Capítulo 2 2

— Ô, Alessandra!

Gritei assim que entrei em casa e dei de cara com aquela bagunça. A pia estava lotada de louça, havia roupas jogadas no sofá e a sala parecia ter sido atingida por um furacão. Respirei fundo, passando a mão pelo rosto enquanto tentava controlar a irritação.

PQP! Não era possível!

Aquela mulher não fazia absolutamente nada além de dormir, gastar meu dinheiro e arrumar confusão pelo morro. Eu tinha assumido um compromisso com ela havia pouco tempo e já estava me perguntando se tinha feito a maior besteira da minha vida.

A garota que trabalhava aqui em casa estava de folga. Havia pedido uma semana para resolver umas coisas pessoais, e eu autorizei sem reclamar. A menina trabalhava direto, tanto aqui quanto nas casas dos meus manos. Merecia descansar.

Agora, custava Alessandra manter a casa minimamente organizada durante esses dias?

— Que foi, Cadu? Não posso mais dormir em paz? — ela perguntou, aparecendo no corredor com o cabelo despenteado e uma expressão de poucos amigos.

Olhei para ela, sério.

— Tu tá vendo como está essa casa?

Alessandra acompanhou meu olhar até a cozinha e deu de ombros, como se a situação não tivesse nada a ver com ela.

— E daí?

— Como assim, e daí? A pia está cheia de louça, a sala está uma zona e eu acabei de chegar do trabalho. Tu não podia ter organizado pelo menos um pouco isso aqui?

Ela cruzou os braços, demonstrando que não estava nem um pouco interessada na conversa.

— Quando aquela garota volta para limpar?

Fechei os olhos por um instante, tentando entender se tinha escutado direito.

— Tu tá falando sério?

— Ué, Cadu! Eu não gosto de fazer serviço de casa. Nunca gostei. Se tem alguém que faz isso, por que eu vou me preocupar?

Soltei uma risada sem humor.

— Ah, então quer dizer que a moça trabalha a semana inteira, cuida da casa dos meus manos e ainda tem que voltar das folgas para resolver a tua preguiça?

— Você está exagerando!

— Não, Alessandra. Eu estou cansado.

Peguei a carteira que havia deixado sobre o balcão e fui em direção à porta. Não estava com cabeça para discutir naquele momento. Minha vontade era sair dali antes que aquela conversa se transformasse em mais uma briga sem sentido.

— Vai sair agora? — ela perguntou, elevando a voz. — A gente nem terminou de conversar!

— Porque eu não quero continuar essa conversa!

Bati a porta ao sair.

Desci a rua com a cabeça fervendo. Na moral, eu precisava de paz. Já tinha problemas demais para resolver no trabalho, gente para orientar e situações que exigiam minha atenção o tempo inteiro. Não queria chegar em casa e encontrar mais uma dor de cabeça.

O pior era que Alessandra parecia acreditar que assumir o posto de minha fiel significava ter liberdade para fazer o que quisesse, sem considerar as consequências.

Desde que começamos a ficar juntos, as discussões haviam se tornado frequentes. Uma hora era por causa de dinheiro; em outra, por causa de alguma mulher que ela cismava que estava olhando para mim. Se eu demorasse a responder uma mensagem, ela queria saber onde eu estava. Se eu saísse com meus manos, vinha uma sequência de perguntas.

Eu não era santo, sabia muito bem disso. Minha vida estava longe de ser simples, e não prometia a ninguém um conto de fadas. Mas também não tinha paciência para viver em guerra dentro da própria casa.

Quando cheguei ao bar, encontrei Pedro e Thulio sentados à mesa de sempre. Os dois estavam com expressões fechadas, cada um encarando o próprio copo como se houvesse alguma resposta escondida ali dentro.

— Qual foi, meus manos? Que cara é essa? Parece que alguém morreu!

Pedro levantou os olhos para mim.

— Briguei com a outra lá. Não faz nada, só quer saber de reclamar. Estou bolado já.

Soltei uma gargalhada curta.

— Pelo visto, estamos todos no mesmo barco.

