Capítulo 1 PRÓLOGO - A FESTA DA COLHEITA

A Toscana despertava coberta por tons dourados naquela manhã de setembro.

O sol ainda não havia ultrapassado completamente as colinas quando os primeiros trabalhadores já caminhavam entre as fileiras intermináveis de videiras da Vinícola Bellarosa. 

O ar carregava o perfume doce das uvas maduras misturado ao cheiro úmido da terra recém-regada durante a madrugada. Pequenas gotas de orvalho brilhavam sobre as folhas verdes como joias espalhadas pela natureza, refletindo a luz suave do amanhecer. À distância, os sinos da igreja de San Pietro ecoavam pelo vale, anunciando o início do dia mais importante do ano para toda a região.

A Festa da Vindima.

O momento em que meses de trabalho finalmente se transformavam em celebração.

Para turistas e visitantes, aquilo parecia um espetáculo encantador.

Para Bianca Ferretti, significava apenas mais horas de trabalho.

Ela já estava acordada havia quase três horas.

Os cabelos castanhos haviam sido presos em uma trança longa para evitar que atrapalhassem durante a colheita. As mangas da camisa estavam dobradas até os cotovelos, revelando braços fortes para uma mulher da sua idade. 

As mãos apresentavam pequenas marcas deixadas por anos de trabalho entre galhos, ferramentas e caixas de transporte.

Enquanto caminhava entre as videiras carregando um cesto quase cheio, sentia os músculos dos ombros protestarem pelo esforço acumulado da semana inteira.

Mesmo assim continuava. Sempre continuava. Porque na família Ferretti ninguém tinha o luxo de reclamar. Seu pai fizera questão de ensinar isso desde a infância.

— Mais rápido, Bianca! Gritou Giovanni do outro lado da plantação.

A voz firme atravessou o campo. Bianca ergueu a cabeça imediatamente. O velho Ferretti observava tudo como um general observando soldados.

Alto. Magro. Rosto endurecido pelo sol e pelos anos. Homem de poucas palavras e muitas exigências.

Ela apenas assentiu.

— Sim, papà.

Giovanni voltou ao trabalho sem responder. Aquilo não era falta de amor. Era apenas a forma como homens como ele demonstravam afeto. Ou pelo menos era o que Bianca repetia para si mesma desde criança.

Ao seu lado, Caterina Ferretti organizava os cachos colhidos dentro das caixas de transporte. A mãe possuía uma expressão mais suave, mas carregava a mesma rigidez construída por décadas de tradição.

Na pequena comunidade de San Pietro existiam regras que ninguém ousava desafiar. Filhas obedeciam aos pais. Esposas obedeciam aos maridos. E a honra da família valia mais do que qualquer sonho individual.

Bianca crescera ouvindo aquilo tantas vezes que poderia repetir as frases mesmo dormindo. Ainda assim, existia uma parte dela que sonhava. Uma parte silenciosa. Perigosa. Uma parte que despertava toda vez que observava os especialistas que visitavam a vinícola.

Toda vez que via pesquisadores discutindo novas técnicas agrícolas. Toda vez que conseguia colocar as mãos em algum livro emprestado. Ela amava aquele mundo. Não apenas as uvas. Não apenas o vinho.

Amava compreender. Aprender. Descobrir. Queria saber por que determinadas videiras produziam mais.

Por que algumas resistiam melhor à seca. Como a irrigação modificava a qualidade dos frutos. Questões que faziam seus olhos brilharem. Questões que seu pai considerava perda de tempo.

Uma mulher não precisava saber essas coisas. Precisava casar. Ter filhos. E continuar a tradição.O som de motores se aproximando interrompeu seus pensamentos. Vários veículos entraram pela estrada principal da propriedade.

Visitantes. Convidados da festa. Especialistas. Investidores. Representantes de vinícolas internacionais. A Bellarosa estava vivendo seu melhor ano em décadas.

Por isso pessoas do mundo inteiro haviam sido convidadas. Bianca voltou ao trabalho sem prestar muita atenção. Até ouvir o proprietário da vinícola anunciar um dos visitantes.

— Sua Alteza, seja muito bem-vindo à Bellarosa.

Ela ergueu os olhos automaticamente. E então o viu.

O homem caminhava ao lado do proprietário observando os vinhedos com interesse genuíno.

Era alto. Muito alto. Os ombros largos destacavam-se mesmo sob a roupa elegante. Os cabelos negros contrastavam com a pele morena dourada. O rosto possuía traços fortes e harmoniosos.

Mas foram os olhos que prenderam sua atenção. Escuros. Profundos. Atentos. Não observavam os vinhedos como um turista.

Observavam como alguém tentando compreender cada detalhe. Como alguém apaixonado pelo assunto. Bianca sentiu uma estranha tensão atravessar seu corpo. Uma pequena alteração em sua respiração.

Nada importante. Nada que significasse alguma coisa. Ainda assim, quando ele virou a cabeça naquela direção, seus olhares se encontraram. Por um único segundo.

O suficiente para que Bianca esquecesse de respirar. O suficiente para que uma sensação desconhecida apertasse seu estômago. Então ela desviou os olhos.

Rapidamente. Como se tivesse cometido algum erro. Voltou a trabalhar. Voltou a se concentrar. Voltou a fingir que nada havia acontecido. Mas alguma coisa havia.

Porque poucos minutos depois percebeu que aquele mesmo homem caminhava em sua direção.Seu coração acelerou. Involuntariamente. Ridiculamente. Ele parou diante dela. De perto era ainda mais impressionante.

A voz surgiu calma. Profunda. Com um leve sotaque.

— Você trabalha aqui?

Bianca piscou algumas vezes. A pergunta pareceu absurda. Ela estava coberta de poeira, segurando um cesto de uvas e usando roupas de trabalho.

Mesmo assim respondeu.

— Desde criança.

O homem sorriu.

E aquele sorriso teve um efeito inesperado sobre ela.

— Então provavelmente conhece esta vinícola melhor do que qualquer pessoa.

Bianca sentiu o calor subir por suas bochechas.

— Talvez.

— Nesse caso, espero que possa me ajudar.

Ela franziu a testa.

— Ajudar com o quê?

— Estou aqui para aprender tudo o que puder sobre vinhedos.

Os olhos dele percorreram a plantação.

— E tenho a impressão de que você sabe muito mais do que os livros que li.

Pela primeira vez em muito tempo, Bianca sorriu de verdade. Um sorriso espontâneo. Luminoso. Perigoso. Porque algo dentro dela parecia reconhecer aquele homem antes mesmo de conhecê-lo.

— E quem é você?

O visitante estendeu a mão.

— Amir Al-Nasir.

Ela aceitou o cumprimento.

No instante em que seus dedos tocaram os dele, uma estranha corrente elétrica percorreu seu corpo. Breve. Sutil.

Mas impossível de ignorar.

— Bianca Ferretti.

O sorriso dele se ampliou.

— Prazer em conhecê-la, Bianca.

Nenhum dos dois percebeu o silêncio que se instalou por um instante. Nenhum dos dois percebeu o início da tempestade que acabava de nascer. Ao longe, a música da Festa da Vindima começava a ecoar entre os vinhedos.

O sol subia lentamente sobre a Toscana. E o destino, paciente como sempre, dava seu primeiro passo.Porque aquela colheita não produziria apenas vinho. Produziria uma história de amor. Uma história de lágrimas.

E nenhuma das duas pessoas diante das videiras estava preparada para o que aconteceria a seguir.

No final daquela noite, tudo começaria a mudar.

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