Capítulo 2 Ele
Liana
Terminei de me arrumar acrescentando apenas o perfume. Amo andar cheirosa; é um dos elogios que mais gosto de receber.
Talvez porque seja uma das poucas coisas que ainda consigo controlar. Enquanto borrifava no pulso, percebi que o frasco já estava quase vazio. Assim como quase tudo naquela casa. Assim como, às vezes, eu.
Desci a pequena escada de cimento — seis degraus gastos pelo tempo — que ligava o andar de cima ao de baixo. A casa do tio seguia o mesmo padrão da maioria daqui: uma construção sobre a outra, encaixada no espaço que deu. Ele reformou quando ainda trabalhava e ganhava melhor.
Rebocou as paredes, levantou mais um quarto e construiu um banheiro pequeno no térreo. Disse que era para mim.
Hoje, a casa tem dois quartos e um banheiro em cima. Embaixo, sala, cozinha e o banheiro dele. Quando cheguei aqui, anos atrás, nada disso existia. As paredes eram cruas, sem cor, e eu dormia em um canto improvisado. Agora tudo era pintado de um verde já desbotado, com janelas cinzas igualmente apagadas pelo tempo. Ainda assim, eu achava a casa bonita.
Principalmente quando lembro de como era antes.
Aqui, tudo precisa seguir regras próprias: material barato, leve o suficiente para ser carregado nas costas e pequeno o bastante para passar pelas vielas estreitas. Tijolos, concreto, lajes simples e telhas de amianto.
As janelas são pequenas, feitas mais para resistir ao sol e à chuva do que para deixar a luz entrar. Por isso, quase todas as casas são um pouco escuras por dentro.
No começo, eu não enxergava nada disso. Estava machucada demais para observar.
Só depois, quando comecei a me recompor, percebi a lógica daquele lugar. Uma confusão organizada. Casas empilhadas como ondas, ocupando cada espaço possível. Ruas estreitas, becos, escadarias íngremes, fios elétricos entrelaçados no alto. Um mundo completamente diferente do que eu conhecia — e ao qual fui obrigada a me adaptar.
Depois de um tempo, entendi: a favela tem suas próprias regras, seus próprios códigos. E quem não aprende… não sobrevive.
Tio Pedro estava sentado à mesa da cozinha, assistindo à televisão da sala.
Como os dois cômodos ficam lado a lado, dava para ver tudo. Ele não trabalhava naquele dia — só saía quando tinha jogo importante.
Liana: você quer café? — perguntei, mesmo sabendo a resposta. Ele tinha gritado comigo justamente por isso.
Hoje em dia, ele se irritava com qualquer coisa. Com qualquer palavra minha. Eu tinha deixado de ser sobrinha há muito tempo e virado algo parecido com uma funcionária particular.
Pedro: quero, claro — respondeu mal-humorado.
Abri gavetas e portas do armário, ainda com a esperança idiota de encontrar alguma coisa esquecida. Não havia nada.
Nunca havia. Fiz o café mesmo assim e servi nós dois.
Ele me observou com as sobrancelhas arqueadas.
Pedro: cadê o biscoito? O pão? Qualquer coisa pra comer? — perguntou, dessa vez sem gritar.
Respirei fundo. Às vezes, eu tinha vontade de gritar. De verdade. Mas engolia tudo.
Liana: tio… já faz dias que não tem nada. O armário tá vazio.
Pedro: e você não comprou? — perguntou como se fosse óbvio.
Senti algo apertar dentro de mim.
Liana: como assim eu não comprei? Eu ganho quatrocentos reais por mês, tio Pedro. Não dá nem pras minhas coisas básicas. Eu pago contas, mercado… coisas que deveriam ser responsabilidade sua. O senhor gasta tudo com droga.
As palavras saíram antes que eu pudesse impedir.
O olhar dele mudou. Ficou pesado. Tempestuoso.