— Não sei nem como ainda tenho paciência — ele continuou. — Parece que a gente precisa pedir autorização para respirar.

Thulio tomou um gole da bebida antes de falar.

— A minha também está me tirando do sério. Qualquer hora dessas, vou mandar meter o pé. Não estou a fim de passar o resto da vida discutindo por besteira.

Sentei com eles e pedi uma bebida.

— Eu acabei de sair de casa porque a minha resolveu implicar até com a mulher que trabalha lá. A garota está de folga, e Alessandra acha que a casa vai se limpar sozinha.

Pedro começou a rir.

— Pô, Cadu! Tu está reclamando de louça agora?

— Não é pela louça, caralho! É pela atitude. A menina trabalha direto, pediu uns dias para descansar e eu dei. Aí chego em casa e encontro aquela bagunça, enquanto a madame está dormindo tranquilamente.

— Então conversa com ela — Thulio sugeriu, sem demonstrar muita preocupação. — Ou decide logo o que quer fazer. O problema é ficar nessa situação e depois reclamar que está de saco cheio.

Olhei para ele.

— Está cheio de conselho hoje, hein?

— Alguém precisa ter juízo nessa mesa.

Pedro caiu na risada, e eu acabei acompanhando. Pelo menos, entre os meus manos, conseguia relaxar sem precisar medir cada palavra.

Ficamos ali durante um bom tempo, conversando sobre o trabalho, os problemas do dia e as situações que precisávamos resolver nos próximos dias. Aos poucos, minha irritação foi diminuindo. O bar estava movimentado, alguns conhecidos passavam para cumprimentar e a música preenchia o ambiente.

Eu só queria aproveitar aquele momento de tranquilidade.

Foi quando olhei para a rua e vi o quarteto do salão passando.

Max vinha no meio das meninas, falando alguma coisa que fez as três rirem. Eu conhecia o sujeito de vista e sabia que ele tinha um caso com um dos meus seguranças de confiança. Os dois pareciam se dar bem, embora eu não me metesse na vida pessoal dos meus funcionários.

As meninas, por outro lado, sempre me chamaram a atenção.

Nunca as tinha visto envolvidas em confusões desnecessárias. Trabalhavam, cuidavam da própria vida e estavam sempre juntas. Era comum vê-las indo para o salão ou voltando para casa depois de um dia inteiro de trabalho.

A loirinha, principalmente, era difícil de ignorar.

Ela morava a duas casas da boca e, algumas vezes, eu a via na laje com as amigas. Tinha um sorriso bonito, um jeito tranquilo e um corpo que chamava a atenção sem que ela precisasse fazer esforço algum.

Mas o que mais me intrigava era justamente o fato de nunca vê-la tentando chamar a atenção de ninguém.

Ela não ficava circulando perto de mim, não inventava desculpas para puxar conversa e muito menos aparecia com aquele comportamento de quem queria ser notada pelo dono do lugar.

Na verdade, parecia nem se importar com a minha existência.

E eu não sabia por que aquilo me incomodava tanto.

— Está olhando o quê, chefe? — Pedro perguntou, acompanhando a direção do meu olhar.

Desviei os olhos imediatamente.

— Nada, porra.

— Nada? — Ele soltou uma risada. — Está encarando a rua faz um tempão!

— Vai cuidar da tua vida, Pedro.

— Ih, ficou nervoso!

Thulio também começou a rir, e eu mostrei o dedo para os dois.

— Vocês estão muito desocupados hoje.

— A gente só está observando — Pedro respondeu, ainda debochado.

Ignorei as provocações e voltei a prestar atenção na conversa. Não tinha motivo para ficar pensando naquelas meninas. Eu mal conhecia qualquer uma delas e, sinceramente, estava com problemas suficientes para não procurar outros.

Minha relação com Alessandra já estava desgastada, e eu precisava decidir se valia a pena continuar insistindo. Não queria assumir um compromisso apenas para passar os dias discutindo. Também não pretendia tomar uma decisão precipitada por causa de uma briga.

Mas a verdade era que eu estava cansado.

