Capítulo 3 A NOITE DA VIDIMA

A mão de Amir estava quente. Foi esse o primeiro pensamento que atravessou a mente de Bianca enquanto ele a conduzia para o centro do pátio iluminado, onde a Festa da Vindima parecia ter alcançado seu momento mais bonito. 

Centenas de pequenas luzes douradas pendiam entre as árvores e as estruturas de madeira erguidas para a celebração, espalhando reflexos sobre as mesas repletas de convidados. 

O aroma do vinho jovem misturava-se ao pão recém-assado, às ervas frescas, à carne preparada lentamente e ao perfume das flores que decoravam a praça da vinícola. 

Os músicos tocavam uma antiga canção italiana, dessas que pareciam ter nascido junto com as próprias colinas da Toscana, mas Bianca mal conseguia prestar atenção em qualquer coisa além do homem que caminhava ao seu lado. 

Seu coração batia depressa, sua respiração estava irregular e os dedos tremiam discretamente dentro da mão dele, apesar de todos os esforços que fazia para parecer tranquila.

Nada daquilo fazia parte da vida que conhecia. 

Bianca jamais havia dançado com um príncipe e, pensando melhor, nunca esteve tão próxima de homem algum sem a vigilância da família. 

Em San Pietro, os bailes eram acompanhados pelos olhos atentos dos pais, as jovens aprendiam cedo a conservar distância e qualquer aproximação considerada excessiva podia alimentar comentários durante semanas. 

Giovanni Ferretti fizera questão de ensinar à filha que uma família pobre possuía poucas riquezas e que, para uma mulher, a reputação era uma delas. 

Bianca cresceu ouvindo aquilo. Aprendeu a baixar os olhos, medir as palavras, esconder vontades e controlar até mesmo a maneira como sorria diante de um rapaz. 

Porém, quando Amir parou diante dela e seus olhos escuros encontraram os seus, todas aquelas lições parecem perder força.

— Você está nervosa. Observou ele, e não havia ironia em sua voz, apenas uma suavidade que tornou ainda mais difícil para Bianca esconder o que sentia.

Ela soltou uma risada baixa e apertou os lábios, tentando reunir alguma dignidade.

— Muito. E provavelmente deveria ter mentido e dito que não.

— Por quê?

— Porque agora você sabe que estou pensando em cada movimento antes de fazê-lo. Onde colocar a mão, para onde olhar, quantos passos dar sem pisar no seu pé...

Amir riu, e aquele som descontraído pareceu torná-lo ainda menos parecido com o príncipe que chegara à Bellarosa cercado de formalidades.

— Então estamos em situação semelhante.

Bianca ergueu as sobrancelhas.

— Não acredito.

— Está me chamando de mentiroso?

— Estou dizendo que você parece o homem mais seguro que já conheci. Desde que chegou aqui, entra em qualquer lugar como se soubesse exatamente o que fazer, o que dizer e até onde olhar. 

—Não consigo imaginar você nervoso por causa de uma dança.

O sorriso dele diminuiu, tornando-se mais íntimo.

— Isso acontece porque fui treinado durante anos para parecer seguro mesmo quando não estou. Um príncipe aprende cedo a manter os ombros firmes, controlar a expressão e falar como se nenhuma dúvida pudesse alcançá-lo. A verdade costuma ser bem menos impressionante.

— Então você está nervoso?

— Estou dançando com uma mulher que conseguiu me fazer esquecer uma reunião inteira porque passei metade dela pensando numa conversa sobre raízes e irrigação. 

—Tire suas próprias conclusões.

Bianca sentiu o rosto aquecer e desviou os olhos, mas não conseguiu impedir o sorriso.

A música tornou-se mais lenta, e Amir pousou uma das mãos em sua cintura com um cuidado quase cerimonioso, permitindo que ela percebesse o gesto antes de aproximá-la. 

Bianca prendeu a respiração. Não havia possessividade ou malícia naquele contato, apenas firmeza e uma delicadeza que a desarmava. 

Colocou a mão sobre o ombro dele e permitiu que os primeiros passos acontecessem. 

Amir conduzia sem tentar dominar seus movimentos, adaptando-se ao ritmo dela sempre que percebia alguma hesitação, e aos poucos Bianca deixou de contar mentalmente os passos. 

A tensão em seus ombros diminuiu, embora seu coração continuasse acelerado pela proximidade.

— Você sempre viveu em San Pietro? Perguntou Amir depois de algum tempo.

— Desde que nasci.

— Nunca saiu?

— Algumas vezes para cidades próximas. Nada que possa ser chamado de viagem.

— E nunca desejou conhecer outros lugares?

A pergunta atingiu uma região delicada dentro dela.

— Desejar e poder são coisas muito diferentes.

Amir percebeu imediatamente a mudança em sua expressão.

— Você pensa em partir.

Bianca hesitou antes de responder.

— Penso em estudar. Talvez seja diferente.

— Diferente como?

— Quando uma pessoa diz que quer partir, parece que está fugindo. Eu não quero fugir da minha família nem sentir vergonha do lugar onde nasci. 

—Quero aprender. Quero entrar numa universidade, estudar agronomia, compreender realmente a terra em vez de repetir apenas aquilo que aprendemos com nossos pais e avós. 

—Gostaria de trabalhar com viticultura, conhecer regiões diferentes, estudar irrigação, clima, doenças das videiras... 

Ela interrompeu a própria fala e soltou uma pequena risada constrangida. 

— Veja só. Você perguntou se eu queria viajar e eu transformei a resposta numa palestra.

— E eu estava esperando que continuasse.

Bianca fitou-o por alguns segundos.

— Para você parece simples.

— O quê?

— Estudar. Viajar. Escolher.

Amir não respondeu imediatamente.

— Não é simples para você.

— Realizar sonhos custa dinheiro. 

—Na minha casa, dinheiro significa decidir se compramos uma ferramenta nova ou consertamos uma antiga, se podemos guardar alguma coisa depois da colheita ou se tudo será usado para pagar o que devemos. 

—Quando se cresce assim, até sonhar precisa caber no orçamento.

A mandíbula de Amir se contraiu discretamente. Bianca percebeu que ele não tentaria oferecer uma resposta fácil, e isso a surpreendeu.

— Você fala muito sobre dinheiro. Disse ele, mas sem qualquer julgamento.

— Porque a falta dele participa de praticamente todas as decisões da minha vida.

— Eu nunca precisei escolher entre comprar um livro e comprar pão.

Bianca ergueu os olhos imediatamente.

Amir continuou:

— Portanto, seria arrogante da minha parte fingir que compreendo completamente o que você está dizendo. 

—Posso escutar. Posso tentar entender. Mas não vou insultá-la dizendo que sei como é.

A sinceridade daquela resposta a atingiu de maneira inesperada.

— A maioria das pessoas ricas tentaria me convencer de que dinheiro não importa.

— Essas pessoas provavelmente nunca viveram sem ele.

Bianca sorriu.

— Finalmente alguma coisa sobre a qual concordamos sem discutir.

— Eu estava começando a gostar das nossas discussões.

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