Capítulo 5 Ryuu e Beatrice
&BEATRICE&
Enrijeci ao sentir Ryuu roçar levemente em minha pele ao se sentar na cadeira ao meu lado. Foi a primeira vez que ouvi sua voz, e o tom enviou um calafrio pela minha espinha, fazendo meus cabelos se arrepiarem.
Um rápido olhar na sua direção fez meu corpo tremer novamente quando percebi seu olhar intenso sobre mim, como se ele pudesse ler cada pensamento que passava pela minha mente.
— Seu irmão está certo. Mostre um pouco mais de respeito pela noiva dele!
Preferia que ele tivesse permanecido calado. Não precisava de um lembrete de que agora era a noiva de alguém da família Morunaga.
Meus olhos começaram a arder com a ameaça de lágrimas, mas não iria chorar. Repreendi-me silenciosamente e corri de volta para a cozinha para me recompor, usando o pretexto de pegar o vinho. Quando voltei, um silêncio incômodo pairava no ar.
Pelas feições sombrias de Nitta, deduzi que palavras mais duras haviam sido trocadas na minha ausência.
Toda essa situação era profundamente desconfortável. Entendia a necessidade de me familiarizar com Ryuu antes do casamento, mas não gostava nem um pouco daquilo.
— Então — disse assim que todos começaram a comer —, quando será o casamento?
— Não agora, Beatrice — repreendeu meu pai imediatamente.
Encolhi-me com o tom afiado de sua voz, um lembrete claro de que deveria me comportar e manter-me calada. Ao meu lado, Ryuu ficou tenso, seu ombro roçando no meu enquanto ele se ajustava na cadeira. Senti um desejo incontrolável de me afastar, criar uma distância segura entre nós. Estar tão próxima a ele me deixava inquieta.
E ali, presa entre a irritação do meu pai e a presença intimidadora de Ryuu, não havia como escapar da mesa. Ou sequer da casa. Talvez deixar as baleias me devorarem fosse uma opção melhor.
— Por que não? — insisti, com firmeza. — Prefiro saber os detalhes mais cedo para me preparar.
Fixei meu pai com um olhar desafiador, ciente de que todos os olhares estavam sobre mim. Não me importava se causava uma cena; ele me empurrou para essa situação, então deveria lidar com as consequências.
O homem taciturno ao meu lado falou:
— Preparar?
Não desviei o olhar de meu pai. Era extremamente rude, e eu sabia que meu avô me repreenderia mais tarde, mas meu pai certamente estava escondendo algo. Ele precisava entender quão furiosa eu estava. Nunca fui uma filha quieta e mansa, mas nunca confrontara meu pai com tanta raiva.
— Acabei de descobrir que vou me casar contra minha vontade. Precisarei de tempo para processar isso. Sem mencionar que, presumo, teremos que fingir que foi um acordo e não um casamento forçado. Devemos aparentar ser um casal apaixonado?
— Boa sorte com isso. Ryuu nem tem coração — zombou Nitta.
— Talvez se você passasse mais tempo trabalhando como Ryuu e menos tempo flertando, ganharia mais respeito — resmungou Fukui.
— Respeito? Acha que ele recebe algum respeito? — respondeu Nitta com um tom irônico e ligeiramente irritado.
— Bom, é o que menos você recebe — rebateu Fukui, e sua voz carregava uma nota de desprezo.
Nitta encarou o irmão, e seu sorriso desapareceu, tornando-se uma linha sombria e tensa. Fukui, satisfeito, tomou um gole de sua bebida antes de se voltar para o pai:
— Beatrice está certa. Os dois vão precisar se acostumar um com o outro, a menos que você queira que as pessoas comecem a comentar — disse ele, acenando na nossa direção.
— Tenho certeza de que Beatrice e Ryuu sabem se comportar adequadamente em público — respondeu Gojou ao segundo filho, chamando minha atenção. — Tenho fé de que tudo correrá bem.
Havia uma ameaça velada nas palavras de Gojou, e eu senti o peso delas.
— O casamento será realizado aqui, apenas a família imediata ficará nas outras casas da ilha.
— Aqui? — ofeguei, soltando os talheres. Uma onda de tontura me envolveu. Meu pai tinha planejado duas semanas na ilha, e isso significava…
— Oito dias — confirmou Gojou, com uma centelha de humor no olhar ao observar minha reação.
