Capítulo 2 CONT ISABELLA
Capítulo 2 — Isabella
Se existe uma coisa que consigo lembrar com nitidez da minha infância, mesmo depois de tantos anos, é a voz da minha mãe.
Não importa quanto tempo passe. Não importa quantas mudanças a vida tenha colocado no meu caminho. Quando fecho os olhos, ainda consigo ouvi-la me chamando pelo nome, daquele jeito carinhoso que fazia parecer que o mundo inteiro estava seguro enquanto eu estivesse perto dela.
— Isabella, venha cá, minha menina.
Eu sempre ia.
Minha mãe tinha esse poder sobre mim. Bastava estender os braços e eu corria para o colo dela, sem medo de interromper o que estivesse fazendo. Ela podia estar lendo, organizando alguma coisa pela casa ou simplesmente tomando café perto da janela. Para mim, não fazia diferença. O colo dela era o meu lugar favorito.
Nossa casa ficava em uma parte tranquila de Milão, cercada por árvores e jardins bem cuidados. Eu era pequena demais para entender o tamanho da nossa família, dos negócios ou do patrimônio que um dia faria parte da minha vida. Naquela época, eu só sabia que existiam corredores enormes, quartos demais para uma criança contar e uma cozinha onde minha mãe sempre encontrava uma maneira de transformar qualquer dia comum em uma lembrança especial.
Ela não era uma mulher que precisava de luxo para ser feliz.
Gostava das coisas simples.
Flores frescas sobre a mesa. Música tocando enquanto cozinhava. Caminhadas sem destino. Livros antigos. Café depois do almoço. E, principalmente, tempo comigo.
Eu não entendia isso quando era criança, mas hoje sei que minha mãe fazia questão de estar presente.
Ela poderia ter contratado alguém para cuidar de mim o dia inteiro. Poderia ter passado as manhãs em compromissos, tardes em reuniões e noites em eventos. Mas, sempre que podia, escolhia ficar comigo.
Foi ela quem me ensinou a andar de bicicleta.
Lembro da primeira vez como se ainda estivesse naquele jardim.
Eu segurava o guidão com força, os dedos pequenos quase brancos de tanto apertar.
— Eu vou cair — avisei.
Minha mãe riu.
— Talvez.
Olhei para ela, indignada.
— Você deveria dizer que eu não vou cair.
— Eu poderia mentir para você.
— Então mente.
Ela se aproximou, ajeitou meu cabelo atrás da orelha e sorriu.
— Você pode cair, meu amor. Mas eu vou estar aqui para ajudar você a levantar.
Foi a primeira vez que entendi, mesmo sem saber explicar, que coragem não significava nunca sentir medo.
Significava continuar mesmo quando o medo aparecia.
Minha mãe soltou a bicicleta.
Eu pedalei.
Por alguns segundos, achei que estava voando.
Então caí.
Chorei mais pelo susto do que pela dor, e ela veio correndo até mim. Pegou meus joelhos ralados, soprou os pequenos machucados e me perguntou se eu queria desistir.
Eu disse que sim.
Ela sentou no chão ao meu lado.
— Tudo bem. Podemos tentar outro dia.
— Você não está brava?
— Nunca ficaria brava porque você caiu.
— Mas eu não consegui.
Minha mãe segurou meu rosto entre as mãos.
— Conseguiu, sim. Você tentou.
Naquele momento, aquelas palavras pareceram pequenas.
Hoje, sei o tamanho que tinham.
Minha mãe nunca mediu meu valor pelas vezes em que acertei.
Ela me ensinou que eu não precisava ser perfeita para ser amada.
Talvez tenha sido por isso que eu cresci tão ligada a ela.
Nós tínhamos nossos pequenos rituais.
Aos domingos, quando meus avós vinham almoçar, eu me sentava ao lado dela e roubava pedaços de sobremesa antes de todos terminarem a refeição. Ela fingia não perceber.
— Isabella, você viu quem pegou o último pedaço?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela olhava para mim e começava a rir.
Meus avós também.
Meu avô dizia que eu era uma péssima mentirosa.
Eu respondia que ainda estava aprendendo.
Minha avó então colocava outro pedaço no meu prato.
— Então continue treinando.
Era uma infância cheia de pequenas felicidades.
Eu tinha brinquedos espalhados pelo quarto, vestidos que minha mãe escolhia comigo, histórias antes de dormir e tardes em que simplesmente ficávamos juntas sem fazer nada importante.
Para mim, aquilo era a vida.
Eu não sabia que algumas pessoas cresciam sem receber abraços suficientes.
