Capítulo 6 BEATRICE

Depois de uma noite agitada e quase sem dormir, decidi que toda a tensão entre mim e Ryuu precisava ser resolvida rapidamente. Com determinação, percorri a casa em busca do meu noivo, ao mesmo tempo, aterrorizante e intrigante. Meus cachos ruivos balançavam a cada passo, até que parei abruptamente na porta do salão.

Lá estava Ryuu, sentado sozinho, digitando furiosamente em um notebook preto e elegante, uma carranca pesada marcando sua testa.

Mais uma vez, ele vestia calças pretas e uma camisa branca desabotoada no colarinho, com as mangas arregaçadas até os cotovelos. Não pude deixar de me perguntar se ele possuía outras roupas. Este certamente não era o traje apropriado para o clima das Bahamas.

Na noite anterior, no conforto do meu quarto, pesquisei na internet todas as informações sobre o homem que seria meu marido. Cada jornal, coluna de fofoca e artigo reforçava a imagem que eu tinha dele: sempre vestido com um traje de negócios impecável. Após vê-lo pessoalmente, não me surpreenderia se ele dormisse de terno.

Fiquei parada na porta, despercebida, enquanto Ryuu estava completamente focado em seu trabalho. Limpei a garganta, tentando chamar sua atenção.

Ele não se assustou com a minha presença; em vez disso, levantou uma sobrancelha por cima dos óculos, que lhe davam um charme adicional, devo admitir, e me olhou com um misto de curiosidade e tédio por cima da tela.

— Sim? — disse ele, com uma voz profunda. Ao contrário do sotaque marcado de seu pai, Ryuu falava com a cadência familiar de alguém de Los Angeles. Fiquei impressionada com a fluência dele, e da família Morunaga, em italiano, e me perguntei quantas línguas mais aquele homem dominava.

De repente, uma preocupação me atingiu: teria eu que aprender japonês?

— Está sempre trabalhando? — perguntei educadamente, movendo-me para me sentar à sua frente.

Olhei pela janela e confirmei que o clima estava lindo. Enquanto a maioria aproveitaria para relaxar ao sol ou nadar no oceano, Ryuu permanecia em casa, provando ser sempre o homem de terno rígido.

— O que mais eu deveria estar fazendo? — ele replicou, com um olhar vazio, antes de voltar ao seu trabalho.

Observei, estreitando os olhos, enquanto Ryuu retomava a digitação, sem me dar mais atenção.

Todo o esforço que fiz para conhecer meu noivo! E ele mal percebeu minha presença. Essa falta de interesse parecia ser uma barreira a mais entre nós. Precisava encontrar uma maneira de quebrar essa parede invisível que ele insistia em manter.

Esperei em silêncio, torcendo para que ele me dirigisse um olhar ou tentasse puxar conversa, mas isso não aconteceu. Lutei contra a vontade de fechar aquele maldito notebook e jogá-lo pela janela, direto na água lá fora.

Observei-o com atenção, analisando cada detalhe: o formato da mandíbula, os lábios finos, a cor penetrante dos olhos, a força do olhar. Seus braços eram musculosos, decorados por tatuagens de dragões que serpenteavam até a camisa bem ajustada ao peito. Não podia negar que ele era bonito, especialmente com aqueles óculos de aro grosso.

Não parecia nada com um mafioso. Um leve sorriso ameaçou escapar dos meus lábios, mas balancei a cabeça vigorosamente, tentando afastar pensamentos indecorosos.

— Então… — Quebrei o silêncio, estalando a língua em frustração quando Ryuu continuou a trabalhar. — Entendo vagamente por que seu pai pode pressionar por este casamento, mas por que você concordou?

Finalmente, Ryuu ergueu os olhos para mim, desviando-se do notebook. Recostou-se na cadeira, cruzando os braços, e me observou intensamente, fazendo meu coração acelerar.

— A união de nossas famílias beneficiará a força dos meus negócios — respondeu, com uma voz tão monótona que quase me fez rir.

— Seus negócios?

— Construção de condomínios de luxo — ele mentiu com uma naturalidade irritante, a expressão impassível me fazendo morder a língua.

— Ah, claro. Esse negócio — retruquei amargamente. Não sabia por que ele escolhia mentir, mas não era ingênua em relação à vida que ele levava. Conhecia bem os negócios da minha própria família e me recusava a ser apenas mais uma esposa sem nome, um adereço decorativo ao lado de um mafioso.

Compreendi perfeitamente que o casamento não fortalecia a rede de condomínios de luxo dos Morunaga. Quando fosse anunciado que a única neta de Giorgio Carbone estava casada com Ryuu Morunaga, o império dele se tornaria instantaneamente mais poderoso. Teriam de lidar com mais ameaças, é claro, mas também se tornariam um inimigo formidável com o apoio do meu avô.

— Esperava outra resposta? — Ryuu perguntou, um sorriso se formando nos lábios. Nunca vi um homem parecer tão cruel, e meu coração deu um salto estranho. — Preferia que eu confessasse uma eterna atração por você? Ou quem sabe você tenha uma confissão dessas a fazer?

— Que merda você está falando? — disparei, sem pensar. Meu tom de aversão o fez limpar a garganta, em um gesto ameaçador.

Será que ele realmente acreditava que eu desejava esse relacionamento? Ou pior, que eu o desejava?

— Apesar de não parecer uma típica mulher italiana, você é atraente. Mas não espere romance em nosso casamento.

— Ha! — bufei, revirando os olhos com raiva.

Eu sabia que não me encaixava no estereótipo. Não era alta e esbelta, mas baixa e “cheia”, algo que mulheres bem-intencionadas gostavam de me lembrar nos últimos anos. Não me importava se Ryuu Morunaga achava isso atraente. O que me incomodava era ele presumir que eu era uma jovem ingênua desesperada por elogios.

— Você é muito arrogante — retruquei, franzindo a testa, odiando o quanto ele parecia calmo enquanto meu sangue fervia. Ryuu não parecia nem um pouco perturbado com meu temperamento explosivo.

— Sou apenas franco. Não quero que tenha seu coração partido.

A vontade de jogar algo no oceano era agora irresistível, e não se limitava ao notebook dele.

— Acho que terminamos nossa conversa. Imagino que passar mais tempo na sua companhia me dará uma enxaqueca. Não vou mais o incomodar.

Com a raiva alimentando cada passo, saí da sala. Se aprendi algo com esse breve encontro, é que meu futuro marido tinha uma habilidade incrível de me enfurecer.

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