Capítulo 5 Eu darei um jeito

Liana


Acordei no meio da madrugada com um barulho estranho no quarto. Algo sendo arrastado.

Abri os olhos devagar… e vi.

Meu tio estava sentado na minha poltrona rosa, me olhando dormir.

De novo.

Levantei rápido e acendi a luz.

Liana: Tio Pedro… o senhor precisa parar de fazer isso. Sério. Isso é esquisito.

Ele piscou devagar. Olhos vermelhos.

Cheiro forte de álcool misturado com droga.

Pedro: Eu tento não te culpar… — murmurou, com a voz embolada. — Mas eu culpo.

Meu estômago apertou.

Pedro: Quando eu olho pra você dormindo… parece criança de novo.

Aí eu esqueço que você estragou minha vida.

Não teve preparação.

Foi direto.

Eu já sabia que ele pensava isso.

Mas ouvir é diferente.

Liana: Eu não escolhi nascer.

Pedro: Mas nasceu.

Cruzei os braços, tentando parecer mais firme do que eu me sentia.

Liana: O senhor também nasceu e nem por isso saiu culpando todo mundo.

Ele riu sem humor.

Pedro: Você trouxe dívida. Problema. Despesa.

Liana: Eu trouxe boletim bom também. Nunca repetí de ano.

Ele bateu no braço da poltrona.

Pedro: Eu te odeio.

Silêncio.

Eu sempre acho que uma hora isso vai parar de doer.

Nunca para.

Aproximei pra ajudar ele a levantar.

Liana: Vem, o senhor tá muito bêbado.

Ele me empurrou.

Caí sentada no chão.

Pedro: A culpa da morte dos seus pais é sua!

Minha respiração travou.

Mesmo sabendo que era mentira…

sempre existe aquele segundo em que a dúvida atravessa.

Liana: O senhor não tem o direito de falar isso.

Pedro: É a verdade! — gritou, já chorando.

Eu respirei fundo.

Eu podia ter deixado.

Podia ter ficado quieta quando os homens vieram cobrar.

Podia ter fingido que não sabia de nada.

Mas eu não deixei.

Liana: Eu podia ter deixado eles te matarem.

Ele congelou.

Pela primeira vez naquela noite, ficou sóbrio.

Caiu no chão, chorando de verdade.

Não aquele choro manipulador.

Choro de quem sabe que perdeu o controle da própria vida.

Eu fiquei olhando.

Sem saber se ajudava.

Se gritava.

Se ia embora.

E o pior é que, mesmo depois de tudo…

Eu ainda queria consertar.

Liana: Por quê?... — minha voz saiu quase sem som. — O quê?... — nem eu sabia o que queria perguntar.

Pedro: Eu… — ele esfregou o rosto com as mãos. — Eu não sei mais o que fazer.

Ele parecia pequeno. Menor do que eu.

Eu queria odiar. Juro que queria.

Mas meu coração é um traidor.

O vício não começou comigo. Eu sei disso.

Mas eu virei a desculpa perfeita.

Ele escolheu droga achando que tinha controle.

Ninguém nunca acha que vai se perder.

E quando percebe… já perdeu tudo.

Liana: A gente vai dar um jeito.

Pedro: Não tem mais jeito.

Levantei o rosto. Pela primeira vez, firme.

Liana: Eu vou dar um jeito.

Ele me olhou como se estivesse vendo alguém que não conhecia.

Pedro: Como?

Eu hesitei por meio segundo.

Liana: Eu quito a dívida. Antes de um mês.

Pedro arregalou os olhos.

Pedro: Com o quê?

Liana: Não importa. — cruzei os braços. — Mas presta atenção numa coisa… se você voltar a usar… eu não interfiro mais. Eu deixo acontecer.

Ele entendeu.

E eu também.

Liana: Agora sai do meu quarto.

Ele saiu calado.

E quando a porta fechou… eu desmoronei.

