei as meninas.

As três estavam juntas.

E, pela expressão delas, eu tinha certeza de que estavam muito irritadas comigo.

— Ih...

Alicia me viu.

Júlia também.

Ana cruzou os braços.

Levantei o copo e fiz um pequeno aceno.

Elas não responderam.

— Estão boladas.

Mas eu não estava nem um pouco preocupada.

Eu tinha chegado.

Era noite de festa.

Não pretendia começar minha folga ouvindo sermão.

Além disso, conhecia aquelas três.

Em cinco minutos estariam rindo de alguma coisa novamente.

Passei mais uma vez pelo bar e tomei outro gole da bebida.

Só então percebi que não tinha comido praticamente nada desde o almoço.

Meu estômago reclamou.

— Depois eu como alguma coisa.

Esse "depois" provavelmente seria um erro.

Mas naquele momento eu não queria pensar em nada.

Fui para a pista.

A música estava começando a ficar melhor e meu corpo entrou automaticamente no ritmo.

Dancei.

Ri.

Brinquei com algumas pessoas que conhecia.

Por alguns minutos, esqueci completamente do trabalho.

Até esqueci do homem que tinha passado o dia inteiro me irritando.

TK.

Só de lembrar dele, revirei os olhos.

— Convencido.

Continuei dançando.

Não estava ali para pensar naquele homem.

Estava ali para me divertir.

A música mudou.

O ritmo ficou mais animado.

Comecei a dançar com mais energia.

Uma roda começou a se formar ao meu redor.

Algumas pessoas começaram a incentivar.

Eu ri.

— Vocês não prestam!

Continuei.

Não tinha vergonha.

Nunca tive.

Se eu estava me divertindo, era isso que importava.

Só que, depois de alguns minutos, comecei a perceber que alguma coisa não estava certa.

Primeiro foi o calor.

A quadra estava cheia e o ar parecia pesado.

Depois veio uma sensação estranha na cabeça.

Parei por um segundo.

Respirei fundo.

Talvez fosse apenas cansaço.

Continuei.

Mais alguns passos.

Mais uma música.

Até que senti minhas pernas ficarem um pouco fracas.

— Caramba...

Coloquei uma mão na cintura.

Talvez eu realmente precisasse diminuir o ritmo.

Meu corpo estava me lembrando que eu não tinha descansado o suficiente.

E também não tinha comido.

Além disso, a bebida estava fazendo efeito mais rápido do que eu esperava.

Eu deveria ter parado.

Deveria ter tomado água.

Deveria ter sentado.

Mas não fiz nada disso.

Porque, naquele momento, alguém começou a puxar meu braço.

— Ei!

Virei.

Não consegui identificar quem era imediatamente.

A música estava alta demais.

— Me solta!

A pessoa me puxou para fora da roda.

— O que está acontecendo?

Meu coração acelerou.

Fui conduzida para longe da pista.

Quando percebi, estava sendo colocada dentro de um carro.

— Que isso?!

A porta fechou.

Olhei para o banco da frente.

Meu corpo inteiro gelou.

TK.

— Você?!

Ele estava sentado no banco do motorista.

A expressão dele era fechada.

Muito fechada.

— O que você está fazendo?

Ele ligou o carro.

— Me leva de volta.

Silêncio.

— TK!

Ele apertou o volante.

— Você acha que já se exibiu demais por uma noite?

Fiquei olhando para ele, sem acreditar.

— Como é?

— Você estava no meio daquela roda.

— Eu estava dançando.

— Eu vi.

— Então qual é o problema?

Ele virou o rosto para mim.

— Eu não gostei.

Soltei uma risada incrédula.

— Você não gostou?

— Não.

— E desde quando você decide o que eu posso ou não fazer?

— Não estou decidindo nada.

— Acabou de me tirar de uma festa!

Ele respirou fundo.

— Eu estava tentando evitar uma situação.

— Que situação?

— Homens olhando para você daquele jeito.

Pisquei algumas vezes.

— Isso é problema deles.

— Natália...

— Não. Escuta você mesmo.

Apontei para ele.

— Você me conhece há praticamente um dia.

— Eu sei.

— Então não tem direito nenhum de decidir por mim.

Ele ficou em silêncio.

Eu também.

Só que, naquele instante, percebi que minha cabeça estava ficando ainda mais pesada.

Encostei no banco.

Respirei fundo.

Minha visão começou a ficar estranha.

As luzes da rua pareciam mais fortes do que antes.