Pedro: como você se atreve, sua pirralha mal-educada? — levantou da cadeira — Você comeu do bom e do melhor a vida toda às minhas custas! Agora vem me cobrar? Você é uma vagabunda ingrata!
O tapa veio rápido. Seco. Pegou em cheio no lado esquerdo do meu rosto.
Doeu. Mas não foi só a mão. Foram as palavras.
Ele já tinha me empurrado antes. Já tinha me batido nos braços. Mas nunca no rosto. Nunca daquele jeito. Eu preferia mil vezes os empurrões do que aquilo.
Liana: eu não tô dizendo isso… — falei, repetindo mentalmente que não podia chorar. Inspirei fundo. — Eu só… eu tenho problemas, tio. Eu preciso passar no Enem. O senhor sabe o quanto eu me esforço. Sempre quis ser médica. Eu quero melhorar nossa vida. Mas isso exige dinheiro, esforço… e eu não consigo sozinha.
Pedro: então trate de arrumar um emprego — disse indiferente. — Você já tá quase maior. Eu não tenho obrigação nenhuma.
Liana: eu sempre fui só uma obrigação pra você, né? — a pergunta saiu magoada demais.
Pedro: e o que mais seria?
Meu peito apertou.
Liana: eu fiz dezessete anos agora. Ainda sou menor. Falta tempo pra eu fazer dezoito… tempo que eu não tenho.
Pedro: e o que você quer que eu faça? — cortou, irritado.
Liana: eu só preciso de ajuda… — minha voz falhou. — Não posso pedir pra tia Suzane de novo. Não dá pra continuar assim.
Pedro: se não tá satisfeita, vai embora. Procura outro lugar e se vira — disse, já subindo as escadas. — Eu já fiz muito por você.
Fiquei parada, tentando entender.
Ir embora.
Pra onde?
As lágrimas finalmente caíram. Deixei cair. Porque segurar tudo estava me matando por dentro.
E, pela primeira vez, a ideia de não ter para onde ir começou a se transformar em algo ainda pior:
a ideia de que talvez eu fosse obrigada a aceitar qualquer saída que aparecesse.
De acordo com as minhas muitas sessões de terapia, chorar é necessário. O choro produz uma espécie de analgésico natural no corpo, liberando hormônios como a ocitocina e a endorfina, que ajudam a amenizar dores físicas e emocionais. Esses detalhes não me foram explicados na terapia, mas, como alguém que ama tudo relacionado à saúde e à anatomia, eu gosto de estudar. Mesmo sem precisar. Pelo menos, não por enquanto.
Engoli o choro e sequei as lágrimas como pude, cuidando para que a maquiagem não escorresse. Tomei meu café — não que fosse encher meu estômago, mas ao menos me daria energia. Eu ia precisar.
Saí de casa e comecei a descer o morro. Letícia e eu estudávamos fora da favela, por insistência da tia Suzane, que dizia ser mais seguro. Desde então, Letícia me esperava todos os dias para descermos juntas. Como de costume, ela estava lá. Avisei-a de longe, reparando no jeito impaciente com que consultava o relógio no pulso.
Letícia: Caramba, Liana. Demorou, hein? Já achei que você não vinha hoje — reclamou.
Liana: Bom dia pra você também — respondi com deboche enquanto descíamos — Tive um pequeno contratempo em casa.
Letícia: Contratempo de quê? — arqueou a sobrancelha — DJ?
Referia-se, sem pudor algum, à masturbação.
Liana: Tsc — fiz em reprovação — Cala a boca. Você é degenerada.
Letícia: Ei, vem cá… — puxou meu queixo, observando meu rosto — Ih, amiga… tu exagerou no blush. Tá parecendo que levou um tapa.
Meu sorriso morreu na hora. Não consegui disfarçar. O desconforto tomou conta do meu corpo.
Letícia: O que foi, Lana? — perguntou, usando o apelido carinhoso.
Liana: Tio Pedro — respondi baixo, torcendo para que ela não perguntasse mais.