— Pois bem — murmurei, engolindo a raiva, sem saber como responder sem me levantar e gritar com meu pai.
Terminei rapidamente minha refeição, sem voltar a falar, ouvindo as provocações entre Fukui e Nitta e a conversa educada entre meu pai, avô e Gojou. Pareciam já uma família feliz e organizada, e, claro, ninguém se importava com minha opinião sobre o assunto. Sentia o olhar de Ryuu sobre mim, mas não podia encará-lo, com medo de que ele visse as lágrimas que ameaçavam cair dos meus olhos. Em vez disso, mantive a cabeça baixa até limpar o prato.
Assim que terminei, pedi licença, sem esperar uma confirmação dos outros à mesa. Minha voz saiu fraca, quase submissa, e odiei isso. Meu avô me lançou um sorriso reconfortante do outro lado da mesa. Percebi os olhares curiosos dos dois irmãos mais novos.
— Nos vemos de manhã. Aproveite seu descanso — disse meu avô, em tom amável.
Eu só queria desaparecer.
&RYUU&
Eu estava alheio à conversa ao meu redor. Todos, exceto minha futura esposa, tinham se reunido no salão para beber antes de se retirarem para seus quartos. Mas conversar não me atraía.
Beatrice ficou retraída durante o jantar, e eu sabia que a culpa era da pressa com que tudo estava acontecendo. Eu podia entender seu medo ao se casar comigo. Não era justo esperar que ela aceitasse uma mudança tão drástica e rápida em sua vida. Não era algo pessoal, e eu não deveria me ofender com sua relutância. Qualquer um sentiria o mesmo, independentemente de quem fosse se casar. Claro que ela estava assustada.
Eu também precisava aceitar a perspectiva do casamento. Nunca havia considerado isso antes e, com certeza, não queria pensar nisso agora.
Uma dor aguda na nuca me trouxe de volta dos meus pensamentos. Virei-me irritado para encarar o agressor, mas minha expressão esfriou ao perceber que era meu pai.
— Estávamos falando com você — resmungou ele.
— Papai estava dizendo que você precisa se esforçar mais, tentar algo diferente de ignorar completamente Beatrice — Nitta se intrometeu, com aquele sorriso provocador de sempre.
— Talvez falar com ela ajude — acrescentou Giorgio com uma risada.
Diferente do meu irmão, eu realmente respeitava Giorgio Carbone. Pelo que percebi nas reuniões anteriores, ele era o tipo de homem que preferia observar atentamente as pessoas ao redor em vez de impor suas opiniões. Um homem perigoso para se antagonizar e um aliado valioso. Em vez de revirar os olhos, escolhi ser cortês.
— Vou ter isso em mente — respondi, apreciando o conselho do homem mais velho, mesmo que não o seguisse à risca.
Foi a última vez que falei naquela noite, mas meus irmãos compensaram meu silêncio com suas conversas animadas.
Quando finalmente me retirei para o meu quarto, fui surpreendido pela presença indesejada do meu irmão mais novo, caminhando ao meu lado.
— O que você quer, Nitta? — perguntei, cauteloso. Estava cansado demais para suas brincadeiras. Nitta apenas deu de ombros, seguindo em silêncio, mas quando cheguei à porta do meu quarto, ele cutucou meu braço, sorrindo daquele jeito irritante.
— Beatrice, hein.
— Nem pense nisso — adverti, estreitando os olhos. Nitta ergueu as mãos, fingindo inocência, mas seu sorriso diabólico permaneceu.
— Eu não vou fazer nada. Além disso, você precisa de toda a ajuda que puder — brincou. — Ela estava tão tensa ao seu lado que, em um momento, pensei que fosse vomitar. Cara, você realmente sabe como afastar as mulheres.
— Fico lisonjeado por seu esforço em me dizer isso, mas não sou um completo idiota quando se trata de mulheres — revirei os olhos diante do sorriso desonesto que se espalhou pelo rosto de Nitta.
Eu não me preocupava com a reação de Beatrice à minha presença no jantar. De que outra forma ela reagiria a um homem com quem estava sendo empurrada para um casamento? Com o tempo, ela ficaria mais confortável comigo, eu acreditava.
Eu já me sentia confortável na presença dela. Beatrice era fisicamente atraente, e sua confiança era ainda mais cativante. Quando a vi desafiar o pai durante o jantar, soube que ela seria uma esposa forte para os Morunagas. Talvez esse casamento não fosse um desastre completo, afinal.
