Capítulo 3 Quanto vale a sua dignidade?
Liana
Eu e Letícia estávamos largadas no banco da pracinha, cada uma com um sorvete quase derretendo na mão, quando Carol e Suelen apareceram como quem brota do nada.
Carol: Iae, sumidas! Mó cota que a gente não vê vocês.
Ela já sentou no banco da frente como se fosse dona do pedaço.
Suelen: Mas também, né? Essas duas são mais difíceis que visita em presídio.
Letícia revirou os olhos.
Letícia: Engraçada ela.
Eu fiquei quieta. Nunca soube lidar muito bem com tensão. E entre Letícia e Suelen sempre existia alguma.
Meses atrás, Suelen cismou que Felipe tava dando mole pra Letícia. Não descansou enquanto não desfilou na garupa da moto dele pelas vielas do Alemão. Desde então, elas mal se suportam.
Eu sempre tento enxergar os dois lados. Talvez eu seja boba demais.
Aqui no Complexo do Alemão, as coisas funcionam diferente. Ninguém cresce sonhando pequeno, mas quase todo mundo acaba vivendo pequeno porque é o que sobra. Uns entram pro crime. Outros viram mulher de bandido. Outras fazem visita íntima,que dá quase no mesmo.
Não é bonito, mas é comum. E o que é comum deixa de chocar.
O que nunca deixa de assustar é o nome dele.
Terror.
Mesmo quando ninguém fala alto.
Carol: E aí, como tá a vida?
Letícia: Indo.
Suelen me olhou diferente dessa vez. Não era deboche. Era outra coisa. Eu senti antes mesmo dela abrir a boca.
Suelen: Mas indo bem mesmo, Liana?
Meu estômago gelou.
Liana: Por que não iria?
Ela respirou fundo, como quem entrega notícia ruim com certo prazer.
Suelen: Meu irmão comentou uma coisa. Sobre teu tio.
O mundo pareceu diminuir de tamanho.
Suelen: Ele tá devendo na boca. Alto.
Meu coração começou a bater nos ouvidos.
Liana: Ele vai pagar… — eu disse rápido demais, como se falar tornasse verdade.
Suelen: Acho que não, não. Ele implorou prazo. Deram um mês.
Um mês.
Letícia segurou meu braço.
Letícia: A gente fala com o Felipe.
Suelen balançou a cabeça.
Suelen: Não adianta. Lei é lei. Não pagou, morreu.
Ela falou simples. Como se dissesse “vai chover”.
E ali eu entendi uma coisa horrível: pra eles, era simples mesmo.
Liana: Então eu falo com quem manda.
Eu nem percebi quando falei. Mas falei.
Suelen soltou uma risada curta.
Suelen: Com o Terror? Ele te mata antes de você terminar a frase.
O nome dele caiu entre nós como uma arma sendo engatilhada.
Eu nunca tinha falado com ele. Só visto de longe. Cercado. Armado. Intocável. Não era homem que explicava decisão. Ele executava.
Carol: Teu tio vacilou feio. Ninguém faz dívida grande assim e acha que vai ficar por isso mesmo.
Eu comecei a tremer.
Liana: Eu vou dar um jeito.
Eu nem sabia que jeito. Mas falei.
Porque se ele morresse… eu ficava sozinha.
E eu já tinha enterrado gente demais na vida.
Suelen respirou fundo.
Suelen: Tem mais uma coisa.
Eu olhei pra ela já com medo do que viria.
Suelen: Ele deu a casa como parte do pagamento.
Meu sorvete caiu da minha mão.
Letícia: Tá maluca? A casa é deles!
Suelen: Era.
Silêncio.
Suelen: Se ele não tivesse dado, tinha morrido hoje. Mas o Terror tava… — ela fez uma pausa estranha — menos pior. Deixou vocês lá. Mas agora vocês pagam aluguel.
Aluguel da própria casa.
Eu senti o chão sumir.
Eu estava devendo. Eu estava prestes a perder a casa. E meu tio tinha prazo de validade.
Um mês.
Letícia: Por que vocês tão contando isso pra gente?
Carol trocou um olhar com Suelen.
Carol: Porque tem solução.
Meu corpo inteiro travou.
Carol: Eu e a Suelen fazemos visita íntima. Nossos presos têm conhecidos. Gente grande. Com dinheiro. Eles tão precisando de mulher.
Eu não entendi de primeira. Acho que meu cérebro se recusou.
Letícia entendeu.
Letícia: Você tá maluca de falar isso pra ela? Ela é menor!
Eu senti minhas bochechas queimarem. Eu sempre odiei quando falam de mim como se eu não estivesse ali.
Carol manteve a calma.
Carol: Eu tô oferecendo saída. Você ajuda, eles ajudam. Quinze em quinze dias. Só isso. Leva umas coisas. Passa recado se precisar. E ganha dinheiro de verdade.
Meu ouvido zumbia.
De fome a assassinato em menos de cinco minutos.
Liana: Eu…
Minha voz não saiu.
Suelen: Pensa, Liana. Um mês passa voando.
Eu sabia disso.
Eu tinha visto o tempo voar quando meus pais morreram.
Eu comecei a chorar. Não bonito. Não delicado. Chorar de verdade. Vergonha nenhuma, só desespero.
Carol segurou minha mão.
Carol: Calma. Vem aqui.
Elas me puxaram pra um canto mais vazio da praça.
Eu me sentia pequena. Ridiculamente pequena.
Liana: Acho que não tem outro jeito…
Eu falei baixo. Quase torcendo pra alguém dizer que eu tava errada.