Letícia: Ele te bateu de novo? — a indignação veio imediata — Filho da puta. Vou falar com os meninos. Ele vai aprender rapidinho.
Liana: Não, Lê. Você sabe que eu morro de medo desses caras — falei, já sentindo o coração acelerar.
Letícia: Mas aqui dentro eles fazem o certo. A gente pode falar com o Felipe. Isso não é normal, amiga.
Liana: Nem pensar. E se eles matam meu tio? — sussurrei, apavorada.
Letícia: A gente pede pra eles não matarem e—
Liana: Tá maluca? Não! — cortei, sentindo o ar faltar — Só de pensar nessas armas enormes… eu…
Minha respiração desandou. Letícia parou comigo a algumas quadras da escola.
Letícia: Calma, calma… desculpa. A gente não vai fazer nada, tá?
Assenti, tentando me recompor. O medo das armas sempre foi assim comigo: irracional, sufocante.
Seguimos em silêncio até a escola. O clima ficou estranho, pesado. Eu entendia a revolta dela. Às vezes, eu mesma odiava meu tio. Mas violência nunca me pareceu resposta.
As horas passaram arrastadas. Quando o sinal tocou, quase chorei de alívio.
Avisei Letícia que não voltaria com ela. Ia entregar currículos.
Letícia: Então eu vou com você — disse, já andando.
E foi como sempre: ela não aceitou não.
Depois de horas andando, exaustas, resolvemos voltar. Sexta-feira. Talvez o fim de semana me desse um pouco de paz.
Letícia: Vamo tomar um sorvete?
Liana: Tô dura — confessei.
Letícia: Para de besteira. Eu pago. Troca de roupa e come alguma coisa. Já desço.
Subi o morro sozinha. Em casa, como sempre, meu tio não estava. Tomei um banho demorado, deixei a água gelada levar um pouco do peso do dia. Me vesti simples, me arrumei como deu, com o cuidado de quem não quer chamar atenção — mas acaba chamando.
Quando Letícia me chamou lá embaixo, desci.
Letícia: Tá gostosa, hein, mandada!
Liana: Você também não tá nada mal — brinquei.
Seguimos até o armazém.
Letícia: Vou comprar bombom pra trocar o dinheiro. Dona Jura nunca tem troco.
Ri. Ela nunca tinha mesmo.
Foi então que meus olhos atravessaram a rua quase por instinto.
A boca de fumo estava ali como sempre, discreta demais para algo tão errado. Um barraco diferente dos outros, organizado, pintado de preto. O portão fechado. Um homem alto fazia a contenção, apoiado de forma relaxada demais para quem segurava uma arma daquele tamanho. Só aquela visão já me deixou inquieta.
Três homens saíram de dentro.
Reconheci Felipe de imediato. O segundo eu não conhecia.
O terceiro fez o ar ao meu redor mudar.
Terror.
O apelido nunca me pareceu exagero, mas também nunca pareceu suficiente. Ele tinha algo que não era só físico — era presença. Uma presença que empurrava o espaço, que fazia a gente perceber o próprio corpo de um jeito estranho, quase defensivo.
Ele andava devagar, seguro, como se nada ali pudesse ameaçá-lo. O maxilar sempre tenso, os olhos escuros atentos demais. Não havia sorriso, nem sombra de simpatia. Só aquela expressão fechada, como se estivesse sempre pensando em algo que ninguém mais tinha o direito de saber.
E, ainda assim… bonito.
De um jeito que incomodava admitir.
Quando percebi, eu estava olhando. Não de forma descarada — pelo menos eu achei que não. Mas olhando como quem tenta entender algo perigoso demais para ser ignorado.
E então os olhos dele vieram até mim.
Não foi rápido. Não foi agressivo. Foi lento.
Como se ele tivesse sentido o meu olhar antes mesmo de me encarar.
