Capítulo 2 Capítulo 02
Melinda...
Chegamos ao baile e o lugar estava lotado. Tinha um monte de mulher no camarote que só aparece lá pra se oferecer. Nossa, nem eu que não sou nada disso consigo subir lá, e elas que só vão pra isso ficam em cima, que absurdo, né? kkk.
Camila — Caralho, amiga, olha quem tá ali! — apontou, e eu vi o Gordo. Essa menina ainda vai se foder muito por causa desse cara.
O Gordo é tipo um subdono do morro, vocês me entendem? E como ele manda e desmanda na Rocinha, um monte de mulher quer ficar com ele — inclusive minha amiga. Calma, ela não é o que estão pensando kkk, só é apaixonada por ele, mas ele não sente o mesmo. Já tentei avisar pra ela cair fora, mas é teimosia que não acaba mais. Vocês também têm uma amiga assim, cega de amor?
Melinda — Vamos curtir o baile e esquecer ele um pouquinho, tá bom? Eu já vejo como vai ser: depois que ele passar a noite com todas, vai aparecer lá na tua casa — falei, dando um gole no copo de whisky com gelo de maçã verde.
Camila — Vai se foder, Melinda — riu.
Melinda — E daí? — ri junto. — Minha vida já é uma bagunça mesmo, pelo menos eu não sou trouxa como você — rimos as duas.
Ficamos num canto menos cheio, bem pertinho de onde o cantor ficava. Hoje nem lembro quem estava cantando, mas vários MCs e DJs se revezavam ali. Eu e a Camila dançávamos sem parar, rebolando e eu puxando o vestido pra baixo o tempo todo, pra não passar vergonha.
Peguei mais um copo, dessa vez com Velho Barreiro. Já estava no quarto efeito e sentindo a bebida subir — eu realmente não aguento muito. Quando olhei, a Camila tinha sumido. Fui procurar e, na fila do banheiro, dei de cara com ela nos beijos com o Gordo. Juro que senti uma raiva danada, mas não era ciúme — era pena. Ela é ingênua demais e ele sabe muito bem como enrolar.
Melinda — Camila! — ela me olhou assustada. — Vem comigo no banheiro, por favor — dei uma olhada rápida pro Gordo e percebi ele revirar os olhos. Que cara insuportável, né?
Camila — Porra, Melinda, logo agora? Mas tá, vamo — deu um selinho nele e eu passei os olhos no Gordo de cima a baixo, com um sorriso de deboche. — Bora, Melinda!
Me puxou pelo braço e entramos. Eu entrei numa cabine e ela ficou do lado de fora esperando. Quando estava terminando, ouvi vozes de meninas conversando lá fora. E adivinha quem era o assunto? O Gordo, claro!
Menina 1 — Foi demais hoje! Ele apareceu lá em casa dizendo que tava com saudade, e claro que eu aceitei, né? — riu, e quando saiu da cabine, viu a Camila parada ali, furiosa.
Menina 2 — Pra mim ele disse que era comprometido — completou a outra.
Olhei pra Camila e encolhi os ombros. Não falei que esse cara é um pilantra? Nunca fica só com uma, sempre tem umas dez escondidas. Tentei avisar, mas ela preferiu não acreditar. Agora é ver o que faz.
Camila — Me diz uma coisa... você tá falando do meu homem? O Gordo tá ficando contigo? — perguntou, com voz de deboche. Eu só observava em silêncio. A menina, sem se abalar, confirmou.
Menina 1 — Coitada, deve ter te comido no escuro, né? Nem tem muito o que ver, magrinha assim... O Gordo gosta de mulher com curvas, tá ligada? Acho melhor você cair fora, porque ele pode até passar um tempinho com você, mas quem manda nele sou eu!
Menina 2 — Quem você pensa que é? — cortou a outra, rindo. — Vem aqui se achando a mais desejada, quando na verdade tá toda enganada, coitada.
Num piscar de olhos, a Camila já estava em cima da menina. Como boa amiga que sou, deixei a poeira baixar um pouco... até que percebi que a outra era magra demais e não conseguia se defender.
Menina 2 — Ei! Alguém tira essa louca de cima da minha amiga!
Gordo — Mas que porra é essa aqui?! Não avisei que não quero confusão nenhuma nesse morro, caralho?! — chegou gritando. — Amor, ela veio aqui falando que eu só gosto de mulher com corpo... — Abaixei a cabeça pra segurar o riso e os dois me olharam.
Gordo — Boa o bastante é o caralho! Fui te ver porque não tinha ninguém pra me satisfazer, tá ouvindo? — Fez uma pausa e virou pras outras. — Já falei e vou repetir: não quero mais briga nenhuma por causa de mim! Ficou claro? — As meninas concordaram de cabeça baixa. — Vem, Camila, preciso falar contigo em particular.
Fui atrás deles até a porta. Depois fiquei ali sozinha, voltei pra dentro tentando aproveitar o resto de uma noite que mal tinha começado...
Diego, o Tatuador...
Dizem que estar preso é a pior coisa que existe. Posso confirmar. Até que tinha visitas íntimas de vez em quando, mas já estava ficando cansado de ver sempre as mesmas caras. Até que uma veio aqui com cheiro estranho... nem consegui terminar, pra ser sincero. Perdi a vontade na hora.
Vou completar três anos e meio nesse inferno. E olha que não fiz tanta coisa assim, né? Fui preso por homicídio e contrabando, fora uns detalhes que não vêm ao caso. Deixei meu braço direito cuidando de tudo lá no morro até eu voltar. Ando correndo atrás de uma advogada... mas é difícil, porque já conheci todas, e esse é o problema. Tô precisando de uma visita decente, e os caras aqui ficam me zoando. Tô ficando maluco.
Paulo — E aí, Tatuador! Tá de cara feia hoje, hein? — O guarda apareceu com o prato de comida. Nem toco nessa comida daqui. Só como o que minha mãe traz nas visitas.
Tatuador — Vem só pra me provocar, não é mesmo, seu filho da puta? — Rebati, jogando o prato longe. Ele só riu.
Paulo — Então fica sem comer! Avisa os outros que esse bandido aí vai passar uma semana sem refeição! Ficou feliz agora? — Minha vontade era quebrar a cara dele.
Fiquei um tempo ali, olhando ele ir embora com raiva, e voltei pra minha cama. Pouco depois meus parceiros de cela voltaram. Criei laços com esses caras... e se eu conseguir sair daqui, não vou descansar enquanto não tirar eles também.
K7 — Chega aqui, Tatuador! — Fui até ele e vi que segurava um celular.
Tatuador — Onde conseguiu isso?
TM — Foi o Gordo que mandou! Seus parceiros lá de fora entregaram. Já tá com tudo configurado e o número dele salvo. Já tá quase na hora de você voltar pra ação, hein. Gostei.
Tatuador — Então vou tentar falar com ele de madrugada, quando tiver mais sossego. Os guardas estão me observando de perto, sabem que tô tramando algo — Sorri.
K7 — É assim que se fala! Esse é o nosso chefe.
Não demorou muito e vieram bater na grade, mandando todos deitar e apagando as luzes. Fui pro meu canto, liguei o celular e quase fiquei cego com o brilho no máximo. Mandei mensagem pro Gordo e ele só visualizou. Minutos depois respondeu que estava resolvendo coisas lá no morro. Desliguei o aparelho puto e acendi um cigarro — a única coisa que ainda me é permitida aqui.
