Capítulo 4 A MENINA QUE VIROU MULHER
Bruno narrando
Eu estava indo para a pista depois de passar na casa do meu pai. Ele tinha me avisado que a filha do Cadu chegaria naquele dia, depois de passar cinco anos longe da comunidade.
Maju.
Fazia tempo que eu não ouvia aquele nome numa conversa, embora, de vez em quando, me lembrasse dela.
Quando morava aqui, Maju e eu estávamos sempre juntos. Crescemos frequentando os mesmos lugares, compartilhando brincadeiras e implicando um com o outro por qualquer besteira. Ela era uma menina inteligente, cheia de personalidade e com uma língua afiada que, sinceramente, nunca soube respeitar a minha paz.
Mas, de repente, ela foi embora.
Na época, ouvi dizer que tinha ido estudar fora. Não sabia muitos detalhes, apenas que estava fazendo faculdade e que pretendia construir um futuro diferente. Isso não me surpreendeu. Maju sempre foi muito estudiosa, daquelas que levavam os estudos a sério e tinham planos para a vida.
Eu respeitava isso.
Só nunca imaginei que ela ficaria tanto tempo longe.
Estava descendo de carro quando avistei Cadu caminhando pela comunidade com uma mulher ao lado. Não consegui ver o rosto dela direito, mas alguma coisa na postura me chamou a atenção.
Será que era Maju?
Olhei pelo retrovisor, tentando enxergar melhor, mas já estava me afastando.
Se fosse ela, tinha crescido muito.
E, pelo pouco que consegui ver, estava bonita demais.
— Rapaz… — murmurei, balançando a cabeça e voltando a prestar atenção na rua.
Eu não podia ficar daquele jeito por causa de uma pessoa que nem sabia se realmente tinha visto.
Além disso, tinha trabalho para resolver.
Passei boa parte da tarde buscando mercadorias e conferindo os produtos que seriam necessários para o salão. Meu negócio exigia dedicação, planejamento e, principalmente, responsabilidade. Eu gostava de saber o que estava acontecendo em cada detalhe, desde o estoque até o atendimento dos clientes.
Quando decidi investir na barbearia, muita gente achou que eu estava sonhando alto demais.
Eu sempre soube que não queria seguir o caminho que esperavam de mim por ser filho de quem sou. Meu pai tinha sua própria história, mas eu queria construir a minha. Nunca tive vontade de entrar para o tráfico, e fiz questão de deixar isso claro desde cedo.
Queria trabalhar, ganhar meu dinheiro e ter orgulho daquilo que construísse.
E, graças a Deus, estava dando certo.
Minha barbearia era movimentada, recebia clientes de diferentes lugares e já tinha conquistado uma boa reputação. Além dos cortes tradicionais, eu investia em tratamentos para barba, hidratação facial e outros cuidados masculinos.
O pessoal gostava de ter um lugar onde pudesse cuidar da aparência e conversar tranquilamente enquanto esperava sua vez.
E foi daí que surgiu outra ideia: integrar uma pequena choperia ao espaço, com um ambiente separado da área de atendimento da barbearia. Assim, quem quisesse tomar alguma coisa e relaxar enquanto aguardava poderia aproveitar o tempo sem atrapalhar o trabalho dos profissionais.
O negócio estava crescendo, e eu tinha planos de expandi-lo ainda mais.
Não vou mentir: era bom demais olhar para tudo aquilo e saber que tinha conquistado com meu próprio esforço.
Por volta das sete da noite, finalmente voltei para a comunidade.
Meu celular tocou antes mesmo de eu estacionar.
Era meu pai.
— Fala, coroa!
— Onde você está, moleque?
— Chegando. Por quê?
— Estou na praça. Passa aqui.
Franzi a testa.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu que estou mandando você vir tomar uma cerveja comigo. Preciso desenhar?
Soltei uma risada.
— Calma, homem! Já estou indo.
Meu pai tinha um talento especial para transformar qualquer convite simples numa convocação oficial.
Passei em casa, deixei os produtos que havia comprado e fui tomar uma ducha. Depois, troquei de roupa e segui para a praça.
De longe, já conseguia ouvir a risada do meu pai.