Senti o estômago revirar. Meu corpo inteiro reagiu antes da minha cabeça. Um frio descendo pela espinha, o coração batendo errado, a sensação absurda de estar sendo lida por alguém que não deveria saber nada sobre mim.
Ele me olhava como se perguntasse algo sem palavras.
Como se eu tivesse feito uma pergunta primeiro.
Aquele olhar não tinha curiosidade comum.
Era atento demais. Firme demais. Como se estivesse avaliando, medindo, decidindo se eu merecia ou não existir naquele mesmo espaço que ele.
Desviei o rosto rápido, sentindo o calor subir pelas bochechas. Ridículo. Eu nem sabia por quê.
Quando criei coragem para olhar de novo, ele já não estava mais focado em mim.
Conversava com Felipe, como se nada tivesse acontecido.
Mas eu sabia que tinha.
Meu corpo ainda sabia.
Letícia: Bora — cochichou do meu lado — Ai, meu Deus… ele tá vindo pra cá. Age normal.
Virei o rosto depressa, o coração disparado, só para perceber que não era ele. Era Felipe.
Ainda assim, levei alguns segundos para voltar ao meu próprio corpo.
Enquanto Felipe falava com a gente, senti o barulho da moto antes mesmo de vê-la.
Terror subiu nela com naturalidade, como se a máquina fosse extensão dele. Deu partida devagar, passando perto demais.
Não olhou.
Ou fingiu não olhar.
Mas tive a estranha certeza de que, mesmo sem virar o rosto, ele sabia exatamente onde eu estava.
A moto se afastou, levando com ela aquela sensação pesada que ficou no ar — e dentro de mim.
Fiquei olhando até desaparecer na esquina.
E odiei o quanto isso me afetou.
Felipe: iae, meninas — cumprimentou, se aproximando com aquele sorriso fácil de sempre. — Tudo tranquilo?
Liana: oi, Felipe — respondi, tentando soar normal, embora ainda sentisse o corpo meio tenso.
Felipe: tudo susse, ruiva — disse, mas o olhar escapou rápido para Letícia.
Ela, curiosamente, parecia diferente. Mais quieta. Os ombros levemente tensos, as mãos inquietas demais para alguém que sempre tinha resposta pra tudo.
Felipe: e você, moreninha? — falou com ela. — Tudo certo por aí?
Letícia: ah… tudo — respondeu, meio sem graça. — Normal.
Se normal significasse visivelmente nervosa.
Deixei escapar um risinho baixo. Era até bonitinho ver Letícia daquele jeito, completamente fora do personagem seguro que ela costumava vestir.
Felipe: qualquer coisa, vocês sabem onde me achar — disse, já dando um passo para trás.
Ele estendeu a mão primeiro para Letícia.
O toque durou um segundo a mais do que o necessário. Depois, fez um cumprimento rápido comigo.
Felipe: se cuidem, beleza?
Liana: você também.
Ele se afastou, voltando para o outro lado da rua.
Assim que ficou fora do nosso alcance, Letícia soltou o ar de uma vez, como se tivesse esquecido de respirar.
Letícia: meu Deus… será que ele percebeu que eu tava suando?
Liana: isso eu não sei — falei, rindo — mas eu percebi um clima enorme entre vocês.
Letícia: para, Liana. Ele mal me nota.
Liana: ah, nota sim. E muito. Amiga, ele quase te comeu com os olhos.
Letícia: queria que ele me comesse com outra coisa — respondeu, simples demais.
Virei o rosto devagar para encará-la.
Liana: você não disse isso.
Ela me olhou por dois segundos. Depois, nós duas caímos na risada.
Liana: você é a virgem mais sem-vergonha que eu conheço.
Letícia: e você me ama mesmo assim.
Liana: infelizmente.
Seguimos andando, ainda rindo, mas comigo uma sensação estranha presa no peito.
Aquela tensão não tinha ido embora por completo.
E, sem que eu quisesse admitir, não era por causa do Felipe.