Suelen suspirou.
Suelen: Eu sei que não é vida pra você.
E aquele olhar de pena me doeu mais do que a proposta.
Carol respirou fundo.
Carol: Se você não quiser cadeia… tem outra opção.
Letícia já balançava a cabeça antes mesmo de ouvir.
Carol: Se envolver com algum dos meninos do movimento. Mas não qualquer um. Um que ganhe bem. Respeitado. Que te banque. Pode ser temporário. Até pagar tudo.
Meu coração disparou diferente dessa vez.
Porque isso era ainda mais perto dele.
Do mundo dele.
Do Terror.
Carol continuou:
Carol: Você é linda, Liana. Fácil de alguém se apegar.
Eu senti nojo de mim mesma por, no meio do desespero, pensar:
Será que alguém como ele se interessaria por mim?
Eu nunca tinha falado com o Terror.
Mas o nome dele já decidia o destino das pessoas.
E agora talvez decidisse o meu.
Liana: Eu não sei… eu preciso pensar.
Minha voz já não saía tão tremida, mas por dentro eu estava em pedaços.
Letícia me encarou como se eu tivesse enlouquecido.
Letícia: Você não tá considerando isso, né?
Eu não respondi.
Porque eu estava.
Carol me olhou de um jeito diferente.
Carol: Você ainda é virgem?
Eu senti o rosto queimar.
Letícia: Cara, isso já passou de todos os limites!
Eu engoli seco.
Infelizmente, era.
Virgem.
Eu sempre achei que isso significava alguma coisa. Que era especial. Que teria música, luz baixa, alguém que me amasse. Não uma cela fria com cheiro de ferrugem.
Carol passou a mão no cabelo, irritada.
Carol: Letícia, você acha que eu gosto disso? Que eu tô sugerindo porque é bonito? Eu tô oferecendo saída. Você tem outra?
Letícia ficou em silêncio.
E o silêncio dela me apavorou mais do que qualquer coisa.
Porque significava que talvez não tivesse mesmo.
Eu comecei a chorar outra vez. Mas dessa vez era diferente. Não era só medo. Era vergonha. Vergonha de estar cogitando.
Carol respirou fundo.
Carol: Um dia eu também precisei. Ninguém apareceu pra me salvar. Eu me virei.
Ela não falava mais com raiva. Falava cansada.
Liana: Eu já tava afundada antes disso tudo… — falei baixo. — Faculdade, contas, comida… e agora isso.
Um mês.
Um mês até o Terror decidir se meu tio continuava respirando.
Carol enxugou os próprios olhos.
Carol: Sobreviver não é vergonha. Fazer o que for preciso pra continuar viva não é vergonha.
Ela levantou.
Carol: Pensa. Mas pensa rápido.
E foi embora.
Suelen ficou mais um segundo.
Suelen: Se você procurar o Terror direto, pode ser pior. Ele não é homem de conversa.
Aquilo ficou ecoando.
Ele não é homem de conversa.
Eu nunca tinha trocado uma palavra com ele. Mas bastava o jeito que ele andava pelo morro pra saber que ele não precisava falar alto.
Letícia me abraçou.
Letícia: Eu não queria que você passasse por isso.
Liana: Nem eu.
Mas eu queria salvar meu tio.
E queria continuar estudando.
E queria não passar fome.
Eu queria muita coisa pra quem não tinha nada.
Fui trabalhar no salão ainda com os olhos inchados. Passei a tarde inteira escovando cabelo e sorrindo como se o mundo não estivesse prestes a desabar.
Enquanto isso, minha cabeça repetia:
Visita íntima.
Cela.
Um estranho.
Ou… alguém do movimento.
A segunda opção parecia menos pior.
Pelo menos eu poderia escolher.
Escolher.
Que tipo de escolha era aquela?
Quando meu turno acabou, recebi meu pagamento. Pouco. Sempre pouco. Mas o suficiente pra eu sentir orgulho.
Passei no mercadinho e comprei o básico. Arroz, frango, umas coisinhas que cabiam no orçamento apertado.
Eu nunca tinha sentido fome de verdade até esses últimos tempos. Fome que dói na hora de dormir. Fome que faz o travesseiro ficar molhado de choro baixinho.
Cheguei em casa e deixei as compras na mesa.
Tomei banho demorado. Lavei o cabelo. Me depilei. Passei hidratante como se aquilo fosse algum tipo de armadura.
Eu precisava me sentir limpa.
Mesmo sem ainda ter feito nada.
Coloquei um vestido leve de ficar em casa e fui pra cozinha.
Preparei estrogonofe como se fosse um evento especial. Cortei o frango, refoguei, misturei tudo com cuidado.
Não pelo prato. Mas porque cozinhar me acalma. Me dá a sensação de controle.
Enquanto mexia a panela, pensei:
Será que ele comeria isso?
Eu nunca tinha visto o Terror comendo. Só armado. Só sério. Só distante.
Balancei a cabeça.
O que eu estava pensando?
Preparei meu prato com arroz, estrogonofe e batata palha. Fiz um suco de abacaxi.
Sentei na mesa sozinha.
A casa estava silenciosa.
E eu percebi uma coisa horrível:
Eu estava tentando aproveitar aquele jantar como se fosse o último momento normal da minha vida.
Porque talvez fosse.
Eu ainda não tinha decidido nada.
Mas dentro de mim, alguma coisa já sabia.
Um mês.
E o nome dele estava em tudo.
Terror.
