Capítulo 5 QUANDO O AMOR ESTÁ NO AR

Horas depois, quando a música já havia mudado dezenas de vezes e boa parte dos convidados começava a demonstrar os efeitos do vinho, Bianca percebeu que Amir também havia bebido mais do que deveria. 

Nada exagerado ou escandaloso, mas suficiente para suavizar a rigidez elegante que parecia acompanhá-lo desde que chegara à Bellarosa.

 Havia um brilho diferente em seus olhos escuros, uma leveza nova em seus sorrisos e uma sinceridade desarmante na forma como a observava. 

Pela primeira vez durante toda a noite, ele parecia menos um príncipe cercado por protocolos e mais apenas um homem desfrutando de algumas horas de liberdade.

— Você deveria descansar. Comentou Bianca, tentando ignorar a maneira como seu coração acelerava sempre que ele sorria.

Amir arqueou uma sobrancelha.

— Está me expulsando?

Ela balançou a cabeça, divertindo-se apesar do nervosismo.

— Estou preocupada.

O sorriso dele surgiu imediatamente.

Aquele sorriso.

O mesmo que parecia atravessar todas as suas defesas.

— Isso é perigoso.

— O quê?

— Você se preocupar comigo.

Bianca desviou os olhos, fingindo interesse em uma mesa próxima. Mas a verdade era que já não conseguia esconder o efeito que Amir exercia sobre ela. 

O problema era justamente esse.

 Tudo havia começado de forma tão simples. Algumas perguntas sobre vinhedos. Conversas sobre uvas e colheitas. Trocas de ideias que deveriam ter permanecido inocentes. 

No entanto, sem perceber, ela começara a esperar encontrá-lo. A procurar seu rosto entre as pessoas. 

A sorrir quando o via aproximar-se. E agora ele ocupava seus pensamentos de uma forma que a assustava.

A noite avançava lentamente sobre as colinas da Toscana. As estrelas brilhavam intensamente acima dos vinhedos, espalhadas pelo céu como diamantes sobre veludo escuro. 

A música continuava ecoando pelo pátio da vinícola, misturando-se às risadas, aos brindes e ao som das taças que se chocavam em celebração. 

Em qualquer outro ano, Bianca estaria ocupada servindo vinho, ajudando a mãe ou recolhendo pratos. 

Mas naquela noite tudo parecia diferente. 

Seu corpo permanecia ali, entre os convidados, mas sua atenção estava presa a um único homem.

Foi Amir quem sugeriu a caminhada.

— Apenas alguns minutos.

Ela deveria ter recusado imediatamente.

Sabia disso.

Conhecia todas as razões para dizer não.

Sabia o que a mãe pensaria.

Sabia o que o pai faria se descobrisse.

Sabia o que a vila inteira comentaria caso alguém os visse sozinhos.

Mas, mesmo sabendo de tudo isso, não encontrou forças para negar.

Os dois seguiram por uma pequena trilha de terra que serpenteava entre as videiras. A cada passo que davam, a música da festa ficava mais distante. 

As vozes desapareciam. As luzes tornavam-se pequenas manchas douradas atrás deles. 

Em pouco tempo, restaram apenas o perfume adocicado das uvas maduras, o som suave dos grilos escondidos entre as folhas e a brisa fresca da noite deslizando sobre a pele.

Bianca sentia a presença de Amir ao seu lado de maneira quase dolorosa. Não estavam se tocando, mas havia algo na proximidade dele que tornava cada respiração consciente demais. 

Ela percebia o som de seus passos. O movimento de seus ombros. O calor discreto que parecia acompanhá-lo mesmo sob o ar fresco da noite.

Quando alcançaram uma parte mais elevada da propriedade, Bianca parou.

Dali era possível enxergar toda a Vinícola Bellarosa.

As luzes espalhadas pelo pátio pareciam estrelas derramadas sobre a terra. As mesas iluminadas destacavam-se entre os vinhedos escuros. 

Ao longe, a música ainda podia ser ouvida como um eco suave carregado pelo vento.

Por alguns instantes ela simplesmente observou a paisagem.

— É lindo.

A resposta veio atrás dela.

Baixa.

Quase um sussurro.

— Sim.

Mas havia algo diferente naquele tom.

Algo que fez seu coração disparar.

Porque Amir não estava olhando para a vinícola.

Estava olhando para ela.

Lentamente, Bianca virou-se.

Os olhos deles se encontraram.

E dessa vez ninguém desviou.

O silêncio que se instalou pareceu crescer ao redor dos dois, tornando-se quase palpável. Não era um silêncio vazio. 