Aquela risada alta, escandalosa, que fazia todo mundo ao redor acabar entrando na brincadeira, mesmo sem saber exatamente o que estava acontecendo.
Aproximei-me e encontrei uma cena que me fez parar por alguns segundos.
Meu pai estava jogando truco.
Até aí, nenhuma novidade.
O problema era que a filha do Cadu estava sentada ao lado dele, acompanhando a partida e tirando sarro dos jogadores que estavam perdendo.
E era ela mesmo.
Maju.
Caramba!
A menina tinha voltado.
E estava linda demais.
Não era apenas a aparência. Havia alguma coisa diferente na maneira como se comportava, na postura, no jeito de sorrir e até na forma como observava os outros.
A menina que eu lembrava havia crescido.
E eu fiquei alguns segundos parado, tentando entender por que aquela constatação tinha mexido tanto comigo.
— Vai jogar ou vai ficar aí plantado, Bruno? — meu pai perguntou, percebendo minha presença.
Balancei a cabeça e me aproximei.
— Boa noite para você também, coroa.
— Boa noite nada! Estou esperando você desde cedo.
— O senhor me ligou faz pouco tempo!
— E daí? Poderia ter chegado antes.
Olhei para Maju, que acompanhava nossa conversa com um sorriso divertido.
— Seu pai continua assim? — perguntei a ela.
Ela soltou uma gargalhada.
— Assim como?
— Mandão.
— Ah, Bruno, você não faz ideia! Cinco anos longe e bastaram algumas horas para eu perceber que ele continua insuportável.
Meu pai colocou a mão no peito.
— Estou cercado de ingratos!
— Estamos apenas dizendo a verdade, pai — Maju respondeu, voltando a rir.
E foi naquele instante que ela olhou diretamente para mim.
Sorriu.
Um sorriso bonito, espontâneo, daqueles que fazem a gente esquecer por um momento o que estava prestes a dizer.
Fiquei meio desconcertado.
Eu conhecia aquele sorriso desde a infância, mas nunca tinha reparado nele daquela maneira. Talvez porque, antes, Maju fosse apenas a menina que estava sempre por perto, a amiga que fazia brincadeiras e aparecia nos lugares onde eu estava.
Agora, olhando para ela, percebi que não era mais tão simples.
— Bruno, meu filho! — meu pai chamou. — Você está ouvindo?
Pisquei algumas vezes.
— Estou, pai.
— Então senta aqui. Vou apresentar vocês oficialmente, porque pelo jeito você esqueceu até como se cumprimenta uma pessoa.
Maju começou a rir outra vez.
Eu puxei uma cadeira e me sentei perto deles.
— Prazer, senhorita. Bruno, muito prazer.
Ela estendeu a mão, entrando na brincadeira.
— Maju. Engenheira formada, atualmente especialista em suportar homens inconvenientes.
Segurei a mão dela e sorri.
— Então você voltou ainda mais abusada?
— E você continua achando que o mundo gira ao seu redor?
— Não sei. Pergunta para o pessoal da barbearia. Eles vivem dizendo que sou o melhor profissional da região.
Ela revirou os olhos.
— Convencido!
— Invejosa!
— Infantil!
— Mandona!
Meu pai bateu na mesa.
— Pronto! Agora que vocês terminaram de trocar elogios, podemos continuar o jogo?
Maju e eu nos olhamos e caímos na gargalhada.
Era estranho como algumas coisas pareciam permanecer iguais. A facilidade com que implicávamos um com o outro, as respostas rápidas e a maneira como a conversa fluía sem que precisássemos pensar muito.
Durante alguns minutos, quase esqueci que cinco anos haviam passado.
Meu pai me ofereceu uma cerveja, e aceitei. Enquanto ele voltava a prestar atenção no jogo, continuei observando Maju discretamente.
Ela conversava, ria e provocava os outros jogadores como se nunca tivesse saído dali.
Eu queria saber como haviam sido aqueles cinco anos.
Queria saber como era sua vida em Belo Horizonte, quais dificuldades enfrentou na faculdade e o que pretendia fazer agora que estava de volta.
Também queria saber se havia alguém esperando por ela.
Essa última pergunta me incomodou mais do que deveria.
Afinal, eu não tinha direito algum de me incomodar com a vida amorosa dela.
