Capítulo 4 Ela não era mais criança

Terror


O rádio começou a chiar às sete da manhã.

Nem precisava olhar. Já sabia a hora.

Levantei no automático. Joguei água no rosto. Não adiantou. O cansaço não sai com água fria. Sai quando você dorme em paz — coisa que eu não faço há anos.

Entrei no banho só pra acordar o corpo. A cabeça já tava ligada desde antes de abrir os olhos.

Saí enrolado na toalha, fiz o básico.

Cueca branca, bermuda jeans, camisa preta jogada no ombro. Passei perfume. Não por vaidade. Costume.

Peguei o revólver e encaixei atrás da cintura.

Aqui ninguém anda desarmado.

E eu sou o último que pode dar esse vacilo.

Desci pra cozinha e a Dona Benedita ainda não tinha chegado. Estranhei. Ela nunca atrasa.

Ela me criou junto com minha mãe.

Depois que minha mãe morreu, ficou. Não por dinheiro. Por lealdade. O filho dela, Felipe, é meu braço direito. Se tem alguém que eu confio de olho fechado, é nele.

Entre todas as casas que eu tenho espalhadas pelo Alemão, essa é a única que eu chamo de casa.

Não fico direto aqui. Seria burrice.

Se der invasão, é o primeiro lugar que vão bater.

Por isso deixo arma e roupa espalhadas em outros pontos. Mas aqui não. Aqui é memória. E memória não se mistura com guerra.

Saí pra rua.

O Complexo do Alemão já tava acordado.

Gente abrindo portão. Criança correndo de uniforme. Música alta saindo de alguma laje. Cachorro latindo. Alguém gritando o nome do filho no beco.

Eu conheço cada rota daqui.

Não porque decorei.

Porque cresci fugindo, correndo, me escondendo, atacando.

Os becos não são labirinto pra mim.

São mapa.

Tem gente de fora que pisa aqui e se perde na primeira curva. Eu ando de madrugada sem luz e sei exatamente onde estou.

A favela é um organismo vivo.

Respira, grita, sangra.

E quando ela sangra… respinga em mim.

Tem gente que me odeia.

Tem gente que me teme.

E tem quem me respeite de verdade.

Eu não sou político, nem herói.

Mas enquanto eu tiver de frente, ninguém invade aqui sem resposta.

Confronto com polícia ainda acontece. Vai sempre acontecer. Crime não acaba porque alguém faz discurso bonito na televisão.

Mas tem regra.

E regra aqui é simples: quem entra, sabe o risco.

Já enterrei muito soldado. Já ouvi mãe me xingar na porta de casa. Eu não respondo. Só escuto.

Dor de mãe não se rebate.

Mas também não jogo a culpa nas minhas costas sozinho.

Ninguém é forçado a ficar.

Fica porque quer poder. Ou dinheiro. Ou respeito.

E às vezes porque não tem opção melhor.

Menor aqui não sobe pra linha de frente. Não comigo. Primeiro aprende. Primeiro aguenta pressão. Porque quando o bagulho estoura, não é videogame. É tiro de 7.62 rasgando parede.

E parede fina não segura bala.

Eu sei que muita gente acha que eu gosto disso.

Ninguém gosta de viver em alerta constante.

Mas eu gosto do controle.

Gosto de saber que, enquanto eu estiver aqui, a decisão final passa por mim.

Isso ninguém tira.

Tem beco aqui que é pesado.

Se parede falasse… metade do morro tava preso ou morto.

Mas o que eu mais gosto é que, apesar de tudo, os becos vivem.

Dia de jogo então? Parece final de Copa.

Flamenguista gritando, vascaíno sumido, cerveja quente, criança correndo no meio.

O povo vibra como se ali não existisse dívida, operação, medo.

E essa é a verdade que ninguém de fora entende:

Aqui também tem riso.

Tem vizinha que guarda chave da outra.

Tem criança dormindo na casa da frente porque a mãe precisou sair.

Tem silêncio estratégico quando passa o homem da prestação.

Tem casa inteira fingindo que não existe quando as Testemunhas de Jeová batem palma sete da manhã.

