Capítulo 1 Nós, por nós!

Minha vida nunca mais foi a mesma depois que completei quinze anos. Dizem que a adolescência é uma fase de descobertas, de primeiras paixões, amizades eternas e sonhos que parecem grandes demais para caber dentro do peito. Para mim, também foi a época em que descobri que a felicidade pode desaparecer em questão de segundos e que crescer, às vezes, significa aprender a continuar vivendo mesmo quando uma parte de você fica presa no passado.

Minha mãe e as mães da Marina e da Ana eram melhores amigas desde muito antes de nós nascermos. As três tinham uma amizade daquelas que todo mundo invejava. Estavam sempre juntas, inventando passeios, organizando festas e dando risada de qualquer besteira. Quando uma tinha um problema, as outras duas apareciam antes mesmo de serem chamadas.

Eram mulheres de personalidade forte, cheias de vida e com uma disposição que eu sinceramente não sei de onde tiravam.

Minha mãe, então, era uma figura! Bastava ouvir uma música animada para começar a dançar no meio da sala, sem se importar com quem estivesse olhando. A mãe da Marina era mais tranquila, mas tinha um senso de humor capaz de fazer qualquer pessoa rir. Já a mãe da Ana adorava organizar tudo, embora seus planos quase sempre terminassem em alguma confusão engraçada.

As três se completavam.

Nós crescemos acompanhando aquela amizade e aprendendo, mesmo sem perceber, que família não era apenas uma questão de sangue. Era também escolher permanecer ao lado de alguém quando a vida ficava difícil.

Eu, Marina e Ana éramos praticamente irmãs. Brigávamos por roupas, disputávamos o controle da televisão e passávamos horas falando sobre nossos sonhos. Nossas mães diziam que, se continuássemos daquele jeito, um dia acabaríamos morando todas juntas.

Mal sabíamos que a vida nos obrigaria a depender umas das outras muito antes do que imaginávamos.

Tudo mudou na volta do último dia de carnaval.

As três tinham saído para aproveitar a festa, como faziam todos os anos. Lembro que minha mãe se despediu de mim com um beijo na testa e prometeu que voltaria cedo. Eu reclamei, porque queria que ela ficasse em casa naquela noite, mas ela apenas sorriu, ajeitou meu cabelo e disse que eu precisava aproveitar minha juventude enquanto podia.

Foi uma despedida comum. Nada de abraços demorados, discursos emocionantes ou qualquer sinal de que aquela seria a última vez que eu ouviria sua voz.

Se eu soubesse, teria pedido mais um beijo. Teria ficado abraçada com ela por alguns minutos. Talvez tivesse dito tudo aquilo que a gente sempre acredita que poderá dizer depois.

Mas ninguém sabe quando uma despedida será a última.

Naquela madrugada, recebemos a notícia do acidente.

Ainda consigo me lembrar da sensação de ouvir aquelas palavras e não conseguir compreender o que significavam. O telefone tocou, as informações chegaram de maneira confusa e, de repente, os adultos começaram a falar baixo, como se diminuir o volume das vozes pudesse tornar a situação menos dolorosa.

Eu queria que alguém dissesse que havia acontecido um engano.

Queria ouvir minha mãe reclamando porque eu tinha deixado alguma coisa espalhada pela casa. Queria escutar sua risada, sentir seu perfume e vê-la entrando pela porta como se nada tivesse acontecido.

Mas isso não aconteceu.

O acidente levou as três mulheres que eram o centro das nossas vidas, deixando um vazio que nenhuma palavra seria capaz de preencher.

Naquele momento, senti como se o mundo tivesse parado enquanto todas as outras pessoas continuavam vivendo normalmente. O sol nasceu, os carros passaram pelas ruas e os vizinhos seguiram suas rotinas. Só que, para mim, tudo havia perdido o sentido.

Eu tinha quinze anos e não sabia como viver sem minha mãe.

Marina e Ana também estavam destruídas. Nós nos abraçávamos, chorávamos e tentávamos encontrar algum conforto umas nas outras, mas nenhuma de nós tinha respostas. Éramos três meninas tentando entender uma perda grande demais para a nossa idade.

Durante muito tempo, bastava ouvir alguém mencionar nossas mães para que nossos olhos se enchessem de lágrimas. Algumas noites, eu acordava acreditando ter escutado a voz dela. Em outras, ficava olhando para o celular, imaginando que receberia uma mensagem perguntando se eu já tinha comido ou se estava tudo bem.

A saudade era cruel porque aparecia nas pequenas coisas.

Na comida que ela preparava, nas músicas que gostava de ouvir, nas roupas que ainda guardavam seu cheiro e nos conselhos que eu não poderia mais pedir.

Mesmo assim, precisávamos continuar.

A vida não parou para nos dar tempo de aprender a lidar com a dor. As responsabilidades chegaram, e tivemos que descobrir como enfrentar problemas que antes eram resolvidos pelas nossas mães.