Maju era livre para escolher seu caminho, conhecer outras pessoas e construir a vida que desejasse. Eu também tinha seguido em frente, trabalhado e feito minhas escolhas.
Mas uma coisa era saber disso racionalmente.
Outra era olhar para ela e perceber que eu queria sua companhia muito além das lembranças da nossa amizade.
Enquanto eu estava perdido nos pensamentos, Lara apareceu na praça.
Minha irmã vinha caminhando com uma expressão fechada. Bastou olhar para a mesa para entender o motivo.
Havia algumas mulheres por perto, conversando com Cadu.
E Lara nunca conseguiu esconder o que sentia pelo pai de Maju.
Desde menina, dizia que um dia se casaria com ele e teria filhos com aquele homem. Quando era mais nova, todo mundo achava engraçado. O problema era que ela cresceu e continuou alimentando a mesma ideia.
Na minha opinião, Cadu nunca deu abertura para esse tipo de relacionamento. Sempre foi respeitoso com ela, mas também deixou claro que não tinha interesse. Além disso, meu pai jamais aceitaria aquela situação, e Cadu parecia compreender os limites que precisavam ser respeitados.
Eu não queria me meter na vida da minha irmã, mas também não gostava de vê-la criando expectativas sobre alguém que nunca prometeu nada.
Lara se aproximou e cumprimentou os presentes. Depois, sentou-se ao lado do meu pai e começou a observar Cadu com uma atenção que me fez suspirar.
Lá vinha problema.
Mas, naquele momento, eu estava mais preocupado com outra coisa.
Maju havia se levantado para buscar uma bebida e voltava em nossa direção.
Acompanhei seus passos antes de conseguir me controlar.
Ela percebeu.
Claro que percebeu.
Parou diante de mim e inclinou a cabeça, divertida.
— Perdeu alguma coisa, Bruno?
Quase engasguei com a cerveja.
— Como assim?
— Você está me olhando faz um tempão.
Meu pai soltou uma gargalhada.
— Eu sabia! Esse menino está estranho desde que chegou!
— Pai! — reclamei.
Maju cruzou os braços, tentando conter o sorriso.
— Estranho por quê?
— Sei lá! — meu pai respondeu. — Deve estar precisando de um corte de cabelo.
— Se quiser, posso indicar um barbeiro muito bom — ela disse, olhando para mim. — Dizem que ele é um pouco convencido, mas trabalha direitinho.
— Engraçadinha!
— Obrigada. É um talento natural.
Ela se sentou novamente, satisfeita com a própria provocação.
Eu deveria ter ficado irritado.
Em vez disso, estava me divertindo como não acontecia havia muito tempo.
E comecei a perceber que não queria apenas recuperar a amizade que tínhamos antes.
Queria conhecer a mulher que Maju havia se tornado. Queria conversar com ela sem depender das lembranças da infância, descobrir seus sonhos, ouvir suas histórias e entender o que aquela presença despertava em mim.
Não sabia se ela ainda me enxergava como o garoto que conheceu tantos anos atrás.
Também não sabia se existia alguma chance de ela sentir por mim algo além de amizade.
Mas a vontade de tê-la por perto era real.
Eu queria Maju ao meu lado.
Não apenas naquela praça, entre brincadeiras e conversas com nossos pais, mas na minha vida.
Talvez fosse cedo demais para pensar nisso. Afinal, ela tinha acabado de voltar, e eu sequer sabia se estava disponível para um relacionamento.
Por isso, decidi não apressar nada.
Queria me aproximar, conversar e descobrir se ainda existia entre nós aquela conexão que parecia tão natural.
O passado fazia parte da nossa história, mas não precisava decidir o futuro.
Olhei para Maju mais uma vez.
Ela estava rindo de alguma coisa que meu pai dizia, com os olhos brilhando e o rosto iluminado por aquele sorriso que eu conhecia desde menino.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti uma vontade enorme de descobrir o que poderia acontecer dali para a frente.
Quem sabe a volta dela não fosse apenas uma oportunidade de recuperar uma amizade antiga?
Quem sabe fosse o começo de alguma coisa que nenhum de nós havia imaginado?
Eu não tinha as respostas.
Mas estava disposto a descobrir.
Continua… ❤️