Não sabia que havia crianças que tinham medo dentro da própria casa.
Não sabia que existiam despedidas que chegavam cedo demais.
Minha mãe fazia questão de preservar minha inocência.
Quando eu perguntava por que ela precisava sair para algum compromisso, ela explicava.
Quando eu perguntava por que algumas pessoas tinham tanto dinheiro e outras não, ela não dizia que o mundo era justo. Dizia apenas que eu deveria aprender a enxergar as pessoas antes das coisas.
— Dinheiro pode comprar uma casa bonita — ela me dizia. — Mas não compra um coração em paz.
Eu guardava aquelas frases sem compreender completamente.
Ela também me ensinou a tratar todos com respeito.
Uma vez, durante um passeio, vi um funcionário carregando várias caixas e fiz uma brincadeira sobre ele estar trabalhando demais. Minha mãe parou imediatamente.
Não levantou a voz.
Apenas se ajoelhou diante de mim.
— Você sabe o nome dele?
Balancei a cabeça.
— Então primeiro conheça a pessoa. Depois pense no que está dizendo.
Fiquei envergonhada.
No dia seguinte, pedi desculpas.
Ela sorriu.
— É assim que aprendemos.
Minha mãe não queria criar uma menina rica.
Queria criar uma mulher boa.
E talvez essa tenha sido a maior herança que ela poderia ter deixado para mim.
Em algumas noites, antes de dormir, eu perguntava se ela ficaria comigo para sempre.
Ela sempre respondia da mesma maneira:
— Enquanto eu puder.
Eu fazia bico.
— Isso não é para sempre.
Ela me puxava para perto e beijava minha testa.
— Então vamos aproveitar cada dia.
Eu não gostava daquela resposta.
Queria uma promessa absoluta.
Queria ouvir que ela estaria comigo quando eu entrasse na escola, quando me formasse, quando me casasse, quando tivesse meus próprios filhos.
Na minha cabeça de criança, mães não iam embora.
Mães eram eternas.
Por isso, eu nunca imaginei que um dia aquele colo estaria vazio.
Antes disso acontecer, porém, ainda tivemos muitos dias.
Dias que hoje guardo como tesouros.
Minha mãe me levava ao hospital algumas vezes. Eu gostava de acompanhá-la pelos corredores e ficava fascinada com os médicos, enfermeiros e pacientes. Ainda não sabia que acabaria escolhendo aquela profissão.
Certa tarde, uma enfermeira me deu uma pequena touca descartável e disse que eu parecia uma médica.
Corri até minha mãe.
— Eu vou ser médica!
Ela abriu um sorriso enorme.
— Então você vai ser uma excelente médica.
— Como você sabe?
— Porque você já cuida das pessoas que ama.
Eu fiquei pensando naquilo.
Talvez meu destino tivesse começado ali.
Não nos grandes negócios da família.
Não no dinheiro.
Não no sobrenome.
Mas naquele corredor de hospital, segurando a mão da minha mãe e acreditando que cuidar de alguém era uma das formas mais bonitas de amar.
Minha infância não foi perfeita.
Nenhuma é.
Mas foi feliz.
E, quando penso naquela menina de cabelos soltos correndo pelos jardins, ainda sinto uma pontada no peito.
Ela não sabia que estava vivendo os melhores anos de sua vida.
Não sabia que um dia sentiria saudade até das coisas mais simples.
Não sabia que perderia a pessoa que fazia o mundo parecer seguro.
Ela só sabia amar a mãe.
E eu ainda sei.
Talvez algumas coisas nunca mudem.
O tempo levou minha infância.
Levou minha mãe.
Mas nunca conseguiu levar aquilo que ela deixou dentro de mim.
O amor.
A coragem.
E a certeza de que, mesmo quando a vida nos obriga a recomeçar, algumas pessoas continuam vivendo em nós.
Minha mãe continua em mim.
Em cada criança que abraço.
Em cada vida que tento salvar.
Em cada escolha que faço quando preciso lembrar quem quero ser.
E, principalmente, em cada vez que tenho medo e ainda assim decido seguir em frente.
Naquela época, eu não entendia o significado de tudo aquilo. Apenas sabia que, quando minha mãe me cobria antes de apagar a luz, eu segurava sua mão e sorria.
— Boa noite, meu amor.
— Fica até eu dormir?
— Fico.
E ela ficava.
Às vezes, eu abria os olhos no meio da noite só para conferir se ela ainda estava ali.
Estava.
Eu fechava os olhos novamente, tranquila, sem imaginar que um dia procuraria aquele rosto em todas as lembranças que pudesse guardar por tantos anos depois disso.
