Capítulo 4 Capítulo 04

Melinda...

Cheguei em casa em prantos, sem saber o que será de mim agora. O único dinheiro que tenho é o que a Regiane me pagou — e mal dá pra passar uma semana. Eu era o esteio dessa casa, e agora perdi o emprego. Vou ter que me virar com o que tenho e torcer pra que o Gordo não bata à porta.

Joguei minhas coisas sobre a cama e fui contar o dinheiro. Abri a gaveta onde guardo minhas economias e... vazio! Como assim? Deveria ter mil reais aqui. Não quero acreditar que o Nicolas fez isso. Quando ele chegar, vai me responder por isso.

Contava com esse dinheiro pra abater o aluguel. Sei que não seria suficiente — devo dois mil e seiscentos reais ao Gordo — mas era alguma coisa. Não sei mais o que fazer com aquele moleque. Parte de mim quer interná-lo, mas ele insiste em se achar dono de si mesmo nessa vida perdida.

Respirei fundo, tentando me recompor, e contei o que a Regiane me deu: três mil reais. Sempre me pagou bem. Com isso, dá pra fazer uma compra simples, pagar metade do que devo ao Gordo e guardar o resto. Se aquele imprudente não tivesse levado meus mil reais, pelo menos teria menos uma dívida.

Guardei o dinheiro num esconderijo melhor, longe das mãos do Nicolas. Aproveitei que ele não estava e dei uma limpada na casa, nos mínimos cantos. Depois fui cozinhar: um macarrão com molho branco, o que dava pra fazer.

Quando terminava, ouvi a porta fechar. Fui à sala e o vi: olhos vermelhos, alterado, claramente sob efeito. As mãos tremiam e dava pra ver os pacotes no bolso.

Melinda — Nicolas! Onde você estava? — cruzei os braços, já sabendo a resposta, mas querendo vê-lo mentir.

Nicolas — Não me enche, Melinda. Já sou crescido, não precisa ficar em cima de mim o tempo todo — tentou passar, mas o empurrei de volta. Ele perdeu o equilíbrio e caiu, quebrando a mesinha de vidro. Mal conseguia se manter de pé. — Que porra é essa, Melinda?

Melinda — Não falei mil vezes pra parar com essa merda?! Você é criança sim, parece uma quando se droga! Tem dezessete anos, NICOLAS, DEZESSETE ANOS, PORRA!!! Deixou seus sonhos pra trás pra se afundar nisso, e ainda roubou meu dinheiro pra sustentar esse vício! Quero cada centavo de volta, nem que tenha que trabalhar até não poder mais. Juro que, se continuar assim, eu te interno!

Nicolas — Foi mal, maninha... Não queria ser esse tipo de irmão pra você, mas eu... — tentei falar e o interrompi.

Melinda — "...mas eu não consigo parar" — é isso que ia dizer, não é?! Já estou farta de ouvir a mesma desculpa! Tentei de tudo, agora é a sua vez de reagir ou eu te interno! — As lágrimas vieram. — Fui demitida, Nicolas! Se continuar assim, vamos parar na rua, entendeu?! Mal tenho o suficiente pra pagar o Gordo e botar comida na mesa. O que a Regiane me deu mal dá pra uma semana...

Era como falar às paredes. Ele olhava pra mim, mas a mente estava longe, perdida no efeito da droga. Tantas esperanças... e hoje já não sei se restou alguma. Cuidar de um irmão adolescente já é difícil; cuidar de um viciado é desespero. Já teve crises. E a próxima pode ser fatal.

Mandei-o tomar banho e disse que levaria o prato ao quarto. Voltei à cozinha e deixei as lágrimas rolarem. Não tenho ninguém. Se ele continuar assim, vai morrer. E tem mais: o Nicolas deve uma fortuna ao Gordo. Ele já avisou: ou cobram a dívida, ou a overdose o leva antes...

Gordo...

Desliguei o celular e taquei o aparelho longe. Quem foi o filho da puta que abriu a boca pro Tatuador? Fiz o baile sem autorização dele, sim. O pessoal já estava cansado de pagode de domingo; quis animar o morro, me divertir com as minas... e com a Camila também.

A Camila acha que somos um casal, tá ligado? Não tenho compromisso nenhum. Fico com ela porque me atrai, mas nunca prometi nada. Pegou as minas que quisesse no morro; quando nenhuma dá conta, volto pra ela. O único inconveniente é a amiga dela — essa tal de Melinda. Bonita pra caralho, mas vive de cara feia e enchendo a cabeça da Camila pra me deixar.

Essa Melinda me deve dois mil e seiscentos de aluguel. E o irmãozinho dela, o Nicolas, deve uma grana preta por aí. Vou aparecer lá essa semana pra cobrar tudo de uma vez.

Abri a lista de moradores e o nome dela é o primeiro. Se não tiverem o dinheiro quando eu chegar, mato os dois. Estou sem paciência.

Fui conferir o movimento nas bocas. Fui fazer a ronda do Beco 12. Chegando lá, vi o Nicolas: drogado, cambaleante. Esse não vai durar muito.

Gordo — Que faz aqui? Não avisei que só vem se pagar primeiro?! — Tirei a Glock da cintura.

Nicolas — Tô pagando, Gordo, olha... — Estendeu um maço de notas, uns mil reais.

Gordo — Isso paga alguma coisa? — Ri. — Mal cobre a metade. Toma a tua droga e suma. Mais tarde passo aí pra acertar as contas.

Ele concordou e saiu cambaleando.

Th — Veio pedir dois quilos! Liberei quinhentos gramas. Tá perdido! — Riu.

Gordo — Pois é, não dá pra confiar. E tem uma dívida que vale a vida dele.

Ws — Contigo ou com o Tatuador?

Gordo — Com o Tatuador! — Corrigi. Mal posso esperar pra ver que ele não sai da prisão. Esse morro já é meu de fato.

Conversei mais um pouco e segui meus negócios. Ando falando com advogados pra "tentar" soltá-lo... mas na verdade estou deixando tudo de lado. Quero o Tatuador bem longe, preso. Enquanto isso, eu continuo mandando.

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