É quase coreografia.

E na mesma rua onde se esconde de dívida…

também se esconde de tiro.

De madrugada o silêncio muda.

Não é paz. É tensão.

Já ouvi grito de dor ecoar por beco apertado.

Já mandei buscar quem vacilou.

Aqui tem lei. E quem quebra, paga.

Mas também tem amor.

Eu nunca fui desses. Nunca parei pra ouvir música pensando em mulher de beco. Nunca fiquei esperando ninguém cantar no chuveiro.

Não nasci pra isso.

Ou pelo menos é o que eu sempre disse pra mim mesmo.

Terminei de comer qualquer coisa e fui pra boca.

Terror: Iae, menor. Tudo certo? — cumprimentei um dos vapores.

Os moleques tão sempre sob supervisão. Eu não jogo menor na linha de frente. Primeiro aprende. Primeiro aguenta pressão.

Na minha sala, papelada espalhada.

Carga que chegou.

Carga que ainda tá rodando.

Material que precisa ir pro paiol.

E o baile de amanhã.

Baile grande exige controle dobrado.

Eu tava resolvendo a logística quando a porta abriu sem bater.

Taynara.

Curta demais pra chamar de roupa. Perfume forte demais pra ser casual.

Suspirei irritado.

Terror: Já falei pra não entrar assim.

Ela ignorou. Veio com aquele olhar que mistura desejo com posse.

Taynara sempre foi leal. Quando eu fui preso, ela tava lá. Visitava. Levava recado. Encarava fila.

Eu não esqueço isso.

Mas gratidão não é amor.

Eu já dei tudo que ela pediu. Procedimento, cabelo, dinheiro pra família. Nunca deixei faltar nada.

Mesmo assim, ela insiste em ocupar um lugar que não é dela.

Taynara: Tava com saudade — murmurou, aproximando.

Eu devia ter mandado sair.

Mas às vezes aliviar a tensão é mais prático do que discutir.

Puxei ela pela cintura. Sem carinho. Sem promessa.

Ela sabe exatamente o que fazer.

E eu deixo.

Sem beijo. Sem conversa.

Só necessidade.

Quando terminou, me afastei primeiro.

Sempre me afasto primeiro.

Ela me olhou esperando algo que eu nunca entrego.

Taynara: Tô precisando de uma grana.

Fui até a mesa, peguei o dinheiro e joguei pra ela.

Terror: Se orienta. Não precisa gastar tudo pra chamar atenção.

Ela riu, dizendo que ficava bonita pra mim.

Ela ainda acha que é sobre isso.

Assim que ela saiu, o ar ficou mais leve.

Minutos depois, Felipe entrou com dois parceiros. Falamos do baile, da movimentação. Quando deu hora do almoço, saímos.

Foi quando senti.

Aquela sensação de estar sendo observado.

Levantei o olhar.

Ruiva.

Cabelo longo brilhando no sol. Pele clara demais pro sol daqui. Traço delicado.

Eu conhecia aquele rosto.

Demorei um segundo.

Terror: Aquela ali é sobrinha do Pedro?

Felipe confirmou.

Eu já tinha visto ela correndo descalça por esse morro anos atrás.

Agora não parecia mais criança.

Terror: Ela cresceu, né? — falei, ainda olhando.

Não era desejo.

Era estranhamento.

Como se o tempo tivesse passado e eu não tivesse percebido.

Felipe então lembrou:

Felipe: Tu mandou passar o tio dela hoje.

Fiquei em silêncio.

Pedro tava devendo há três meses.

Regra é regra.

Mas por um segundo, pensei nela vendo o corpo do tio estendido.

Não gosto de misturar decisão com rosto.

Perguntei quanto tempo de cobrança.

Mais um mês.

Terror: Dá mais um prazo. Último.

Felipe me olhou surpreso, mas assentiu.

Eu não mudo regra por qualquer coisa.

Mas também não sou burro.

Subi na moto, mas antes de sair, olhei de novo.

Ela não me olhava com medo.

Nem com admiração.

Era outra coisa.

E aquilo me incomodou mais do que deveria.

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