Foi nessa fase que uma frase delas passou a ter um significado diferente para mim.

— Não se desesperem, meninas. Tudo vai ficar bem!

As três diziam isso sempre que alguma coisa saía errado. Na época, eu achava engraçado como conseguiam permanecer tranquilas mesmo diante das maiores confusões. Depois que elas se foram, passei a repetir aquelas palavras para mim mesma.

Nem sempre acreditava nelas, mas precisava tentar.

Eu, Marina e Ana prometemos que não deixaríamos a dor nos separar. Não queríamos que a ausência das nossas mães destruísse também a amizade que elas haviam nos ensinado a construir.

Foi quando Max apareceu em nossas vidas.

E, minha gente, se existe uma pessoa capaz de entrar em um ambiente e fazer todo mundo perceber sua presença, essa pessoa é ele!

Max era escandaloso, afrontoso e tinha uma resposta pronta para qualquer situação. Falava com as mãos, fazia expressões exageradas e não conhecia o significado da palavra discrição. Se alguém olhasse torto para ele, recebia um comentário tão afiado que provavelmente passaria o resto do dia pensando no que deveria ter respondido.

A primeira vez que o conheci, pensei que aquele homem precisava aprender a falar um pouco mais baixo.

Hoje, sei que seria impossível.

Por trás de toda aquela personalidade, porém, existia alguém que conhecia muito bem a solidão.

Max foi expulso de casa ainda jovem, depois de assumir sua homossexualidade. Em vez de receber o acolhimento que merecia, precisou enfrentar a rejeição justamente de quem deveria protegê-lo. Sem ter para onde ir, aprendeu a trabalhar, economizar dinheiro e lutar pelos próprios objetivos.

Não foi fácil. Houve dias em que precisou escolher entre comprar alguma coisa para comer e guardar dinheiro para realizar seus planos. Houve momentos em que sentiu medo, insegurança e vontade de desistir.

Mas ele continuou.

Com muito esforço, conquistou seu próprio salão de beleza. Cada móvel, cada equipamento e cada cliente representavam uma vitória pessoal. Max havia construído um espaço onde podia ser quem era sem precisar pedir desculpas por isso.

E foi naquele lugar que encontrou três meninas perdidas, tentando descobrir como recomeçar.

Ele poderia ter se limitado a sentir pena da nossa situação, mas fez muito mais. Ofereceu oportunidades, ensinou o que sabia e nos mostrou que não precisávamos enfrentar tudo sozinhas.

No começo, entretanto, nossa convivência não foi exatamente tranquila.

Max tinha uma paciência admirável, mas nós conseguimos testar seus limites de todas as maneiras possíveis.

— Cloe, pelo amor de Deus, você está tentando fazer uma sobrancelha ou desenhar uma estrada? — perguntou certa vez, observando meu trabalho.

Olhei para a cliente, depois para ele.

— Está exagerando!

— Exagerando? Minha filha, se eu deixar você terminar isso, a mulher vai sair daqui com uma sobrancelha no rosto e a outra na nuca!

Marina começou a rir tanto que precisou se apoiar na bancada. Ana tentou manter a seriedade, mas acabou acompanhando a gargalhada.

Max colocou as mãos na cintura e nos encarou.

— Estou criando três monstros. É isso que estou fazendo. Um dia ainda vou escrever um livro contando o sofrimento que vocês me causaram.

— Coloca uma foto nossa na capa — sugeri. — Vai vender muito!

Ele tentou continuar bravo, mas acabou rindo também.

Aquele foi um dos primeiros dias em que consegui rir de verdade depois da morte da minha mãe.

Talvez Max nem tenha percebido a importância daquele momento. Para ele, provavelmente, era apenas mais uma confusão no salão. Para mim, foi a prova de que ainda existiam motivos para sorrir.

Com o passar do tempo, fomos aprendendo.

Fiz cursos, pratiquei muito e me especializei em design de sobrancelhas. Marina descobriu que tinha talento para a aplicação de cílios, enquanto Ana se apaixonou pelo universo das unhas de gel. Cada uma encontrou sua área e começou a desenvolver suas habilidades.

Não recebemos nada de mão beijada. Precisamos estudar, trabalhar e conquistar a confiança dos clientes. Houve erros, dias cansativos e momentos em que achávamos que não conseguiríamos dar conta de tudo.

Mas tínhamos um ao outro.

Quando uma estava desanimada, as outras ajudavam. Se Marina precisava treinar uma técnica nova, eu me oferecia para ser sua modelo. Quando Ana ficava insegura com algum procedimento, Max sentava ao lado dela e explicava tudo novamente. E, se eu começava a duvidar da minha capacidade, os três faziam questão de me lembrar de quanto já havia conquistado.

Aos poucos, o salão cresceu.

