Capítulo 2 Beatrice
O filho mais novo, Nitta, era frequentemente visto na mídia, geralmente em relação a casos judiciais nos quais os suspeitos misteriosamente caíam antes de qualquer dano real. Ele era o mais público dos Morunaga, um ano mais velho que eu, com cabelo mais claro e um bronzeado natural herdado do pai.
Fukui, o filho do meio, era raramente mencionado. Além de sua imagem ocasional na mídia e dos boatos que circulavam entre meus primos, não sabia muito sobre ele. Embora tão atraente quanto seus irmãos, ele mantinha seus cabelos negros bem curtos.
E por fim, Ryuu Morunaga. Não havia dúvida em minha cidade natal de que ele seria tão cruel e impiedoso quanto seu pai, Gojou. Já havia começado a expandir o império Morunaga e estava no poder há menos de um ano. Sua aparência era mais assustadora que atraente. Apesar de suas feições afiadas, pele clara em comparação aos irmãos e cabelos espessos como obsidiana, sua reputação com mulheres era praticamente inexistente.
Ele já estava casado com seu império, o que me fazia questionar por que meu pai desejava que eu me casasse com ele. Certamente Ryuu não havia concordado com tal absurdo.
— Pai, você não pode estar falando sério…
— Beatrice… — sussurrou, cansado. — Não preciso de uma resposta agora, apenas pense sobre o assunto.
Por que ele estava mentindo para mim? Eu podia ver o brilho suplicante em seus olhos. Giacomo estava desesperado. Se precisava que eu concordasse com este casamento, por que me daria a ilusão de escolha?
— Mas, papai — comecei, minha voz se tornando firme.
Não recuaria e não permitiria que meu pai evitasse uma conversa tão séria. A família Morunaga era perigosa. Minha mãe morreu devido ao envolvimento no trabalho dele. Não foi por isso que ele ficou tão ansioso para permitir meu retorno a Palermo? Certamente ele não desejava que o mesmo destino recaísse sobre mim.
Não podia me casar com um homem tão frio e cruel quanto o filho mais velho dos Morunagas. Seria miserável e um alvo fácil para quem quisesse prejudicar aquela família.
— Beatrice! — meu pai estalou, um olhar afiado superando suas feições. Não era comum ele levantar a voz para mim.
Giacomo suspirou pesadamente.
— Não quero discutir sobre isso. Só quero saber se aceitará a proposta de casamento da família Morunaga ou não.
— Exceto que não é realmente uma escolha, não é? — retruquei, minha voz tremendo. — Nunca é quando se trata do seu trabalho. O que acontecerá se eu disser não? Minha vida ou a sua estará em perigo?
Meu sangue borbulhava forte em minhas veias. Eu podia sentir o calor ardente em minhas bochechas e as lágrimas esperando para cair. Traição. Isso era todo o sentimento de raiva e vergonha que me consumia. Traição do homem em quem mais confiava.
Os olhos de meu pai estavam apertados com força, um rosnado em seus lábios enquanto dirigia toda sua fúria para mim, sua única filha. Eu nunca o vira assim antes. Isso mostrava o quão crucial este casamento era. Ambos estávamos dolorosamente conscientes da pouca escolha que nos restava. Eu poderia entregar minha vida nas mãos do diabo ou morrer.
Eu sabia que os negócios do meu pai voltariam para me atingir um dia. Foi ingênua ao pensar que poderia escapar de tal destino, quando tantas mulheres antes de mim sofreram a mesma situação.
Com o coração pesado, baixei o olhar para os desenhos na mesa de madeira, meus dedos seguindo as linhas lentamente enquanto reunia a vontade de falar.
— Eu… — engoli seco antes de continuar — eu aceito, pai.
As palavras eram como ácido em minha língua. Falei sem que minha voz quebrasse sob a dor que pesava em meu espírito. Toda a emoção de voltar para casa seria para sempre manchada por este momento. Limpando a garganta e controlando as lágrimas que molhavam minhas bochechas, levantei-me, mantendo os olhos baixos enquanto saía da sala sem dizer mais nada.
Não podia estar perto do meu pai agora, não depois dessa quebra de confiança. Ele dizia querer me manter segura, mas aqui estava ele, colocando-me nas mãos de uma das maiores famílias mafiosas existentes. A família Morunaga era o centro da violência e crueldade, e só um tolo se envolveria de bom grado com eles.
Segui a música fraca que vazava pela casa, sabendo que vinha do salão. Precisava conversar com meu avô sobre isso. Talvez ele pudesse esclarecer a situação. Que maneira infernal de começar as férias. Nenhuma lágrima caía agora, mas meus olhos ainda ardiam e meu coração doía. Não conseguia imaginar em que tipo de confusão meu pai se meteu para causar esse caos.
Ao longo dos anos, fui mantida afastada do trabalho dele, aprendendo a não fazer perguntas. Era irônico que, depois de tantos anos fechando os olhos para o trabalho de meu pai, agindo ignorante durante toda a minha infância e adolescência, fosse agora amaldiçoada a pagar suas dívidas assim que entrei na idade adulta.
Suspirei novamente antes de levantar a cabeça e puxar os ombros para trás. Era uma Carbone, apesar de tudo. Era forte e suportaria o que fosse, como muitas mulheres antes de mim nessa situação. Não era a primeira mulher colocada em um casamento forçado e não seria a última. Claro, esse encorajamento fraco morreu assim que adentrou em minha mente.
Enquanto procurava meu avô, pensava que casar com um homem que não conhecia já era difícil, mas casar com um Morunaga era uma perspectiva totalmente diferente.
Quando entrei no salão, esperava ver o belo sorriso do meu avô, mas, em vez disso, fui recebida com os rostos sombrios de quatro homens incrivelmente familiares. Estavam todos bem vestidos, com ternos e gravatas, apesar do clima escaldante. Todos, exceto meu avô, ficaram de pé quando entrei.
Senti o sangue escorrer do meu rosto enquanto olhava assustada para os rostos impassíveis da família Morunaga. Sentado ao lado de meu avô, que estava no centro da mesa, estava Gojou. Ele me fixou com um olhar inquiridor no minuto em que entrei em seu campo de visão.
— Boa tarde, senhor Morunaga. — Era evidente em meu rosto o desgosto pelo casamento do qual acabara de ser informada.
— Por favor — acenou, dispensando as formalidades, com um sorriso que só podia imaginar ser reconfortante. No entanto, a intensidade de seus olhos negros traía a tentativa amigável. Ainda avaliava, como se decidindo o que fazer comigo. — Me chame de Gojou.
— Claro, senhor Morunaga — respondi, sem me sentir muito confortável.
Meu avô me olhou com censura. Gojou sorriu, mostrando os dentes de uma maneira não muito gentil. Apesar de tê-lo desafiado — mesmo sem intenção —, ele não disse nada e continuou com sua expressão de alegria forçada. Gesticulou para os homens ao seu lado, todos permitindo que seus olhos traçassem minha forma tensa enquanto me avaliavam.
— Meus filhos: Fukui, Nitta e, claro, Ryuu.
Mal olhei para os dois primeiros, pois meus olhos foram imediatamente atraídos para meu futuro marido. Sua expressão parecia menos do que satisfeita enquanto me encarava por trás de óculos escuros, sem dúvida caros. Apertei os lábios, segurando qualquer comentário sarcástico que queria escapar.