Pelo contrário. 

Estava carregado de perguntas não feitas, sentimentos não confessados e desejos que nenhum dos dois deveria alimentar. 

Bianca sabia que precisava dizer alguma coisa. Precisava dar um passo para trás. Precisava lembrar quem ele era. Um príncipe. Um homem destinado a um mundo que jamais seria o seu.

Mas seu corpo parecia incapaz de obedecer.

Porque pela primeira vez em toda a sua vida alguém a observava daquela maneira.

Não como a filha obediente de Giovanni Ferretti.

Não como uma trabalhadora da colheita.

Não como uma moça simples de uma pequena vila italiana.

Amir a observava como se ela fosse extraordinária.

Como se fosse importante.

Como se fosse a única pessoa existente naquele lugar.

A mão dele ergueu-se lentamente.

Bianca poderia ter recuado.

Poderia ter interrompido aquele momento.

Mas permaneceu imóvel.

Os dedos de Amir tocaram uma mecha de cabelo que escapara de sua trança. 

O gesto foi simples, quase inocente, mas suficiente para fazer um arrepio percorrer sua pele inteira. Sua respiração falhou. 

Os lábios se entreabriram involuntariamente. E, naquele instante, ela percebeu que já estava perigosamente envolvida.

— Posso?

A pergunta saiu baixa.

Quase inaudível.

E foi justamente aquilo que a destruiu.

Porque Amir não exigiu.

Não tomou.

Não invadiu.

Ele pediu.

Como se sua vontade importasse.

Como se sua escolha tivesse valor.

Como se ela tivesse valor.

Bianca sabia que deveria dizer não.

Sabia que sua mãe estava certa.

Sabia que o pai jamais perdoaria.

Sabia que aquela decisão poderia mudar tudo.

Mas, naquele momento, a parte dela que passara anos obedecendo às regras parecia distante.

 Restava apenas a jovem mulher que queria ser vista. Que queria ser escolhida. 

Que queria acreditar, nem que fosse por uma única noite, que merecia algo além da vida que lhe haviam destinado.

Então ela não respondeu.

Apenas permaneceu ali.

E Amir entendeu.

Ele aproximou-se devagar, dando-lhe tempo para recuar. 

Tempo para fugir. 

Tempo para negar. 

Mas ela não fez nada disso. Continuou parada, observando-o se aproximar até que a distância entre os dois desaparecesse completamente.

Quando os lábios dele tocaram os seus, Bianca sentiu o mundo desaparecer.

Não havia mais música.

Não havia mais vinhedos.

Não havia mais pobreza.

Não havia mais tradição.

Nem medo.

Nem futuro.

Apenas aquele beijo.

Suave no início.

Cuidadoso.

Como se Amir estivesse perguntando novamente se ela realmente o queria ali.

E quando Bianca correspondeu, tudo mudou.

Os sentimentos reprimidos durante dias explodiram de uma só vez. Ela segurou a camisa dele. 

Amir a puxou para mais perto. O calor entre os dois tornou-se impossível de ignorar. 

O beijo aprofundou-se lentamente, carregado de emoções que nenhum deles conseguiam mais esconder. 

Havia desejo, sim. Mas havia também ternura. Admiração. Encantamento. Algo muito mais perigoso do que simples atração.

Quando finalmente se afastaram, Amir encostou a testa na dela.

As respirações dos dois estavam aceleradas.

Irregulares.

Tremendo.

— Bianca...

O modo como pronunciou seu nome fez seu coração apertar.

Porque não era apenas desejo.

Era algo mais.

Algo que ela não ousava nomear.

Algo que a assustava profundamente.

— Eu deveria ir embora.

Sua voz saiu baixa e frágil.

Amir fechou os olhos por um instante, como se estivesse travando uma batalha silenciosa contra si mesmo. Talvez lutasse contra o dever. 

Talvez contra o destino. Talvez contra os sentimentos que cresciam rápido demais.

Quando voltou a abrir os olhos, a intensidade que encontrou ali roubou completamente sua capacidade de pensar.

— Eu sei.

Mas ele não se afastou.

E Bianca também não.

Permaneceram ali, suspensos entre o certo e o errado, entre o dever e o desejo, entre a razão e a emoção. 

Ao longe, a festa continuava. San Pietro ainda existia. Giovanni ainda existia. As regras continuavam as mesmas.

Mas, entre aquelas videiras banhadas pelo luar, tudo parecia pequeno diante da força daquele instante.

E, pela primeira vez em sua vida, Bianca escolheu não ouvir o medo.

Sem imaginar que aquela escolha mudaria seu destino para sempre.

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