Cansado das cobranças, das discussões e da sensação de que qualquer coisa poderia se transformar em mais um motivo para conflito.

Foi justamente quando comecei a relaxar de novo que avistei Alessandra descendo a rua com algumas garotas.

Pelo jeito como caminhava, percebi que estava procurando confusão.

Fechei a cara na mesma hora.

— Não é possível, mano — murmurei.

Pedro acompanhou meu olhar e soltou um suspiro.

— Lá vem problema.

Alessandra estava discutindo com uma garota conhecida como Sabrina, que morava no Beco Nove. As duas falavam alto, gesticulavam e atraíam a atenção de quem passava. Algumas pessoas já haviam parado para assistir à discussão, enquanto outras tentavam entender o que estava acontecendo.

Levei a mão à testa.

Eu não tinha sossego!

Havia menos de três meses que tinha assumido Alessandra como minha fiel, e ela já conseguia transformar qualquer situação em um espetáculo. Eu não sabia o motivo daquela discussão, mas conhecia o suficiente para imaginar que provavelmente havia começado por alguma provocação.

— Cadu, tua mulher está arrumando confusão de novo — Thulio comentou.

— Estou vendo, porra!

Levantei da cadeira e fiz um sinal para um dos rapazes que estavam por perto.

— Vai lá e separa as duas antes que isso fique pior. Não quero ninguém se machucando por causa de discussão besta.

O rapaz saiu apressado.

Continuei observando de longe, esperando que a situação fosse resolvida. Mas as vozes ficaram mais altas, e logo percebi que nenhuma das duas estava disposta a recuar.

Um grupo começou a se formar ao redor delas.

Aquilo estava me tirando do sério.

— Separa essa confusão de uma vez! — ordenei quando outro dos rapazes se aproximou. — Se alguém começar a partir para agressão, tira as duas dali e acaba com essa palhaçada. Não quero ninguém incentivando briga.

Eu estava cansado daquela necessidade de transformar tudo em disputa. Não tinha paciência para gente que precisava provar alguma coisa diante dos outros o tempo inteiro.

Pedro balançou a cabeça.

— A tua está querendo aparecer.

— Não fala nada que eu já estou sem paciência.

— A minha não fica muito atrás — ele respondeu. — Às vezes, acho que elas combinam essas coisas só para acabar com o nosso dia.

Thulio soltou uma risada.

— Pelo menos estamos descobrindo que o problema não é só de um.

Ficamos esperando até que os rapazes conseguissem afastar as duas. A gritaria continuou por mais alguns instantes, mas, aos poucos, cada uma seguiu para um lado.

Alessandra ainda parecia irritada, gesticulando enquanto reclamava com as amigas.

Eu desviei o olhar.

Não iria atrás dela naquele momento. Se quisesse conversar, teria que ser quando estivéssemos tranquilos, porque eu não estava disposto a discutir na frente de todo mundo.

— Na moral, Cadu — Pedro falou, apoiando os braços sobre a mesa —, tu precisa resolver isso. Está ficando insustentável.

— Eu sei.

E sabia mesmo.

O que eu ainda não sabia era qual decisão tomaria.

Voltei a me sentar e tentei esquecer o ocorrido. Pedi mais uma bebida e procurei me concentrar na conversa dos meus manos. Aos poucos, o movimento do bar voltou a parecer normal, e a confusão de Alessandra ficou para trás.

Até que a porta se abriu.

E a loirinha entrou.

Foi impossível não reparar.

Ela estava usando uma roupa simples, os cabelos claros soltos sobre os ombros e uma expressão tranquila, como se não tivesse a menor ideia da confusão que havia acabado de acontecer na rua. Caminhou até o balcão, cumprimentou o rapaz que atendia e começou a olhar as opções disponíveis.

O salão podia estar cheio, o bar podia estar movimentado e meus manos podiam continuar falando ao meu lado, mas, por alguns segundos, minha atenção ficou inteiramente nela.

PQP!

Aquela mulher era bonita demais.