Os clientes começaram a indicar nossos serviços, a agenda ficou cada vez mais cheia e percebemos que precisávamos ampliar o espaço. Aquilo que começou como uma oportunidade de sobrevivência se transformou em um negócio de verdade.

Hoje, olho para aquele lugar e sinto orgulho.

Não é apenas um salão de beleza. É o resultado da nossa coragem, das noites mal dormidas, das economias que juntamos e da confiança que construímos uns nos outros.

Somos quatro pessoas completamente diferentes, mas que encontraram uma maneira de formar uma família.

Max é o mais velho e, consequentemente, acredita que tem autoridade para mandar em todo mundo. Marina é carinhosa, mas sabe ser teimosa quando coloca alguma coisa na cabeça. Ana costuma parecer a mais tranquila, embora tenha um talento especial para se meter em situações complicadas.

E eu? Bom, dizem que sou orgulhosa.

Prefiro acreditar que apenas sei o meu valor.

Nós conhecemos os segredos uns dos outros, compartilhamos nossas inseguranças e nunca precisamos fingir que está tudo bem quando não está. Podemos discutir por besteira, reclamar da vida e passar horas provocando uns aos outros, mas, quando alguém precisa de ajuda, todas as diferenças ficam de lado.

Essa é a nossa regra: ninguém solta a mão de ninguém.

O curioso é que conseguimos oferecer ótimos conselhos para os outros, mas, quando o assunto é nossa própria vida amorosa, parece que perdemos completamente a inteligência.

Começando por mim.

Sou apaixonada pelo Cadu.

Pronto, falei!

Não que eu saia anunciando isso por aí. Muito pelo contrário. Guardo esse sentimento comigo, porque não tenho a menor intenção de me transformar na mulher que fica correndo atrás de alguém que não sabe o que quer.

Cadu é um homem reservado, daqueles que parecem carregar o mundo nas costas. Está acostumado a manter a expressão séria, falar apenas o necessário e observar tudo ao redor. Não é o tipo de pessoa que demonstra seus sentimentos com facilidade.

O problema é que já o peguei me olhando várias vezes.

E não estou falando daqueles olhares rápidos que qualquer pessoa troca sem perceber. Estou falando de momentos em que levanto a cabeça e encontro os olhos dele fixos em mim, como se estivesse tentando descobrir alguma coisa.

Quando nossos olhares se cruzam, ele costuma desviar ou simplesmente continuar o que estava fazendo.

E eu fico com aquela vontade enorme de perguntar qual é o problema dele.

Se sente alguma coisa, por que não fala? Se não sente, por que fica me olhando daquele jeito?

Não sou adivinha, muito menos especialista em traduzir o silêncio dos homens.

Por algum tempo, achei que talvez as coisas pudessem acontecer entre nós. Não cheguei a criar grandes expectativas, mas admito que imaginei como seria receber uma mensagem dele ou descobrir que aqueles olhares significavam alguma coisa.

Então, Cadu assumiu uma moradora nova como sua fiel.

Foi o suficiente para minhas esperanças perderem a graça.

Não vou mentir dizendo que não me incomodei. Incomodei, sim. Senti ciúme, fiquei irritada comigo mesma por sentir ciúme e passei alguns dias tentando convencer meu coração de que eu não tinha nada a ver com aquilo.

Afinal, ele nunca me prometeu nada.

Não existia compromisso, declaração ou acordo entre nós. Eu gostava dele, mas isso não significava que ele me devia alguma coisa.

Mesmo assim, não consegui evitar o ranço.

E, antes que alguém pergunte, não tenho nada contra a moça. Ela pode viver a vida dela como quiser. O que me incomoda é perceber que eu estava alimentando sentimentos por alguém que seguiu outro caminho.

Por isso, decidi me afastar um pouco e cuidar da minha vida.

Marina, infelizmente, não teve muito mais sorte.

Minha amiga é apaixonada pelo Pedro há um bom tempo. Ela sempre tenta disfarçar, mas basta ele aparecer para que seu comportamento mude. O sorriso fica mais fácil, os olhos acompanham cada movimento dele e até sua voz parece ganhar outra entonação.

Eu percebia tudo.

E, por conhecer Marina tão bem, também percebi quando ela começou a se machucar com aquela situação.

Pedro assumiu justamente uma amiga da fiel do Cadu.

Quando soube, Marina tentou agir como se não fosse nada demais. Disse que estava tudo bem, que não tinha compromisso com Pedro e que ele era livre para escolher quem quisesse.

Todas aquelas coisas eram verdadeiras.

Mas a verdade não impedia que doesse.

Naquela noite, ela apareceu no salão depois do expediente, sentou-se no sofá e ficou olhando para o celular.

— Você quer conversar? — perguntei.

— Não tem nada para conversar, Cloe.

Sentei ao lado dela.

— Tudo bem. Então não vamos conversar.

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