Sentei na cama, abracei minhas pernas e chorei sem fazer barulho.

Porque aqui chorar alto é luxo.

Depois de alguns minutos, ajoelhei no chão.

Eu sempre faço isso quando não tenho saída.

Liana: Oi… — falei baixinho. — Eu sei que eu só apareço quando tá tudo desmoronando. Mas eu não sei mais o que fazer.

Respirei fundo.

Liana: Eu vou fazer uma coisa que talvez o Senhor não goste… mas é a única que eu consegui pensar. Se tiver outro caminho… me mostra. Rápido. Porque eu tô com medo de mim mesma.

As lágrimas caíam quentes.

Liana: E… fala pros meus pais que eu tô tentando. Eu juro que eu tô tentando.

Fiquei ali até o corpo cansar.

Voltei pra cama.

Quando acordei, o despertador gritava seis da manhã.

Sábado. Dia de salão.

Prendi o cabelo, coloquei uma roupa simples e minha inseparável havaiana. Fiz café forte, panqueca e deixei um prato separado pro tio.

Porque mesmo com tudo… eu ainda cuido dele.

O salão estava cheio. Trabalhei até depois do almoço.

Depois subi os becos até a casa da Letícia.

Dona Olga abriu a porta sorrindo.

Dona Olga: Ô minha filha, entra.

Liana: Sua bênção.

Dona Olga: Deus te abençoe.

Aquele carinho sempre desmonta alguma coisa dentro de mim.

Tia Suzane apareceu da cozinha.

Suzane: Letícia tá no banho. E você, tá bem?

Eu quase ri. Essa pergunta sempre vem no pior dia.

Liana: Tô levando.

Elas trocaram um olhar. Não estavam bem também.

Descobri que Dona Olga tinha perdido o emprego.

E quando ela disse que estava sem pó de café… meu coração apertou.

Eu podia estar desesperada.

Mas fome ainda me dói mais.

Liana: Eu vou buscar umas coisas lá em casa.

Suzane: Nem pensar.

Liana: Pensar sim. E acabou a discussão.

Voltei com arroz, feijão, açúcar, café, óleo, fubá. Tudo dividido,porque eu também não tinha! Sorte que havia recebido dinheiro ontem ,e hoje tenho para dividir com elas ,mesmo que vá me faltar mais rápido.

Os becos cansam. Mas ajudar nunca pesa.

Quando entreguei a sacola, Letícia gritou do quarto:

Letícia: Vem cá, Lana!

Entrei.

Letícia: Adivinha quem vai pro baile hoje?

Revirei os olhos. Ela é assim com os problemas,se tá fora do alcance dela agora , então não tem nada que ela possa fazer! Ela vai sofrer? Vai nada! Vai pro baile funk.

Liana: Você. Como sempre.

Letícia: Eu… e você!

Ri.

Liana: Eu não vou, não.

Letícia: Vai sim! Você prometeu se distrair.

Eu me joguei na cama dela.

Liana: Minha cabeça tá um caos.

Letícia: A minha também,não como a sua, mas também está! Então bora dançar até esquecer.

Ela sempre acha que dançar resolve tudo.

Talvez resolva um pouco.

Eu suspirei.

Liana: Tá. Mas você escolhe a roupa. Porque se depender de mim eu vou de moletom.

Ela bateu palma animada.

Letícia: Finalmente!

Liana: Mas olha… se começar tiro eu corro primeiro e te deixo pra trás.

Letícia: Mentira, você não deixa ninguém pra trás.

Infelizmente, ela me conhece.

Saímos rumo à minha casa pra começar o ritual demorado de arrumação.

O baile começava às dez.

Mas pra Letícia, cinco da tarde já era atraso.

E enquanto ela falava animada sobre música, bebida e gente bonita…

Eu só pensava em uma coisa:

Eu tinha um mês.

Um mês pra salvar meu tio.

Um mês pra me perder.

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