Capítulo 2 O PRÍNCIPE ENTRE AS VIDEIRAS

O sol já estava alto quando Bianca percebeu que Amir Al-Nasir não era como os outros visitantes da Vinícola Bellarosa.

A maioria dos estrangeiros chegava à propriedade com roupas claras demais, sapatos inadequados para a terra irregular e sorrisos encantados diante dos vinhedos, como se aquela paisagem existisse apenas para enfeitar fotografias e taças de vinho servidas ao pôr do sol.

Eles elogiavam a cor das uvas, tocavam as folhas com cuidado exagerado, perguntavam sobre o sabor das safras e logo se cansavam do calor, da poeira, do peso das caixas, do cheiro forte da fermentação que escapava dos galpões.

Para eles, a vindima era uma experiência bonita, quase poética.

Para Bianca, era a vida inteira comprimida entre o cansaço dos músculos e a esperança teimosa de que cada colheita rendesse dinheiro suficiente para atravessar mais um inverno.

Amir, no entanto, observava diferente.

Ele caminhava entre as videiras com uma atenção silenciosa que a incomodava e fascinava ao mesmo tempo. Não parecia interessado apenas na beleza das colinas ou no prestígio da Bellarosa.

Seus olhos escuros se demoravam nos detalhes:

Na distância entre as plantas, na espessura dos troncos retorcidos, no tipo de solo preso às raízes aparentes, na maneira como os trabalhadores separavam os cachos menores dos mais pesados.

Quando o enólogo-chefe explicava alguma coisa, Amir escutava sem interromper, o maxilar firme, a testa levemente franzida, como se cada informação estivesse sendo guardada com um cuidado quase íntimo.

Bianca tentava não olhar.

Tentava se lembrar de que homens como ele atravessavam lugares como San Pietro apenas de passagem.

Vinham, encantavam-se, compravam algumas garrafas caras, talvez levassem uma lembrança artesanal da vila e depois desapareciam em aviões, hotéis luxuosos e países distantes.

Ela já vira muitos visitantes ricos sorrirem para as moças da colheita como se aquele sorriso fosse uma gentileza suficiente para marcar o dia delas. Não queria ser ingênua.

Não podia ser.

Seu pai dizia que uma moça pobre só tinha uma riqueza verdadeira:

O nome limpo.

E Giovanni Ferretti falava essa frase com tamanha dureza que Bianca a sentia como uma mão fechada em torno da garganta.

Ainda assim, quando Amir se aproximou outra vez, ela sentiu os dedos apertarem involuntariamente a alça do cesto.

— Posso acompanhar você por alguns minutos?  Perguntou ele, em italiano correto, mas marcado por um sotaque quente, arrastado, que tornava as palavras mais lentas.

Bianca olhou ao redor antes de responder. O pai estava alguns metros adiante, curvado sobre as videiras, mas atento como sempre.

Caterina conversava com outra trabalhadora.

O proprietário da vinícola havia se afastado dos demais convidados.

Ela sabia que deveria dizer não. Deveria abaixar a cabeça, continuar trabalhando e evitar qualquer motivo para comentário.

Mas Amir segurava um pequeno caderno de couro nas mãos e a observava com uma seriedade que não combinava com flerte vazio.

— Eu estou trabalhando. Respondeu, mantendo a voz baixa.

— Eu também.

A resposta a pegou desprevenida.

Bianca ergueu os olhos.

Amir apontou para o caderno.

— Vim aprender. O senhor Bellini disse que você participa de quase todas as etapas da produção.

— Colheita, seleção, prensagem, limpeza dos tanques, controle inicial da fermentação.

— Ele falou seu nome com respeito.

Bianca sentiu algo estranho se mover dentro do peito.

Respeito.

Era uma palavra rara quando se tratava dela. Na aldeia, diziam que era bonita, obediente, esforçada, boa para casar. Poucos diziam que era inteligente.

Menos ainda que merecia ser ouvida.

— O senhor Bellini fala demais quando quer impressionar visitantes importantes.

Um brilho divertido passou pelos olhos dele.

— E eu sou um visitante importante?

Ela percebeu tarde demais a armadilha da pergunta. O rosto aqueceu. A respiração mudou.

— Foi chamado de Alteza.

— Isso não responde.

— Responde o bastante.

Amir sorriu, mas não de forma arrogante. Havia uma suavidade naquela expressão que a desarmou mais do que deveria.

Ele abaixou o olhar por um instante, como se soubesse que sua presença a deixava desconfortável e quisesse diminuir o peso dela.

— Em Alzahir, meu país, estamos tentando desenvolver vinhedos em vales irrigados. Temos regiões áridas, montanhas frias durante a noite, solos difíceis, mas também temos água subterrânea e tecnologia.

— Quero entender como uma terra fala com a videira antes de tentar obrigar a videira a falar com a nossa terra.

Bianca ficou imóvel.

A frase entrou nela com uma força inesperada.

Não era apenas bonita.

Era verdadeira.

Ela conhecia agricultores que tratavam a terra como inimiga, como algo a ser vencido. Mas o vinho bom, o vinho vivo, nascia exatamente do contrário.

Nascia de escuta.

De paciência.

De saber que cada uva carregava no sabor a história do lugar onde amadureceu.

— A terra não gosta de arrogância. Disse ela, antes de conseguir impedir.

Amir a fitou com atenção renovada.

— Explique.

Bianca hesitou.

O cesto pesava contra seu quadril. O sol aquecia sua nuca. O som das tesouras cortando os cachos preenchia o ar ao redor deles.

Ela deveria continuar calada.

Uma filha de camponeses não ensinava príncipes.

Mas havia algo nos olhos dele, uma espécie de fome silenciosa por conhecimento, que tocava a parte mais escondida dela.

— Muitas pessoas acham que basta irrigar, adubar, podar e esperar. Mas a videira responde ao excesso como responde à falta. Água demais enfraquece a concentração da fruta. Sombra demais impede o amadurecimento certo.

— Solo rico demais pode fazer a planta crescer bonita e preguiçosa, cheia de folhas, mas com pouco sabor.

— A uva precisa sofrer um pouco para concentrar a alma.

Amir não escreveu imediatamente. Ficou olhando para ela. E esse olhar fez Bianca sentir o próprio corpo de maneira incômoda:

O suor na base da garganta, a poeira nos pulsos, a trança pesando nas costas, o coração batendo rápido demais.

— Concentrar a alma. Repetiu ele, baixo.

Ela desviou os olhos.

— É só uma forma de falar.

— É a melhor explicação que ouvi desde que cheguei à Itália.

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