Não era só o corpo, embora fosse impossível fingir que não chamava a atenção. Era o conjunto. O jeito como se movimentava, a tranquilidade com que esperava ser atendida e a expressão concentrada enquanto escolhia o que queria comprar.

Ela não parecia interessada em impressionar ninguém.

E, de alguma maneira, isso a tornava ainda mais atraente.

— Olha ele de novo! — Pedro provocou, seguindo meu olhar.

Virei a cabeça para ele.

— Tu não tem outra coisa para fazer, não?

— Tenho. Mas te irritar está sendo muito mais divertido.

Thulio começou a rir.

— Deixa o homem, Pedro. Vai ver ele está escolhendo o nome dos filhos.

— Vocês dois estão pedindo para levar um copo na cabeça.

— Ih, ficou bravo! — Pedro respondeu.

Balancei a cabeça, tentando esconder o sorriso.

A loirinha pediu uma porção e um refrigerante. Pagou, agradeceu ao atendente e pegou a sacola sem demonstrar o menor interesse em olhar para as mesas.

Passou perto de onde estávamos sentados, mas não diminuiu o passo.

Não me cumprimentou, não tentou chamar minha atenção e nem sequer olhou na minha direção.

Simplesmente foi embora.

Fiquei acompanhando sua saída por alguns segundos antes de perceber que Pedro estava praticamente se acabando de rir.

— Qual é a graça, desgraçado?

— Nenhuma, chefe. Só achei interessante como tu acompanhou cada passo da menina.

— Eu estava olhando o movimento da rua!

— Claro! E eu sou o presidente da República.

Thulio bateu na mesa, rindo da resposta.

— Deixa o cara, Pedro. Vai que ele está apaixonado.

— Apaixonado é o caralho! — respondi depressa demais.

Os dois ficaram em silêncio por um instante.

Depois, começaram a rir ainda mais.

Soltei um palavrão baixo e me levantei para buscar outra bebida, decidido a encerrar aquela palhaçada. Eu não estava apaixonado por ninguém. Mal conhecia a garota!

Era apenas uma mulher bonita que tinha chamado minha atenção.

Nada demais.

Pelo menos, era isso que eu dizia a mim mesmo.

Voltei para a mesa e tentei participar da conversa, mas minha cabeça insistia em lembrar daquele rosto. Havia alguma coisa naquele jeito discreto que me deixava curioso. Eu estava acostumado a pessoas que procuravam minha atenção por motivos variados, mas ela parecia completamente indiferente à minha presença.

E eu não sabia se gostava disso ou se aquilo estava mexendo com meu orgulho.

Talvez fosse apenas curiosidade.

Talvez eu estivesse procurando uma distração para esquecer os problemas com Alessandra.

Ou talvez aquela loirinha tivesse despertado um interesse que eu ainda não estava disposto a admitir.

De qualquer forma, decidi que não faria nada a respeito. Não iria atrás dela, nem inventaria desculpas para puxar conversa. Se nossos caminhos se cruzassem naturalmente, tudo bem. Caso contrário, a vida seguiria.

Afinal, eu tinha responsabilidades demais para me preocupar com uma mulher que sequer sabia meu nome.

Ou, pelo menos, era o que eu imaginava.

Porque, enquanto eu tentava convencer meus próprios pensamentos de que aquela garota não significava absolutamente nada, uma pequena parte de mim já queria saber quem ela era, o que fazia quando não estava trabalhando e por que parecia tão determinada a viver longe das confusões que cercavam minha rotina.

Olhei mais uma vez para a porta por onde ela havia saído.

Depois, ri sozinho da situação.

— Tu está perdido, chefe — Pedro comentou.

Mostrei o dedo para ele, arrancando mais gargalhadas da mesa.

Mas não respondi.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu tinha encontrado alguma coisa capaz de despertar minha curiosidade sem me trazer uma nova dor de cabeça.

E, naquele momento, isso já era suficiente.

Eu só não fazia ideia de que aquela garota, que passara por mim sem sequer olhar na minha direção, poderia acabar mudando muito mais do que meus pensamentos.

Poderia mudar o rumo da minha história.

E eu ainda não estava preparado para isso.

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