Capítulo 3 Capítulo 03

Melinda...

Acordei mais cedo hoje, preciso abrir a loja e receber as meninas. Me levantei e fui tomar banho pra despertar. Em menos de dez minutos já estava fora do chuveiro, vestindo a camisa do uniforme do mercadinho e uma calça legging azul-escuro. Calcei o tênis, passei perfume e fiz uma maquiagem bem leve.

Meu domingo passou voando. Passei a manhã inteira com uma dor de cabeça danada. À tarde, levantei pra cozinhar e almoçar. Depois ainda dei uma passada na pracinha com a Camila, e à noite jantei e fui pro meu quarto — antes passei lá no Nicolas e vi que estava no dele. Fico bem mais tranquila quando ele não sai de casa. Às vezes dá vontade de trancá-lo lá dentro pra mantê-lo longe das drogas, mas sei que seria pior.

Já tentei isso uma vez: tranquei a porta por duas horas e ele quase pulou pela janela. Estava alterado, revirou a casa inteira procurando dinheiro pra comprar mais droga. Perdi a paciência e decidi trancá-lo, mas como deu pra ver, não funcionou — ele escapou pela janela mesmo.

Passei perfume, peguei o celular e minha bolsinha, saí do quarto e desci as escadas até o dele. A porta estava entreaberta e ele dormia só de bermuda. Me aproximei e beijei-lhe a testa. Depois fui à cozinha e preparei meu café.

A Rocinha parecia estar em paz hoje. Desci o morro vendo gente indo trabalhar e levando os pequenos pra escola. Desde criança eu gostava de morar aqui, mas de um jeito diferente, sabe? Imaginava que morar na Rocinha era a melhor coisa do mundo — até que a vida me mostrou o que realmente acontece por aqui. Hoje vejo tudo com outros olhos.

Cheguei na loja, abri a porta, arrumei minhas coisas no balcão e esperei as outras chegarem. As clientes costumam aparecer por volta das nove; é raro alguém vir de manhã cedo.

Camila — Tô morta de cansaço. Se soubesse que ia ficar assim, nem teria ido — disse, sentando-se ao meu lado.

Essa Camila é colega de trabalho. Não somos tão chegadas quanto eu e a minha Camila, mas nos entendemos bem, kkk.

Melinda — E onde foi que se meteu pra estar tão acabada assim? — ri.

Camila — Fui no pagode que rolou ontem à tarde. Achei que ia te encontrar lá.

Melinda — Eu fui no baile no sábado e mal consegui voltar pra casa. Se tivesse ido no pagode, ia ter que me carregar de volta — ela riu. — Tô falando sério, mona — rimos juntas.

Conversamos até dar nove horas e, como de costume, as clientes começaram a chegar. Vendemos principalmente roupas femininas e íntimas. E não faço ideia de quem teve a brilhante ideia de colocar brinquedos também. Outro dia chegou uma mãe com um menininho aqui e ele pegou um vibrador pra brincar como se fosse carrinho. Eu e a Camila rimos o dia inteiro. E agora, toda vez que lembro, volto a rir sozinha...

Tatuador...

Tô puta com o Gordo. O cara me disse que tava resolvendo uns assuntos, mas hoje chegaram meus parceiros e me contaram que rolou baile. Confio no Gordo de olhos fechados, mas se vacilar, leva tiro na cara. O baile não me incomoda, não... mas porra, por que não me avisou? Tinha o celular na mão e preferiu mentir. Mal posso esperar pra pisar fora daqui e botar ordem no meu morro.

📞 Ligação ON

Gordo — Fala, Tatuador! Tudo na paz por aqui, meu mano. Já tô me mexendo pra te tirar daí, pode crer.

Tatuador — Esquece essa conversa. Que porra é essa de organizar baile ao invés de correr pra me tirar daqui? Tá achando que vida lá fora é mole, é isso? Quero você focado em me tirar dessa merda e em por ordem no meu morro!

Gordo — Qual foi, Tatuador? Fiz só pra dar uma amenizada nos moradores, pô. Tava todo mundo pedindo, o pagode de domingo já tinha ficado sem graça. Só quis animar, mas tá tudo sob controle. Vou correr atrás da tua liberdade primeiro, pode crer.

Tatuador — Me fala uma coisa: tem alguma mulher pra me mandar nas visitas? Tô precisando desesperadamente, papo reto.

Gordo — Mulher é o que não falta, Tatuador — riu. — Vou ver uma que agrade você. Até o fim do mês te mando uma. Vou tentar arranjar uma de fora pra ti.

Tatuador — De fora não. Quero uma daqui mesmo. Vou desligar, os guardas tão ficando desconfiados. Fé!

Gordo — Fé!

📞 Ligação OFF

Desliguei assim que vi os guardas se aproximando. Tudo tem que ser no maior sigilo; só vou poder falar à vontade no banho de sol ou de madrugada. Não dá pra vacilar quando você é alvo direto dos canas.

Policial — Bora, Tatuador! O que tá fazendo no escuro? — gritou. Me levantei e passei por ele.

Tatuador — Comendo tua mãe! — E entrei de volta na cela.

Me joguei na cama e acendi um cigarro. O pior é que é o último. As visitas pararam de vir e não tem mais ninguém me trazendo nada. Nem maconha. Pedia pro Gordo mandar junto com as visitas, já que os guardas pararam de revistar direito as mulheres, só passam a mão e pronto...

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