Capítulo 4 A NOITE DA VIDIMA 2
A música continuou envolvendo os dois, e por alguns instantes Bianca permitiu-se apenas acompanhá-lo.
Quanto mais conversavam, mais difícil se tornava enxergar Amir apenas como um príncipe.
Havia cansaço atrás da postura impecável, hesitações que surgiam quando falava sobre Alzahir e uma tristeza discreta que parecia atravessar seus olhos sempre que a conversa tocava no futuro.
— Posso perguntar uma coisa? Bianca murmurou.
— Depois de tudo que já me perguntou sobre irrigação, acho que sobrevivo.
Ela sorriu, mas logo ficou séria.
— Por que você parece triste quando fala da sua vida?
Amir perdeu o sorriso.
Por alguns segundos, continuou dançando sem responder. Bianca chegou a pensar que havia ultrapassado um limite.
— Desculpe. Não deveria ter perguntado.
— Não. Os dedos dele se ajustavam discretamente em sua cintura.
— Talvez eu apenas não esteja acostumado a alguém perceber.
Bianca permaneceu em silêncio.
— Em Alzahir, muitas pessoas imaginam que nascer dentro de um palácio significa possuir todas as escolhas. Continuou ele.
— Na realidade, algumas escolhas desaparecem justamente no instante em que você nasce. Meu futuro não pertence apenas a mim.
—Existem responsabilidades com o reino, acordos, famílias, tradições.
—Há decisões que um homem comum pode tomar pensando apenas no próprio coração, enquanto um príncipe precisa pensar no que aquela decisão fará com milhares de pessoas.
— Inclusive com quem vai se casar?
A pergunta saiu antes que Bianca pudesse detê-la.
Os olhos de Amir encontraram os seus.
— Inclusive.
Algo desconfortável apertou o peito dela, embora não tivesse direito algum de sentir aquilo.
— Então a riqueza também pode ser uma prisão.
— Pode comprar uma prisão muito bonita. Respondeu Amir, com um sorriso triste.
— Com jardins, mármore, fontes e portas enormes. Continua sendo uma prisão se nenhuma dessas portas leva para onde você deseja ir.
Bianca diminuiu ligeiramente os passos. A frase encontrou nela uma compreensão profunda demais.
— Talvez sejamos mais parecidos do que imaginamos.
— Também pensei nisso.
— Minha prisão não tem palácio.
— Como ela é?
Bianca respirou lentamente.
— É uma casa pequena onde amo as pessoas que vivem comigo, mas onde todos já decidiram quem devo ser.
—É ouvir que deveria me sentir satisfeita porque tenho comida, trabalho e uma família respeitável. É saber que meu pai me ama e, ao mesmo tempo, ter medo de contar a ele aquilo que realmente desejo.
—É pensar numa universidade e imediatamente lembrar que provavelmente acabarei me casando com algum homem da região, trabalhando ao lado dele e repetindo a vida da minha mãe.
—Talvez eu seja ingrata por querer mais.
Amir parou de dançar por um breve instante.
— Não diga isso.
Bianca franziu a testa.
— O quê?
— Que desejar uma vida escolhida por você é ingratidão. Amar sua família não exige que você enterre tudo aquilo que existe dentro de você.
Ela sentiu os olhos arderem.
— Você fala como se fosse fácil acreditar nisso.
— Não é. Amir voltou a conduzi-la suavemente.
— Talvez seja justamente por isso que alguém precise dizer até que você consiga acreditar sozinha.
Bianca desviou o rosto, emocionada demais para sustentar seu olhar.
Durante anos, seus sonhos haviam sido tratados como caprichos juvenis que desapareceriam quando chegasse a hora de assumir as responsabilidades de uma mulher.
Amir, entretanto, escutava como se aquelas ambições fossem legítimas.
Não lhe prometia resolver sua vida, não diminuía suas dificuldades e tampouco a tratava como alguém que precisava ser salva.
Apenas reconhecia que seus sonhos existiam e que tinham valor.
Quando a conversa voltou para Alzahir, Bianca pediu que ele descrevesse o reino não como aparecia nos jornais ou como seria apresentado a um visitante importante, mas como ele próprio o enxergava.
Amir falou das montanhas que adquiriam tonalidades vermelhas ao pôr do sol, das noites em que o deserto parecia coberto por um oceano de estrelas, dos jardins internos onde pequenos canais de água atravessavam pedras claras e das regiões onde agricultores lutavam para arrancar vida de uma terra aparentemente impossível.
Seus olhos se iluminaram ao explicar os projetos de irrigação e a possibilidade de cultivar uvas em determinados vales, e Bianca percebeu que aquela era a parte dele que mais se aproximava dela:
Ohomem que desejava construir algo que sobrevivesse ao título.
— Parece lindo. Murmurou Bianca.
— É.
— Você sente saudade?
Amir pensou antes de responder.
— Sinto da terra. Das montanhas. De algumas pessoas. Mas às vezes tenho medo de voltar e descobrir que o príncipe ocupou tanto espaço que quase não sobrou lugar para o homem.
Bianca sustentou o olhar dele.
— Talvez o homem ainda esteja aí.
— Como pode ter tanta certeza?
Ela sorriu suavemente.
— Porque estou dançando com ele.
Dessa vez, Amir não respondeu.
Apenas a observou.
E foi naquele silêncio que Bianca percebeu o verdadeiro perigo. Não era o título dele, nem sua riqueza, nem mesmo a distância absurda entre Toscana e Alzahir.
O perigo estava na facilidade com que aquele homem conseguia fazê-la sentir-se compreendida.
A beleza poderia ser esquecida, a atração poderia diminuir, uma festa terminaria ao amanhecer.
Mas ser vista depois de passar a vida inteira aprendendo a desaparecer era algo que Bianca não sabia como esquecer.
Ao redor deles, a Festa da Vindima continuava vibrante, cheia de música, vinho e celebração.
Porém, enquanto Amir retomava lentamente os passos da dança e Bianca permanecia entre seus braços, os dois pareciam ter criado um pequeno espaço onde títulos, pobreza e deveres haviam perdido temporariamente a importância.
Naquele instante, eram apenas duas pessoas descobrindo que, embora tivessem nascido em extremos opostos do mundo, conheciam a mesma sensação de viver uma vida que outros haviam escolhido por elas.
E essa descoberta aproximava os dois muito mais do que Bianca estava preparada para admitir.