Piscaram algumas vezes diante dos meus olhos.

Levei a mão à testa.

— Você está bem? — TK perguntou.

— Estou.

Mentira.

Eu não estava.

Minha boca estava seca.

Meu coração parecia bater rápido demais.

E uma sensação de fraqueza percorreu meu corpo.

Eu tinha bebido sem comer.

Tinha dançado bastante.

Estava cansada.

E o calor da quadra provavelmente tinha piorado tudo.

— Acho que...

Minha voz falhou.

TK olhou para mim.

— O que foi?

— Estou meio tonta.

A irritação desapareceu imediatamente do rosto dele.

— Você comeu?

Fiquei quieta.

Ele entendeu.

— Natália.

— Não muito.

— Você não comeu?

— Eu almocei.

— Que horas?

Não respondi.

— Natália!

— No almoço!

Ele passou a mão pelo rosto.

— Você está maluca?

— Não precisa exagerar.

— Você está pálida.

— Eu estou bem.

Tentei me sentar melhor.

Foi quando uma onda de tontura tomou conta de mim.

Fechei os olhos.

— Para o carro.

— Já estou parando.

Ele reduziu a velocidade e encostou em um lugar seguro.

— Respira.

— Estou tentando.

Minha visão ficou ainda mais escura.

Eu conseguia ouvir a voz dele, mas parecia estar distante.

— Natália, olha para mim.

Tentei.

Não consegui manter os olhos abertos.

— Eu só preciso...

Minha frase morreu.

Tudo ficou silencioso.

TK — Narrando

— Natália!

Ela desabou contra o banco.

Meu coração parou.

— Porra!

Imediatamente me virei para ela.

— Natália, acorda.

Nada.

Toquei seu rosto.

Estava quente.

Mas ela não respondia.

Toda a raiva que eu tinha sentido minutos antes desapareceu.

Naquele instante, só existia medo.

Eu tinha visto gente passar por situações difíceis.

Já tinha enfrentado problemas que fariam qualquer pessoa perder o sono.

Mas vê-la desacordada daquele jeito me deixou completamente sem reação.

— Natália!

Peguei uma garrafa de água que estava no carro e tentei chamar sua atenção.

Nada.

Olhei para ela novamente.

Foi quando percebi.

Ela realmente estava exausta.

Não era apenas o que tinha acontecido naquela noite.

Provavelmente estava acumulando cansaço há dias.

E eu ainda tinha colocado mais pressão naquela situação.

— Droga...

Peguei o celular e pedi ajuda.

Não iria arriscar.

Enquanto esperava, fiquei ao lado dela, observando sua respiração.

Estava respirando.

Isso me deu um pouco de alívio.

Mas eu ainda estava assustado.

Muito mais do que gostaria de admitir.

Alguns minutos depois, ela começou a se mexer.

— Natália?

Seus olhos se abriram lentamente.

Ela parecia confusa.

— Onde eu estou?

— No carro.

Ela me encarou.

Depois olhou ao redor.

— Por que eu estou no seu carro?

Suspirei.

— Porque você desmaiou.

Ela levou a mão à cabeça.

— Eu desmaiei?

— Sim.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

— Isso é humilhante.

Quase ri.

Quase.

Mas a preocupação ainda estava ali.

— Você não comeu, estava cansada, bebeu e ficou dançando naquele calor.

Ela me olhou.

— Está me dando sermão?

— Estou.

— Você nem é médico.

— E você é.

Ela ficou quieta.

— Então deveria saber se cuidar.

Ela fez uma careta.

— Não precisa ficar se achando.

— Não estou me achando.

— Está sim.

Um pequeno sorriso apareceu no canto da minha boca.

Pelo menos ela estava reagindo.

Mas havia algo que eu não conseguia ignorar.

O medo que senti quando ela apagou.

A possibilidade de alguma coisa ter acontecido com ela tinha me deixado completamente fora de mim.

E aquilo não fazia sentido.

Eu conhecia Natália havia pouco tempo.

Muito pouco.

Ainda assim, naquele momento, descobri uma coisa que não queria descobrir tão cedo.

A ideia de alguma coisa acontecer com ela me assustava.

E isso era um problema.

Um problema enorme.

Porque eu ainda nem sabia o que aquela mulher estava fazendo dentro da minha cabeça.

E já estava começando a perceber que ela tinha conseguido algo que poucas pessoas haviam conseguido antes.

Me fazer perder o controle.

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